A esquerda quer viver de dinheiro do ‘Fundo Partidário’ e tem preguiça
de pensar, escreve Guzzo em sua coluna no Estadão. A meu ver, ela perdeu
o tino em 1989 e jamais se recuperará:
Jair Bolsonaro pode não ser o presidente a que o Brasil faria jus,
por mais que seus 57 milhões de votos lhe garantam o direito de estar
onde está, mas é com certeza o presidente que a esquerda brasileira
merece. Tente pensar um pouco nisso, toda vez que sua reserva de
paciência com ele esquentar a ponto de estourar o termômetro – é um
santo remédio. Com os adversários que Bolsonaro tem, na esquerda e nessa
pasta liberal-intelectual-equilibrada-etc. que lhe faz companhia, é
isso mesmo que dá para ter. O cálculo é bem simples. A denúncia capital
apresentada contra o presidente, sobretudo nas regiões que se consideram
as mais civilizadas da sociedade brasileira, é a sua falta de sintonia,
segundo dizem, com as exigências dos regimes democráticos. E a esquerda
nacional, então? Qual seria, exatamente, o grau de sua devoção à
democracia? Alguma coisa abaixo do zero – e aí fica claro que, se o
problema do Brasil é a hostilidade à democracia, então não é em
Bolsonaro que está o problema.
A verdade nessa história, pelo que mostram os fatos da vida real, não
tem altas complicações. Ela revela que um militante de esquerda
verdadeiro, que está na atividade política para ganhar, tem de ser
obrigatoriamente contra a democracia – se não for, estará sendo apenas
um bobo. Ser de esquerda e, ao mesmo tempo, ser racional é ter
exatamente o entendimento de Lenin,
o criador do esquerdismo universal, sobre as questões políticas
essenciais. Não há outro entendimento disponível – pois também não há
nenhum outro conjunto de ideias que façam tanto sentido quanto as dele.
Ou o sujeito, na prática, segue a lógica de Lenin para construir e
manter de pé um regime de esquerda, ou não chegará nunca a lugar nenhum.
Pode até chegar – mas não fica. Para alguns, como se sabe, a coisa pode
acabar num xadrez de polícia.
Jamais houve lugar para a democracia num regime esquerdista feito
para durar – não porque Lenin fosse um mau sujeito, mas porque tinha
certeza de que era impossível existirem no mesmo espaço um regime
socialista e liberdades democráticas. Não pode haver, por exemplo,
eleições livres. Por quê? Porque os adversários podem ganhar e aí eles
mandam o socialismo
para o espaço. Não pode haver liberdade de imprensa porque a oposição
vai usar essa liberdade para falar mal do governo, e isso é um perigo.
Não pode haver a separação e independência de poderes. Um poder
judiciário independente pode condenar os partidários e absolver os
inimigos. Um poder legislativo livre pode aprovar leis que o governo não
quer e rejeitar as que está querendo. É impossível ter Forças Armadas
profissionais e subordinadas à lei, pois elas podem não cumprir as
ordens do partido; os oficiais têm de obedecer aos comissários
políticos, ou então quem está no governo não está de fato no poder. Tem
de existir um partido só porque não pode haver oposição – e por aí
vamos. Até hoje não apareceu nenhum sistema tão eficaz quanto esse para
criar um regime de esquerda. Quem copiou, como Fidel Castro, se deu bem,
ficou no poder até o fim da vida. Quem tentou fazer diferente se deu
mal.
A esquerda brasileira não pensa em nada disso, porque tem medo de bala de borracha, quer viver de dinheiro do “Fundo Partidário”
e tem preguiça de pensar – mas mesmo que pensasse não iria adiantar
nada, porque não há meios, simplesmente, de se montar o sistema descrito
acima. Ele segue regras feitas há mais de 100 anos, e o mundo em que
esse catecismo valia não existe mais. A única saída, para o esquerdista
de hoje no Brasil, é ser capitalista – e aguentar, aqui e ali, levar
vaia em avião. Que fazer?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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