Explosões em cemitério iraniano fazem a guerra no Oriente Médio subir vários degraus e apontar para um rumo de riscos imponderáveis. Vilma Gryzinski:
Existem complicações que pertencem ao universo das coisas previsíveis. Exemplo: os mísseis israelenses que mataram o vice-líder político do Hamas, baseado no Líbano, Saleh al-Arouri.
Foi
um ataque ousado, que prejudica as negociações ainda em fase inicial
para uma nova troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos,
mas não inesperado. Israel anunciou em múltiplas ocasiões que os líderes
do Hamas responsáveis pelos crimes hediondos cometidos no ataque de 7
de outubro, eram “mortos que andam”. Ou seja, colocaram suas próprias
cabeças a prêmio ao comandarem as atrocidades.
O
ataque no coração xiita de Beirute pode atiçar o Hezbollah, atualmente
numa fase de conflito de baixa intensidade, mas não é nada que os
líderes israelenses não tenham avaliado. Existe até uma posição,
aparentemente minoritária, que defendem confronto de alta intensidade
com o Hezbollah, agora que a guerra em Gaza está na fase de operações
limpeza, para degradar logo uma grave e permanente ameaça a Israel.
Outra coisa é o que aconteceu na cidade de Kerman,
onde fica o cemitério no qual foi enterrado há quatro anos o mais
importante comandante de operações no exterior, Qassem Suleimani,
pulverizado por um drone americano quando desembarcava no aeroporto de
Bagdá para tramar novos ataques contra americanos com seus aliados
locais.
O
regime teocrático iraniano transformou Suleimani no maior mártir da
causa, com manifestações recorrentes no cemitério e até lojinhas de
souvenires terroristas. Foi numa manifestação assim que aconteceram as duas explosões de ontem, acionadas por suicidas, segundo as informações oficiais. Deixaram 95 mortos.
SEM IMUNIDADE
Não
é, absolutamente, o modus operandi das operações comandadas pelo
Mossad, o serviço israelense de inteligência que opera no exterior e
coordena assassinatos dirigidos, não carros-bomba ou similares contra
civis. Também não existe nenhuma força de oposição interna no Irã com
perfil para esse tipo de atentado. Ou não existia.
As
hipóteses estavam em aberto. Um atentado em território iraniano é muito
mais grave do que a explosão ocorrida no Líbano, embora esta não deva
ser subestimada.
Até
agora, o Irã tem agido de modo terceirizado no conflito, mobilizando os
aliados que lhe devem fidelidade, como os irmãos xiitas do Hezbollah e
das forças hutis, no Iêmen, e os vassalos sírios do regime de Bashar
Assad. Grupos palestinos como o Hamas e a Jihad Islâmica também são
fregueses, mas têm defendido uma atuação mais independente.
Orientar
os rebeldes iemenitas nos ataques a navios cargueiros que trafegam na
região, uma ameaça gravíssima às cadeias logísticas mundiais, vinha
sendo a atitude mais ostensiva dos iranianos.
E agora, com um grande atentado em seu próprio solo?
“Esta
tarde, bombardeamos 60 grupos de veículos e soldados inimigos nas
linhas de frente que convergem para o centro de Khan Younis”, anunciou a
brigada de Suleimani, que leva o nome usado pelos muçulmanos para
Jerusalém Al Quds.
É um desdobramento assombroso ou uma bravata?
Recentemente,
o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, fez uma avaliação até
realista demais dos desafios enfrentados por Israel em nada menos do que
sete frentes diferentes: Gaza, Líbano, Síria, Cisjordânia, Iraque e
Irã.
“Reagimos
e entramos em ação em seis dessas sete frentes e digo com a maior
clareza possível: qualquer um que agir contra nós é um alvo em
potencial, ninguém tem imunidade”.
O recado não poderia ter sido mais claro.
PENSAMENTO ESTRATÉGICO
Israel
já atingiu repetidamente alvos iranianos na Síria. O mais importante
deles foi o general Razi Mousavi, da mesma Guarda Revolucionária que
Suleimani. Era o principal coordenador da aliança da Síria com o Irã.
Foi ajudando o regime sírio a conseguir o impossível – resistir a um
levante popular de natureza islamista – que o Irã consolidou uma posição
de grande importância regional.
Essa
aliança tem suas contradições. Os rebeldes sírios, por exemplo, eram da
mesma tendência fundamentalista sunita que o Hamas e similares. Líderes
do Hamas chegaram a ser expulsos da Síria. Mas o regime iraniano
conseguiu reverter os danos e estabelecer uma improvável aliança entre
radicais sunitas e xiitas, numa prova de força e de pensamento
estratégico.
A
aliança entre árabes e sunitas também seus pontos fracos, com estes se
considerando superiores àqueles. O Irã tem um território extenso,
petróleo, infraestrutura militar, 85 milhões de habitantes – e pode
avançar quando quiser para produzir armas nucleares.
Israel
tem mais problemas do que eliminar líderes escondidos em túneis e
cercados por reféns em Gaza ou fazer ataques cirúrgicos em apartamentos
no Líbano. O fator Irã abre possibilidades apocalípticas.
Estariam
os israelenses cooperando com inimigos internos capazes de um atentado
de grandes proporções como o de ontem? Poderá o regime iraniano tentar
se vingar da maneira habitual, atingindo alvos judaicos “fáceis”, fora
de Israel?
O “castigo merecido será severo”, ameaçou o aiatolá Ali Khamenei, manda-chuva final. Mas quem será o castigado?

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