Russel Kirk morreu há 25 anos, mas sua influência, longe de diminuir,
parece estar aumentando - inclusive no Brasil, onde já há traduções de
suas obras, como A Política da Prudência (ver seção livros, ao lado). A
Gazeta do Povo publica artigo do historiador Lee Edwards sobre o
filósofo:
Já se passaram quase 25 anos desde a morte do historiador,
intelectual e “mestre das letras” Russell Kirk, mas sua influência,
longe de diminuir, parece estar aumentando.
Como este ano teria sido seu 100º aniversário, houve celebrações em
Washington, DC, Nova York, New Haven, no estado de Connecticut, e em sua
cidade natal, Plymouth, no Michigan, na qual líderes conservadores
reconheceram suas notáveis contribuições para o moderno movimento
conservador americano.
Em 1950, os mais proeminentes intelectuais do país, incluindo o então
crítico liberal Lionel Trilling, proclamaram que havia apenas uma
tradição na América – a tradição liberal. Trilling descartou o
conservadorismo como um movimento sem ideias, exceto por ocasionais e
“irritantes gestos mentais”.
Quando Kirk publicou seu magistral ‘A Mente Conservadora’, três anos depois, os queixos liberais caíram e a gagueira começou.
Eles não podiam negar – e resenhas apaixonadas no The New York Times,
na Time e em outras publicações confirmaram – que Kirk havia escrito
uma extraordinária história de uma tradição conservadora na América, que
remonta a John Adams e à fundação do país, continuando no século 20 com
TS Eliot.
O proeminente historiador George Nash escreveu que ‘A Mente
Conservadora’ “catalisou decisivamente um movimento autoconsciente e
descaradamente conservador”. Henry Regnery, que publicou ‘A Mente
Conservadora’ e outros trabalhos seminais, disse que Kirk havia dado
identidade a uma “oposição dispersa e amorfa” ao liberalismo. Na
verdade, Kirk deu nome ao movimento conservador.
Em 1951, quando William F. Buckley Jr. publicou seu controverso
best-seller ‘God and Man at Yale’ (‘Deus e o Homem em Yale’, em tradução
livre), ele se descreveu como um “individualista”, rejeitando o rótulo
de “conservador”. No entanto, ao lançar sua revista National Review, em
1955, dois anos após a publicação de ‘A Mente Conservadora’, ele não
apenas disse que a National Review era uma “revista conservadora”, como
identificou a si mesmo como “conservador”.
Podemos ser gratos a Kirk porque, sem ‘A Mente Conservadora’,
poderíamos estar fazendo parte de um “movimento individualista”, uma
frase que está longe de soar natural.
Tive o privilégio de participar da conferência de New Haven,
patrocinada pelo Programa William F. Buckley Jr. em Yale, liderado pela
competente Lauren Noble (Yale '11), que fez do Programa Buckley o centro
da “diversidade intelectual” em Yale.
Lauren Noble persuadiu diversos palestrantes a vir até Yale,
organizou debates acirrados e convidou acadêmicos, como o famoso
escritor Stephen Hayward, para ministrarem seminários. Os cerca de 300
membros, em sua maioria estudantes de graduação, podem ser apontados
como prova do sucesso do programa, que jamais recebeu um dólar de Yale
ou do governo federal.
Além de sua impressionante capacidade gerencial, Lauren acabou se
revelando uma talentosa angariadora de fundos. Não seria maravilhoso se
alunos e ex-alunos de outras universidades tentassem replicar o Programa
Buckley em suas escolas?
Como já era esperado, o evento em Yale trouxe à tona perguntas sobre o
estado atual do movimento conservador. Eu citei Kirk, dizendo que os
conservadores devem conciliar o individualismo e o senso de comunidade.
Eles precisam abrir os olhos do eleitorado para um conceito central na
política – de que as reivindicações de liberdade e exigências de ordem
podem ser mantidas em uma tensão saudável, evitando extremos.
O veículo político por meio do qual essa tensão pode ser mantida é a
Constituição, com seus controles e contrapesos testados pelo tempo. Eu
apontei que, em A Mente Conservadora, Kirk propõe alternativas
conservadoras ante a panaceia liberal.
Em vez do secularismo, o conservador busca uma ordem transcendente
que oriente a sociedade, assim como a consciência pessoal. Ao contrário
do socialismo, o conservador declara que a liberdade e a propriedade
privada estão inextricavelmente ligadas.
Em vez de uma mudança radical, o conservador diz que a sociedade deve
mudar, mas com prudência, para não perder o que conquistou através dos
tempos. (Eu já tinha explorado esses mesmos cânones kirkianos em uma
palestra no início do ano, na Heritage Foundation.)
O caminho para uma nação livre e de responsabilidade individual,
afirmou Kirk, é através da crença em algo maior do que qualquer um de
nós.
Com relação à cultura, ele insistiu que “uma civilização não pode
sobreviver por muito tempo à extinção de uma crença em uma ordem
transcendente que tenha produzido a própria existência a cultura”.
No entanto, o palestrante principal, o colunista George Will,
discordou da ênfase de Kirk em um ser transcendente, argumentando que os
Pais Fundadores mais proeminentes eram deístas, não cristãos. Will
disse que eles eram criaturas do Iluminismo, que buscavam, como
orientação, a razão do homem, em vez da inspiração direta de Deus. Ele
usou várias citações de Washington, Jefferson, Madison – e até Adams –
para provar sua tese.
Formado em Oxford, e com um doutorado pela Universidade de Princeton,
Will é um dos mais bem-preparados comentaristas públicos, mas se ele
tivesse passado alguns minutos com o The Founders 'Almanac, da Heritage
Foundation, certamente teria ouvido outras citações dos Fundadores que
poderiam persuadi-lo a reconsiderar sua tese deísta.
Exemplos:
“Sozinhas, religião e moralidade podem estabelecer os princípios
sobre os quais a liberdade pode ser assegurada” – John Adams, 1776
“É dever de todas as nações reconhecer a providência de Deus
Todo-Poderoso, obedecer Sua vontade, serem gratas por Seus benefícios e
implorar humildemente por Sua proteção e favores.” – George Washington,
Proclamação de Ação de Graças, 1789
“A crença em um Deus, todo poderoso, sábio e bom, é tão essencial
para a ordem moral do mundo e para a felicidade do homem, que argumentos
que fazem valer tal crença não podem ser encontrados de um grande
número de fontes...” – James Madison, 1825
Religião e moralidade são as fontes mais importantes de caráter,
disse Washington, porque ensinam aos homens suas obrigações morais e
criam as condições para políticas decentes.
Esse foi o caso de Kirk. Em seu último livro, The Sword of
Imagination, escreveu que, em sua vida, havia procurado três coisas:
defender as coisas permanentes e criar um patrimônio de ordem, justiça e
liberdade; levar uma vida de independência decente, “organizada e não
poluída”, não devotada à obtenção e ao gasto; e casar “por amor” e criar
filhos que viriam a saber que “o serviço de Deus é a perfeita
liberdade”.
Por meio de seus próprios esforços, e com a ajuda do que ele chamou
de “uma misteriosa Providência”, seus desejos foram concedidos, e um
modelo de conduta foi estabelecido para os membros da geração seguinte,
que estão procurando heróis para servir de exemplo.
Eles encontrarão o que procuram em Russell Kirk.
Lee Edwards é pesquisador do
pensamento conservador do B. Kenneth Simon Center for Principles and
Politics da The Heritage Foundation. Um dos principais historiadores do
conservadorismo americano, Edwards já publicou 25 livros, incluindo Just
Right: A Life in Pursuit of Liberty.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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