MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Haddad, o gogó e o mercado.

 



Falas tranquilizadoras de ministro nomeado da Fazenda não desfazem temor de que ele não controle ações do governo que levam à insegurança fiscal. Fernando Dantas para o Estadão:


A escolha da equipe econômica do governo Lula até agora, com exceção de Bernard Appy como secretário especial para a reforma tributária, desapontou o mercado e o centro liberal que aderiu ao petista no segundo turno da campanha para derrotar a ameaça antidemocrática representada pela reeleição de Jair Bolsonaro.

Entre os nomes de ministro da Fazenda que circularam antes da definição de Fernando Haddad, este era visto como o menos palatável para o mercado, embora esteja longe de representar - como vem reafirmando em declarações prudentes sobre a área fiscal - o risco de uma reedição sem pejo da nova matriz econômica.

Gabriel Galípolo, escolhido como secretário-executivo do Ministério da Fazenda, é visto com alguma reserva e ambiguidade. Por um lado é um economista de mercado com gosto e expertise em parcerias público privadas (PPP). Por outro lado, tem proximidade com economistas heterodoxos mais rejeitados pelo mercado.

Aloízio Mercadante no BNDES, ainda mais com a missão estipulada por Lula de acabar com as privatizações (não que privatizar ou não privatizar seja hoje uma questão tão decisiva em termos de política econômica no Brasil), é sem dúvida até agora a nomeação mais explicitamente contrária à visão liberal em economia que domina o mercado e marca o centro político de raiz tucana.

A cereja ruim no bolo evidentemente foi a mudança na calada da noite da Lei das Estatais, que reduziu de 36 meses para 30 dias a quarentena de pessoas indicadas à cúpula das estatais com envolvimento formal na política partidária.

O secretariado de Haddad ainda não está completo. A secretaria do Tesouro é um cargo chave, naturalmente, e uma nomeação como a de Felipe Salto, ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), seria bem-vinda, embora para convencer o mercado talvez fosse necessário pelo menos um ortodoxo de quatro costados em condições de influenciar a direção da política econômica.

Pelos lances iniciais deste início de jogo, a impressão é de que Haddad está tentando compensar no gogó ações concretas sobre as quais não parece ter controle e que levantam dúvidas sobre a solidez da política macroeconômica a partir do ano que vem.

Dessa forma, o ministro nomeado vem fazendo declarações tranquilizadoras, como a de que uma expansão fiscal excessiva em vez de ajudar atrapalharia a economia.

É exatamente o que vêm dizendo diversos economistas mainstream e de mercado. O Banco Central está no auge da batalha contra a disparada da inflação, com a taxa básica em seu provável pico, e o mercado de trabalho apertado para padrões brasileiros. Estimular a economia neste momento por meio do gasto público tem tudo para gerar mais inflação do que crescimento sadio.

O problema é que as palavras de Haddad parecem não se casar com as ações do governo eleito. Lula e suas lideranças políticas batalham na PEC da Transição por uma licença para gastar acima do teto que seja a maior possível, na casa de R$ 200 bilhões, e originalmente com intenção de que durasse quatro anos. Qualquer redução da ambição inicial se deverá à oposição no Congresso e não à intervenção clara de Haddad pedindo moderação a Lula - pelo menos é o que se deduz do que se viu até agora.

Achar que os mercados, investidores e agentes financeiros deixam-se convencer por palavras quando os atos as contradizem talvez seja uma das ilusões mais antigas e manjadas que atrapalham a vida de maus policymakers. Haddad parece ser esperto o suficiente para não cair nessa, o que nos leva a outra hipótese, talvez até mais preocupante: como ele não controla as ações do governo mesmo, só resta a palavra para tentar amenizar, mas não resolver, as encrencas à frente.

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