O que realmente interessa é o que recebemos (em termos de bens de
consumo) em troca daquilo que produzimos. A ideia de "crescimento guiado
pelas exportações" não faz sentido. Artigo de Donald Boudreaux, via Instituto Mises:
"A economia crescerá conduzida pelas exportações!", gritam 10 em cada 10 economistas desenvolvimentistas. Isso faz sentido?
Vejamos.
Crescimento e enriquecimento
O que gera crescimento econômico é um aumento na produção. E aumentos na produção requerem, além de investimentos, aumentos na especialização da mão-de-obra. Aumentos na especialização, por sua vez, requerem aumentos no comércio.
Se, por exemplo, você se especializa na produção de rolamentos,
você só irá prosperar se houver várias pessoas com quem você possa
fazer transações comerciais — não apenas compradores dispostos a
adquirir seus rolamentos, mas também vários vendedores dispostos a
fornecer a você vários bens e serviços que você poderá comprar com a
renda adquirida com seus rolamentos. É exatamente o seu consumo destes
bens e serviços o que irá aumentar seu padrão de vida.
Se você produzir e vender cada vez mais rolamentos, mas nunca gastar
sua receita em bens de consumo, então você simplesmente estará elevando o
padrão de vida de outras pessoas (aquelas que estão adquirindo seus
rolamentos), e empobrecendo a si próprio.
Afinal, você trabalha e trabalha e trabalha, mas não adquire nada em
retorno — apenas acumula dinheiro, o qual é inútil se você nunca
gastá-lo para adquirir coisas que elevem seu padrão de vida.
As pessoas de um país podem, sim, se tornar mais prósperas ao se
especializarem na produção de bens e serviços para então exportá-los
para estrangeiros. Porém, esse aumento na produção e exportação fará
esses produtores mais prósperos somente se eles gastarem suas receitas,
como consumidores, em bens e serviços que importarem de estrangeiros.
O padrão de vida de um país é determinado pela abundância de bens e
serviços. Quanto maior a quantidade de bens e serviços ofertados, e
quanto maior a diversidade dessa oferta, maior será o padrão de vida da
população. Assim, um povo que exporta mais visando a importar mais irá enriquecer e melhorar seu padrão de vida; já um povo que exporta mais apenas para exportar mais e, com isso, "melhorar sua balança comercial"
irá reduzir seu padrão de vida — afinal, ao mandar mais produtos para
fora e não trazer mais produtos para dentro, a oferta interna de
produtos cairá. Menos produtos no mercado interno implicam direta
redução no padrão de vida.
Exportações geram crescimento econômico?
Tendo isso em mente, passemos à pergunta: é possível haver um
crescimento econômico guiado pelas exportações? Sim, mas somente se você
interpretar corretamente o significado desta expressão.
O crescimento econômico ocorre quando, e apenas quando, há aumentos
na quantidade de bens e serviços disponíveis para a população de um país
consumir. Quanto mais capazes de consumir, mais ricos os indivíduos
são.
Como Adam Smith e outros já haviam reconhecido, a divisão do trabalho
— isto é, a especialização — é limitada pela amplitude do mercado.
Quanto maior o mercado, mais profunda é a divisão do trabalho. E quanto
mais profunda a divisão do trabalho, maior é a produção total. Logo,
dado que o comércio internacional expande o tamanho do mercado, então o comércio internacional aprofunda a divisão do trabalho e, consequentemente, aumenta a produção total.
Disso podemos concluir que maiores oportunidades para se exportar de
fato geram vantagens econômicas reais. Mas essas vantagens serão
reduzidas, ou até mesmo anuladas, se essas maiores exportações não se
traduzirem em maiores importações.
Se exportarmos mais e recebermos, em troca desses produtos
exportados, mais bens e serviços importados que valorizamos como itens
de consumo — e os quais valorizamos mais do que os produtos nacionais —,
então ficamos em melhor situação. "Crescemos" economicamente. Se, no
entanto, aumentamos as exportações mas não recebemos em troca mais bens e
serviços, então nossa situação em nada melhorou.
O que realmente interessa, portanto, é o que recebemos (em termos de bens de consumo) em troca daquilo que produzimos.
Assim, se o governo passa a artificialmente incentivar exportações,
mas em nada facilita as importações, então o crescimento econômico que
ele estará promovendo seria o mesmo de caso ele passasse a promover a
produção de "coisas amarelas" ou "coisas retangulares" (para as quais
nunca houve demanda). Produzir mais exportações apenas para exportar
mais faz tanto sentido quanto produzir mais coisas amarelas ou
retangulares apenas para se produzir mais coisas amarelas ou
retangulares.
Por isso, não há nada de remotamente especial, ou superior, ou
economicamente significante em "crescimento guiado pela exportação".
Todo o crescimento, em última instância, é guiado pela produção — mas
somente quando aquilo que é produzido é trocado por bens e serviços a
serem consumidos.
(Se, por exemplo, Henry Ford aumentasse a produtividade de sua linha
de produção do Modelo T — como ele de fato fez —, mas se recusasse a
comprar qualquer bem ou serviço para ele e sua companhia em troca, esse
menor custo unitário de produção tornado possível por essa produção em
grande escala teria sido totalmente inútil para ele.)
Aproveitar oportunidades para produzir em maior escala será uma vantagem se houver economias de escala
e se elas forem conduzidas por demandas de mercado. E um mercado global
de fato possui um maior número de oportunidades do que qualquer mercado
nacional, por maior que ele seja. No entanto, é sempre crucial
ressaltar que qualquer crescimento econômico genuíno que porventura
ocorra por esse aumento das exportações será por causa não daquilo que
está sendo exportado, mas sim daquilo que está sendo importado.
Conclusão
Em uma economia de mercado, aumentamos nossa capacidade de consumo ao
produzirmos maiores quantidades para outros consumirem — outros que, em
troca, nos fornecerão aquilo que queremos consumir. Assim, cada um de
nós "cresce" economicamente ao produzirmos mais coisas (mensuradas em
termos de valor) para nossos parceiros comerciais consumirem, pois só
assim nossos parceiros comerciais nos darão aquilo que queremos deles:
mais coisas para nós consumirmos.
Assim como um indivíduo não irá prosperar caso entregue os frutos do
seu trabalho para outros em troca de meros pedaços de papel (ou dígitos
eletrônicos) que ele nunca irá gastar, nenhum grupo de pessoas irá
prosperar se seguir essa mesma estratégia insensata.
Exportações são custos. Elas promovem crescimento econômico apenas
se, em troca, a população do país exportador receber bens, serviços e
ativos que melhorem sua qualidade de vida e sua capacidade de produzir.
Qualquer país que insistir em exportar sua produção e, em troca,
importar o mínimo possível (adotando tarifas de importação ou mesmo
restringindo diretamente várias importações) estará no caminho certo
para a pobreza.
Acumular dinheiro (no caso, moeda estrangeira oriunda das
exportações) pode ser uma estratégia que eleva a prosperidade — mas
apenas se esse dinheiro for gasto. Se ele jamais for gasto, todos os
produtos enviados para outros países em troca deste dinheiro serão
apenas presentes para os estrangeiros.
Por isso, qualquer povo que permita que seu governo adote esta
política de estimular exportações e restringir importações estará apenas
enriquecendo os outros e empobrecendo a si próprio.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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