"Se a prioridade, segundo o presidente eleito, é extrair a ideologia de
dentro do Itamaraty, não lhe parece conveniente ter um chanceler capaz
de compreender a ideologia que ali existe?". Corajoso artigo de Ernesto
Araújo, chanceler do governo Bolsonaro a partir de janeiro, publicado
com exclusividade pela Gazeta do Povo (com
meus agradecimentos à jornalista Jéssica - @crfjessica -, que é da
casa, me recomendou a leitura e sabe que o blogueiro também combate a
ideologia - sempre um pacote fechado de ideias dogmáticas):
Algumas pessoas gostariam que o presidente eleito Jair Bolsonaro
tivesse escolhido um chanceler que saísse pelo mundo pedindo desculpas.
Queriam uma espécie de Ministro das Relações Envergonhadas que chegasse
aos parceiros dizendo algo como “Olhem, os brasileiros elegeram
Bolsonaro. Não posso fazer nada, é a democracia. Sabem como é, o povo
não entende nada. Mas fiquem tranquilos, pois aqui, na frente externa,
nada vai mudar. Estou aqui para aguar todas as posições do presidente,
para cozinhá-las e transformá-las no mesmo rame-rame que vocês já
conhecem, continuarei falando a linguagem da ordem global. Estou aqui
para não deixar nada acontecer”.
Alguém desse tipo é o chanceler que os comentaristas da imprensa
tradicional – nutridos pela convivência com diplomatas pretensiosos –
gostariam de ver. Alguém que enquadrasse o novo presidente,
pasteurizasse as suas ideias, freasse o seu ímpeto de regeneração
nacional, sob a desculpa de que política externa é algo demasiado
técnico para ser entendido por um simples presidente da República, muito
menos por seus eleitores.
Parece prevalecer nesses meios a tese de que um presidente pode mudar
tudo, menos a política externa. Para eles, a política externa seria uma
região fechada ao mandato popular, uma espécie de no-go zone fechada ao
povo; o Itamaraty seria um Estado dentro do Estado, onde o Presidente
só aparece como um convidado ilustre nos jantares oficiais, mas não tem
voz efetiva, ou onde a voz do presidente – que é a sagrada voz do povo –
sai dublada em idioma da ONU, e ao ser dublada perde o sentido, pois no
idioma da ONU é impossível traduzir palavras como amor, fé e
patriotismo.
Isso é um gigantesco equívoco. Em uma democracia, a vontade do povo
deve penetrar em todas as políticas. Mas as pessoas daquele sistema
midiático-burocrático, que gostam tanto de falar em democracia, não
sabem disso. Perguntam-se, assustadas: “O que vão pensar de mim os
funcionários da ONU, o que vai dizer de mim o New York Times, o que vai
dizer o The Guardian, o Le Monde?”
E o povo brasileiro? Vocês não se preocupam com o que o povo
brasileiro vai pensar de vocês? Sabem quem é o povo brasileiro? Já
viram? Já viram a moça que espera o ônibus às 4 horas da manhã para ir
trabalhar, com medo de ser assaltada ou estuprada? A mulher que leva a
filha doente numa cadeira de rodas precária, empurrando-a de hospital em
hospital sem conseguir atendimento? O rapaz triste que vende panos no
sinal debaixo do sol o dia inteiro para mal conseguir comer? A mulher
que pede dinheiro para comprar remédio, mas na verdade é para comprar
crack e esquecer-se um pouco da vida? O outro rapaz atravessando a rua
de muletas, com uma mochila toda rasgada às costas, na qual pregou o
adesivo do Bolsonaro, talvez sua esperança de dar dignidade e sentido à
sua luta diária? O pai de família com uma ferida na perna que não
cicatriza nunca porque ele precisa trabalhar três turnos para poder
alimentar os filhos?
Aí está o povo brasileiro, não está no New York Times. Se a política
externa não se relaciona com o sofrimento, a paixão e a fibra dessas
pessoas, então não serve para nada.
Alguns jornalistas estão escandalizados, alguns colegas diplomatas
estão revoltados. Revoltados por quê? Porque pela primeira vez terão de
olhar o seu próprio povo na cara e escutar a sua voz?
Você, leitor, diz que quer acabar com a ideologia em política
externa? Eu também quero. Essa é a principal missão que o presidente
Bolsonaro me confiou: “libertar o Itamaraty”, como disse em seu
pronunciamento na noite da vitória. Mas você sabe em que consiste a
ideologia que diz ser preciso eliminar? Você diz que é contra a
ideologia, mas, quando eu digo que sou contra o marxismo em todas as
suas formas, você reclama. Quando me posiciono, por exemplo, contra a
ideologia de gênero, contra o materialismo, contra o cerceamento da
liberdade de pensar e falar, você me chama de maluco. Mas, se isso não é
o marxismo, com estes e outros de seus muitos desdobramentos, então
qual é a ideologia que você quer extirpar da política externa? “A
ideologia do PT”, você me dirá. E a ideologia do PT acaso não é o
marxismo?
Você aprendeu na escola que o marxismo prega a propriedade coletiva
dos meios de produção, e deduz que, se o PT não prega o fim da
propriedade privada, então não é marxista. Essa era, talvez, a posição
do marxismo em 1917 – você está 100 anos atrasado na sua concepção do
marxismo. Você se satisfaz com o que escutou de sua professora de
História numa aula do ensino médio, nunca mais estudou nada sobre
marxismo ou qualquer outra corrente ideológica, e agora vem pontificar e
tentar me dizer o que é ou o que não é ideologia? Os marxistas
culturais de hoje dizem que o “marxismo cultural” não existe e você
acredita, simplesmente porque não tem os elementos de juízo e o
conhecimento necessário. O fato é que o marxismo, há muito tempo, deixou
de buscar o controle dos meios de produção material e passou a buscar o
controle dos meios de produção intelectual – fundamentalmente, os meios
de produção do discurso público: mídia e academia. Quem controla o
discurso público, nos jornais e universidades, controla a vida social de
maneira muito mais eficiente do que a obtida pelo controle das fábricas
ou fazendas. Vencida na economia, a ideologia marxista, ao longo das
últimas décadas, penetrou insidiosamente na cultura e no comportamento,
nas relações internacionais, na família e em toda parte.
As coisas que eu critico, critico-as porque sei que são parte e
continuação da ideologia que você diz repudiar. O alarmismo climático
(sobre o qual falarei em outra oportunidade), o terceiro-mundismo
automático e outros arranjos falsamente anti-hegemônicos, a adesão às
pautas abortistas e anticristãs nos foros multilaterais, a destruição da
identidade dos povos por meio da imigração ilimitada, a transferência
brutal de poder econômico em favor de países não democráticos e
marxistas, a suavização no tratamento dado à ditadura venezuelana, tudo
isso são elementos da “ideologia do PT”, ou seja, do marxismo, que ainda
estão muito presentes no Itamaraty. Mas, quando eu me posiciono contra
todas essas pautas, você diz que eu sou ideológico e sustenta que eu não
deveria fazer nada a respeito.
Se você repudia a “ideologia do PT”, mas não sabe o que ela é,
desculpe, mas você não está capacitado para combatê-la e retirá-la do
Itamaraty ou de onde quer que seja. Ao contrário, você está ajudando a
perpetuá-la sob novas formas. Se a prioridade é extrair a ideologia de
dentro do Itamaraty, não lhe parece conveniente ter um chanceler capaz
de compreender a ideologia que existe dentro do Itamaraty? Alguém que
estuda essa coisa nos livros, há muitos anos, e não simplesmente ouviu
alguma referência num segmento do Globo Repórter? Muitos pensadores
marxistas brilhantes estão há 100 anos trabalhando incansavelmente e
programando a penetração da cultura social e política, de maneira
velada, mas por isso mesmo profunda, em favor de seu projeto de poder – e
você acha que para combater isso basta dizer “não existe mais ideologia
no Itamaraty”, ou basta pronunciar “pragmatismo” como uma palavra
mágica que se instalará sozinha? Gramsci, Lukács, Kojève, Adorno,
Marcuse estão rindo da sua cara. Ou melhor, não estão rindo, porque
marxista não tem senso de humor, mas você sabe o que quero dizer.
Você é contra a ideologia? Então é preciso alguém que entenda de
ideologia. Para curar uma doença, não basta dizer que a detestamos, é
preciso conhecer suas causas e manifestações, suas estratégias e seus
disfarces.
Você é a favor da democracia? Então deixe o povo brasileiro entrar na política externa.
Ernesto Araújo, embaixador e
diretor do Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos
Interamericanos do Itamaraty, assumirá o Ministério das Relações
Exteriores em 1.º de janeiro de 2019.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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