A fé que depositamos aos pés do altar do ano novo é uma oração que fazemos a nós mesmos. 2024 não é um deus, o tempo não é um deus. Cura e mata, mas não salva. Alexandre Borges para o Observador:
Então,
decidimos, não sei bem quando, começar a celebrar a passagem dos anos.
Já não apenas as nossas, mas as do mundo. Uma pergunta ao robô de I.A.
mais próximo certamente resolveria a dúvida com inquietante certeza, mas
basta-nos, por agora, esta humana e imprecisa aproximação: sabendo que,
até ao século XIX, não havia sequer relógios de pulso, não se está a
ver o povo em grandes contagens decrescentes, reunido à volta da torre
da igreja, pronto para pular de alegria à meia-noite em ponto. É uma
coisa curiosa, parte daquela grande religião pagã sincrética em que
vivemos hoje: atribuímos um poder ao tempo, como se algo distinguisse,
verdadeiramente, o último domingo da segunda-feira seguinte. Como se não
fosse uma segunda-feira como as outras. Como se o próprio domingo e a
própria segunda-feira não fossem nomes – nomes que implicam regras e
costumes – que damos a dias para os quais o pássaro olha exactamente da
mesma forma, apardalado, desta vez, com a inesperada eclosão do fogo de
artifício nos céus.
Os
cães ficam muito assustados. Terá o réveillon sido uma invenção dos
fabricantes de foguetes, em conluio com os produtores de vinho espumante
e o poderoso lobby das uvas passas? E, no entanto, para quê negá-lo?
Para quê recusar a energia que tamanha conspiração nos oferece, ano após
ano, para começar de novo? Fazer de conta que pomos o contador da vida a
zeros outra vez e voltar a fazer as mesmas coisas, mas melhor, sabendo o
que já sabemos.
Geralmente,
por volta do início da tarde de dia 1, já infringimos metade das
resoluções que tínhamos para o ano inteiro: já não nos vamos levantar
cedo todos os dias, já não vamos a tempo de beber menos, já não
começamos o ano na praia (até porque, pelo que vemos na televisão, está
ainda mais lotada do que em Agosto), já não vamos começar a correr (para
onde, afinal?), já não vamos passar a fazer sempre pequenos-almoços
saudáveis, nem arrancar com o yoga, a meditação, o tai chi e a escrita
daquele romance imortal que fluirá, torrencial e triunfalmente, assim
que resolvamos o problema de deitar cá para fora o primeiro parágrafo.
Mas qualquer coisa vai sobrar para dia 2. Uma renovação qualquer, uma esperança, um sentimento de segunda oportunidade.
2024
pode, verdadeiramente, ser um ano histórico. Para os próximos 362 dias,
está previsto o lançamento dos primeiros carros voadores. Elon Musk diz
que vai lançar a primeira nave para Marte, o primeiro passo rumo à
colonização do planeta (mas, ei, é o Elon Musk). O homem vai finalmente
voltar à Lua, na primeira missão tripulada desde 1972 – com a primeira
mulher. A catedral de Notre-Dame vai reabrir, cinco anos depois do
incêndio que quase a reduzia a nada. Em Portugal, vamos decidir se
queremos continuar a abrir o caminho para a sociedade socialista – e a
discutir onde fazer um aeroporto.
Teremos
eleições nos Estados Unidos, na Índia e no Parlamento Europeu e coisas a
fingir que sim na Venezuela, no Irão e na Rússia. Guerras a entrarem
pelo ano dentro na Ucrânia e na Palestina – e esperemos que em mais
lugar nenhum. O Japão vai lamber as feridas outra vez e curar-se de um
terramoto de grau 7,6 no primeiro dia do ano e de um acidente com um
avião em chamas no segundo, que teve por vítimas mortais elementos da
Guarda Costeira que iam a caminho de Niigata, para prestar socorro às
vítimas do sismo.
Vamos
continuar à procura de um sentido para tudo isto. A escolher acreditar
ou desesperar. Com esta certeza: a fé que depositamos aos pés do altar
do ano novo é uma oração que fazemos a nós mesmos. 2024 não é um deus, o
tempo não é um deus. Cura e mata, mas não salva. Se o terramoto do
Japão fosse aqui, já teríamos desculpa para mais um ano de resignação. O
terramoto foi no Japão e, mesmo assim, alguém o usará como desculpa
para mais um ano de resignação. Como usará a economia da China que,
afinal, já só vai crescer quatro em vez de 5%. Como usa as doenças e as
guerras dos outros para justificar os seus próprios fracassos.
O tempo somos nós que o fazemos – não se vê pela diferença entre domingos e segundas-feiras? Feliz ano novo.
Postado há 3 days ago por Orlando Tambosi

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