BLOG ORLANDO TAMBOSI
Quando fala em democracia participativa, o PT alega o objetivo de obter sugestões de políticas públicas. Sempre foi clara, porém, a ação de fortalecer a militância do partido. José Pastore para a Crusoé:
Após
dois anos de pandemia, seca na agricultura e crise energética,
provocada pela guerra da Ucrânia, a economia brasileira passou a
apresentar sinais de recuperação. Para 2022, a taxa de crescimento do
PIB é estimada em 2,8%, a inflação deve ficar em 5,7%, a taxa de
desemprego em 8% e o saldo da balança comercial em aproximadamente 55
bilhões de reais.
Mas
nem tudo são flores. O desequilíbrio das finanças públicas é grave. Uma
eventual política expansionista de Lula para atender as promessas de
campanha provocará uma política contracionista do Banco Central com
elevação dos juros e redução do crescimento econômico. Problema
semelhante ocorre no mundo desenvolvido. A disparada da inflação em
vários países está provocando a elevação da taxa de juros e uma recessão
mundial que pode afetar ao Brasil.
No
momento, muitas questões persistem no campo econômico. Em que medida o
governo respeitará a Lei de Responsabilidade Fiscal? Como serão
acomodadas as várias facções e tensões da coligação que elegeu Lula?
Quais os eventuais impactos na áreas trabalhista?
O
Partido dos Trabalhadores, fundado em 10 de fevereiro de 1980, nasceu
de uma mescla de ideias do sindicalismo do ABC paulista, da doutrina
social da Igreja Católica e de grupos esquerdistas que se diziam
marxistas.
Apesar
de ter contado com a simpatia de grupos intelectuais, o PT mostrou logo
um forte enraizamento com os movimentos sociais de base ao se
apresentar como defensor das classes destituídas. E nessa defesa, ficou
na oposição por muito tempo. Lula e os parlamentares do PT não assinaram
a Constituição de 1988 e tampouco a Lei de Responsabilidade Fiscal, no
ano 2000. Contestaram o Plano Real, o sistema de cambio flexível e o de
metas da inflação.
O
PT sempre foi contra a privatização. Houve época em que movimentos
liderados pelo Partido dos Trabalhadores promoveram ocupações e invasões
de propriedades rurais e urbanas. Nos dois mandatos de Lula
(2003-2010), a média desses eventos na zona rural foi de 246 por ano.
Com Dilma Rousseff (2011-2016) caiu para 162. Sob Michel Temer
(2016-2018), para 27 por ano e com Jair Bolsonaro, nove.
Ameaças
de volta ao passado já foram antecipadas. Vejam o que diz João Pedro
Stédile: “Acho que a vitória do Lula, vai ter como consequência natural,
um ‘reânimo’ para nós retomarmos as grandes mobilizações de massa”.
O
PT nunca escondeu seu desejo de mesclar a democracia representativa com
a democracia participativa, dando ampla liberdade de voz, voto e ação
para os movimentos sociais de base. Para tanto, o PT praticou
intensamente o assembleísmo por meio de inúmeros conselhos locais,
municipais, estaduais e Conferências Nacionais sobre o idoso, a mulher,
combate à discriminação, direitos dos portadores de deficiência,
economia solidária, cidades, juventude, trabalho infantil e várias
outros. Algumas iniciativas tiveram caráter internacional como foi a
Conferência Nacional pelo Emprego e Trabalho Decente, realizada em 2012,
com a participação da OIT.
O
objetivo alegado era o de obter sugestões de políticas públicas. Sempre
foi clara, porém, a ação de fortalecer a militância do partido. Nas
eleições, muitos participantes, nomeados para cargos públicos, atuavam
como cabos eleitorais.
As
bases sentiam que sua voz era ouvida. Como regra, era exigido que seus
pleitos legítimos fossem tratados como pleitos legais. Com isso, o
assembleísmo exercia forte pressão junto aos poderes Executivo e
Legislativo. Cerca de quatro mil projetos de lei foram inspirados em
duas mil propostas das Conferências Nacionais. A maioria não chegou a
tramitar.
Até
2014, haviam participado do assembleísmo, mais de seis milhões de
brasileiros. As discussões eram infindáveis e, muitas vezes, as
conclusões, pasmem, eram obtidas por aclamação. A maioria dos
participantes tinha as despesas de viagem, estadia, alimentação, etc.
pagas pelo governo. O Estado, que normalmente é lento, com o
assembleísmo se tornava ainda mais.
O
assembleísmo foi praticado até o final do Governo Dilma Rousseff
(2016). De lá para cá, os tempos mudaram. Será que o PT e partidos
coligados insistirão no assembleísmo?
As Diretrizes do Governo Lula-Alckmin 2023-26 indicam que sim:
“Estamos
comprometidos com a retomada do diálogo com todos os movimentos
sociais, organizações da sociedade civil e representações populares,
compreendendo-os como importantes protagonistas na reconstrução do
Brasil”.
Lula
também já anunciou a recriação do Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social e outros. “No nosso governo”, disse ele em um de seus
discursos recentes, “vamos ouvir novamente as bases: vamos trazer de
volta as conferências nacionais para propor políticas públicas em cada
área: educação, saúde, cultura, habitação…”
Os
primeiros sinais do assembleísmo foram notados na criação de 31 grupos
temáticos, com mais de 300 participantes, para fazer a transição entre
os governos Bolsonaro e Lula.
Há
ações que exigem velocidade e competência técnica. É o caso do controle
do déficit público, por exemplo, que é crucial para atrair
investimentos. Lula terá de implementar uma politica econômica austera
no meio de uma coligação de partidos que gosta de assembleísmo,
empreguismo e gastança. Muitos dos líderes dos movimentos sociais já
deixaram claro que não aceitarão o desprezo às causas sociais. “Vamos
ter de combinar pau e prosa”, prometem os dirigentes do MST.
A
forte expansão da máquina pública sempre esteve presente nos governos
do PT. Entre 2005 e 2006, o governo Lula criou 404 mil postos de
trabalho para servidores da administração pública e aumentou o número de
carreiras dos servidores públicos federais de 31 para 317.
A
partir do governo de Michel Temer, a máquina pública foi gradualmente
desaparelhada. Mas o aparelhamento pode voltar. Lula anunciou a criação
de mais de 30 ministérios. Os que têm grande capilaridade (educação,
saúde, previdência, povos primitivos, cidadania e assistência social)
são candidatos à retomada do assembleísmo.
O
governo do PT sempre se caracterizou por uma esquerda do tipo
burocrático-sindical que almejava ter poder para se perpetuar no
controle do Estado. Não se trata de uma esquerda revolucionária. Lula é
um homem conservador. Ele sabe que o crescimento econômico é essencial
para o fortalecimento do governo e a sobrevida do governante.
É
provável que isso venha a criar um ambiente de negócios mais
estimulante e expedito no mandato que terá início em 2023. Ademais, com a
eleição de parlamentares de centro-direita e simpatizantes da
iniciativa privada, o governo pode enfrentar uma oposição aguerrida.
Será que isso reduzirá o assembleísmo? O tempo dirá.
José Pastore é professor aposentado da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo
Postado há 1 hour ago por Orlando Tambosi

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