Falas tranquilizadoras de ministro nomeado da Fazenda não desfazem temor de que ele não controle ações do governo que levam à insegurança fiscal. Fernando Dantas para o Estadão:
A
escolha da equipe econômica do governo Lula até agora, com exceção de
Bernard Appy como secretário especial para a reforma tributária,
desapontou o mercado e o centro liberal que aderiu ao petista no segundo
turno da campanha para derrotar a ameaça antidemocrática representada
pela reeleição de Jair Bolsonaro.
Entre
os nomes de ministro da Fazenda que circularam antes da definição de
Fernando Haddad, este era visto como o menos palatável para o mercado,
embora esteja longe de representar - como vem reafirmando em declarações
prudentes sobre a área fiscal - o risco de uma reedição sem pejo da
nova matriz econômica.
Gabriel
Galípolo, escolhido como secretário-executivo do Ministério da Fazenda,
é visto com alguma reserva e ambiguidade. Por um lado é um economista
de mercado com gosto e expertise em parcerias público privadas (PPP).
Por outro lado, tem proximidade com economistas heterodoxos mais
rejeitados pelo mercado.
Aloízio
Mercadante no BNDES, ainda mais com a missão estipulada por Lula de
acabar com as privatizações (não que privatizar ou não privatizar seja
hoje uma questão tão decisiva em termos de política econômica no
Brasil), é sem dúvida até agora a nomeação mais explicitamente contrária
à visão liberal em economia que domina o mercado e marca o centro
político de raiz tucana.
A
cereja ruim no bolo evidentemente foi a mudança na calada da noite da
Lei das Estatais, que reduziu de 36 meses para 30 dias a quarentena de
pessoas indicadas à cúpula das estatais com envolvimento formal na
política partidária.
O
secretariado de Haddad ainda não está completo. A secretaria do Tesouro
é um cargo chave, naturalmente, e uma nomeação como a de Felipe Salto,
ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), seria bem-vinda,
embora para convencer o mercado talvez fosse necessário pelo menos um
ortodoxo de quatro costados em condições de influenciar a direção da
política econômica.
Pelos
lances iniciais deste início de jogo, a impressão é de que Haddad está
tentando compensar no gogó ações concretas sobre as quais não parece ter
controle e que levantam dúvidas sobre a solidez da política
macroeconômica a partir do ano que vem.
Dessa
forma, o ministro nomeado vem fazendo declarações tranquilizadoras,
como a de que uma expansão fiscal excessiva em vez de ajudar
atrapalharia a economia.
É
exatamente o que vêm dizendo diversos economistas mainstream e de
mercado. O Banco Central está no auge da batalha contra a disparada da
inflação, com a taxa básica em seu provável pico, e o mercado de
trabalho apertado para padrões brasileiros. Estimular a economia neste
momento por meio do gasto público tem tudo para gerar mais inflação do
que crescimento sadio.
O
problema é que as palavras de Haddad parecem não se casar com as ações
do governo eleito. Lula e suas lideranças políticas batalham na PEC da
Transição por uma licença para gastar acima do teto que seja a maior
possível, na casa de R$ 200 bilhões, e originalmente com intenção de que
durasse quatro anos. Qualquer redução da ambição inicial se deverá à
oposição no Congresso e não à intervenção clara de Haddad pedindo
moderação a Lula - pelo menos é o que se deduz do que se viu até agora.
Achar
que os mercados, investidores e agentes financeiros deixam-se convencer
por palavras quando os atos as contradizem talvez seja uma das ilusões
mais antigas e manjadas que atrapalham a vida de maus policymakers.
Haddad parece ser esperto o suficiente para não cair nessa, o que nos
leva a outra hipótese, talvez até mais preocupante: como ele não
controla as ações do governo mesmo, só resta a palavra para tentar
amenizar, mas não resolver, as encrencas à frente.

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