O Brasil vive o paradoxo da instabilidade estável. Os bárbaros já chegaram e estamos esperando para ver se eles vão mesmo levar a barbárie até suas consequências extremas. Jerônimo Teixeira para a Crusoé:
De novo, não teve golpe.
A
essa altura, é verdade, parece que ninguém mais esperava uma tentativa
de golpe. Havia, isso sim, a expectativa de que o cardápio básico do
bolsonarismo fosse servido no Dia da Independência: ataques à
democracia, ao STF, às urnas. Dias antes dos comícios
patriótico-eleitoreiros do 7 de setembro, Jair Bolsonaro havia chamado
Alexandre de Moraes de “vagabundo”. Talvez fosse um passo a caminho da
moderação: um ano atrás, o termo usado foi “canalha”.
Falo
em moderação, bem entendido, para os padrões de Bolsonaro. No comício
em Brasília, ele deu a deixa para a multidão vaiar o STF. Depois da
vaia, emendou o chavão: “A voz do povo é a voz de Deus” (momentos antes,
Deus, esse pândego, juntara-se aos gritos de “imbrochável,
imbrochável”). Bolsonaro mandou ainda um recado velado ao STF, repetido
em termos similares no comício em Copacabana: “Com uma reeleição, nós
traremos para dentro das quatro linhas [da Constituição] todos que ousam
ficar fora delas”. De novo, essa ameaça só parece velada para padrões
bolsonaristas; na real, ela é tão gritante e escandalosa quanto o terno
de papagaio do Véio da Havan.
A
produção de um clima de tensão constante faz parte do teatro canastrão
do presidente. Por isso ele xinga ministros do STF, ofende jornalistas
com termos cafajestes e lança dúvidas boçais sobre a segurança das urnas
eletrônicas. Mais recentemente, em resposta a um Judiciário que
resolveu defender a democracia impondo a obrigação de que todos sejam
democratas, Bolsonaro pegou o vezo de falar em “liberdade”, mas a gente
sabe que essa defesa da livre expressão dura só até o próximo especial
de Natal do Porta dos Fundos. E é assim que ele entusiasma os seguidores
e alarma os opositores.
Sob
a ameaça do golpe que não virá, o cenário político brasileiro vive o
paradoxo da instabilidade estável. Tal como os cidadãos do império
descrito em À Espera dos Bárbaros, poema do grego Konstantinos Kaváfis,
estamos todos imobilizados, na expectativa de bárbaros que nunca chegam.
Bem, o paralelo é imperfeito: no caso brasileiro, os bárbaros já
chegaram, e estamos esperando para ver se eles vão mesmo levar a
barbárie até suas consequências extremas.
Existe
uma minoria ruidosa e vulgar que se sente frustrada porque o golpe não
veio, não vem, não virá. São aquelas figuras histriônicas que no Dia da
Independência levantavam faixas pedindo intervenção militar. E há outro
grupo inflamado cujos sentimentos sobre o golpe comportam ambiguidades
esquisitas: a esquerda petista.
O
PT vem propagando a ideia de que Dilma Rousseff foi derrubada por um
golpe. Alguns petistas de alto ou médio escalão às vezes hesitam em
aderir à tese: em 2016, com o processo de impeachment ainda em curso,
Fernando Haddad disse que golpe era uma palavra “muito dura”. Mas o
grão-petista confirmou a palavra, em toda sua dureza: Dilma sofreu, sim,
um golpe, disse Lula no debate entre candidatos à presidência na Band.
No
governo Temer, começou a ganhar corpo uma conversa estranha sobre a
necessidade de resistir ao golpe (isso quando não se falava em resistir
ao fascismo!). A palavra “resistência” conjurava a miragem histórica do
enfrentamento armado à ditadura militar. O documentário Democracia em
Vertigem deu forma a essa ilusão, fundindo a trajetória dos pais da
diretora Petra Costa, que participaram de um movimento clandestino
contra o regime militar, à derrocada de Dilma Rousseff.
Depois
que um capitão reformado que exalta a ditadura e seus torturadores foi
eleito presidente, “resistência” tornou-se um clichê nos meios
progressistas. Hoje, quando ouço um resistente gritando “golpe”, já não
sei mais se ele está fazendo uma denúncia ou expressando um desejo
recalcado. O jovem militante de rede social anseia pela fase final do
golpe, em que os tanques ganharão as ruas – fazendo muita fumaça – e os
porões do DOPS serão reabertos. Só assim seus pesadelos mais temidos e
suas ilusões mais queridas se tornariam realidade.
Sei
que também há gente adulta e razoável preocupada com as inegáveis
aspirações antidemocráticas do bolsonarismo. No entanto, a fixação no
fantasma do golpe vem acompanhada de um vício de análise: a cada vez que
uma insinuação de ruptura não se cumpre, conclui-se que nossas
instituições democráticas são vigorosas e estão funcionando. Na verdade,
a submissão da máquina pública aos ditames da chamada guerra cultural –
iniciada nos anos petistas, sim, mas radicalizada com Bolsonaro – já
corroeu as tais instituições. E o desgaste não se limita ao Estado
aparelhado por milicos e olavetes. Igrejas, escolas, empresas e até
grupos familiares estão divididos por ideologias beligerantes.
No
ano passado, entrevistei o filósofo inglês John Gray para a finada
revista Época. O autor de O Silêncio dos Animais fez uma avaliação
desalentadora sobre os Estados Unidos depois do governo Trump: o país
ainda é uma democracia, com eleições limpas e regulares, mas não pode
mais ser considerado uma sociedade liberal. O liberalismo de que Gray
fala (e cujas ilusões critica em obras como Cachorros de Palha) não se
limita ao livre mercado, mas se estende às liberdades individuais e às
instituições que as sustentam. “Para se ter de fato uma sociedade
liberal é preciso que exista uma grande variedade de instituições que
não são marcadamente politizadas”, dizia Gray na entrevista. Essa
condição já não se encontraria mais nos Estados Unidos. “Não acredito
que uma sociedade liberal ainda esteja viva quando todas as instituições
vivem em guerra interna e estão em guerra umas com as outras”,
complementava o filósofo. Sem nunca ter desenvolvido uma sociedade
liberal digna desse nome, o Brasil vive a mesma situação.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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