Os comunistas insistem que o problema não são os 200.000 soldados que Putin lançou contra a Ucrânia, eram os menos de 5.000 que a NATO tinha enviado para os Estados membros ameaçados pelo expansionismo russo. Bruno Cardoso Reis via Observador:
Têm-se
multiplicado os apelos à paz nas páginas da imprensa portuguesa nos
últimos tempos. Um partido importante na história política portuguesa, o
PCP, tem liderado uma campanha pelo fim dos apoios à Ucrânia em nome da
paz já. Com a chegada do inverno e o acumular de dificuldades
económicas é provável que esta tendência ganhe peso na Europa. Agora que
todos começam a perceber que mesmo uma guerra distante significa que
teremos de pagar um preço por defender os nossos valores e os nossos
interesses, proliferam os autodesignados defensores da paz. Muitos são
na verdade defensores de “não me peçam sacrifícios a mim”, quando não
são defensores das mais violentas e militarizadas ditaduras do Mundo,
desde que estejam alinhadas com uma visceral aversão aos Estados Unidos.
Perante a falta de argumentos válidos, esta posição só pode ser
defendida com muita indignação e a aposta em criar uma confusão
embrulhada num suposto pacifismo. Importa, por isso, esclarecer alguns
pontos fundamentais.
Paz, mas não a qualquer preço
Quem,
perguntam estes pseudopacifistas, pode ser contra a paz? Eu não sou
certamente. Sou sim contra uma paz a qualquer preço. Sou contra uma
cínica manipulação do valor da paz para se defender a rendição perante o
regresso da guerra de conquista à Europa. Sou contra a ideia errada de
que fornecer armas à Ucrânia é um obstáculo a negociações. Sou contra o
facto de se esquecer que a principal causa desta guerra é a ambição
imperial de Vladimir Putin, que escolheu invadir um país vizinho, apesar
de ter sido repetidamente avisado de que isso teria um custo, desde
logo em termos de sanções. Sou sobretudo contra normalizar-se o regresso
das guerras de conquista e anexação.
Há
que reconhecer que existem questões sérias e difíceis que a ampla
simpatia na opinião pública pela Ucrânia não deve ocultar. É verdade que
uma completa derrota da Rússia está longe de estar garantida, por
muitos problemas que tenham sido revelados pelas Forças Armadas russas.
Uma guerra é o reino da incerteza, e estamos a falar de uma potência
nuclear e de um regime cada vez mais autocrático que esmaga a oposição. É
verdade que um conflito prolongado terá um custo elevado para todo o
Mundo. Mas a história mostra que muitas vezes na política internacional
não existem boas opções, apenas menos más. E a opção menos má neste caso
é continuar a fazer pagar um preço elevado à Rússia pela sua invasão, é
apoiar militar e economicamente a Ucrânia enquanto quiser continuar a
combater, é procurar criar condições mais favoráveis para negociações em
condições aceitáveis para Kiev e que ajudem a dissuadir futuras
agressões.
O falso e o verdadeiro pacifismo
No
contexto atual apelar à paz já e ao fim imediato dos apoios à Ucrânia e
das sanções à Rússia significa defender a rendição perante o
expansionismo de Putin. Isto não é uma questão de opinião minha, são
declarações dos próprios responsáveis da Rússia, do MNE Sergei Lavrov
até ao inefável Dimitri Peskov, que têm deixado claro, com louvável
clareza, ser a rendição de Kiev a condição de Moscovo para paz já com
Ucrânia. Defender isto está muito longe de ser verdadeiro pacifismo.
Eu
não sou pacifista, confesso. A minha leitura da história leva-me a
concluir que a guerra é um mal, mas muitas vezes é um mal menor
inevitável para defender valores maiores. Também não me parece que tenha
perdido validade a velha máxima romana da dissuasão da agressão: se
queres a paz, prepara a guerra, e fá-lo com credibilidade suficiente
para convencer um potencial inimigo de que atacar não valerá a pena. Num
Mundo onde são cada vez mais os Estados que reforçam o investimento nas
Forças Armadas, onde proliferam as ditaduras fortemente armadas, a paz e
a defesa da liberdade implicam manter uma força credível. Seja força
própria, seja força em conjunto com aliados fiáveis como é o caso na
Aliança Atlântica. Dito isto, tenho genuíno respeito pelos verdadeiros
pacifistas.
O
verdadeiro pacifismo vai de par com a aposta corajosa na não-violência e
é o oposto do que tenta passar por pacifismo nos últimos meses em
Portugal. Pacifismo não é recusa egoísta de sacrifícios ou ignorar os
valores que estão ameaçados, é a aceitação inclusive dos maiores
sacríficos, da liberdade e da própria vida, por uma causa. É, como dizia
Ghandi, estar disposto a morrer por uma causa, mas não a matar por ela.
Portanto criticar apelos egoístas ou cínicos à paz não é ser inimigo da
paz ou do pacifismo, é defender estes últimos duma apropriação
indevida.
Não ao anticomunismo
Dizer
isto também não é ser anticomunista. Desde logo numa democracia
qualquer partido pode ser criticado pelas suas posições. Já repararam
que ninguém fala em antissocialismo ou antiliberalismo ou anti-PSDismo? O
anticomunismo é uma invenção do PCP e dos seus aliados para tentar
condicionar a crítica normal a qualquer partido num regime pluralista. É
também mais um sinal de que o PCP não aceita ser um partido normal numa
democracia pluralista, e não tem uma verdadeira cultura democrática. Os
comunistas continuam a ver-se como uma autodesignada vanguarda do povo,
qualquer crítica de que sejam alvo é transformada num ataque ilegítimo.
Ainda
mais curiosa é a posição de uma certa esquerda complexada à portuguesa
que parecer crer que defender o PCP é uma forma de mostrar o seu amor à
causa. O que é tanto mais irónico quanto acaba geralmente numa defesa de
que não devemos dar grande importância ao que PCP diz a respeito da
Ucrânia. Eu tenho demasiado respeito pelo PCP – que como eu acha que a
pobreza continua a ser um problema sério, que a raça não substitui a
classe, e nunca temeu tomar posições impopulares – para adotar esse
parternalismo condescente.
É
verdade que durante muito tempo os recorrentes elogios do PCP às piores
ditaduras do Mundo – da Síria de Asad à Venezuela de Maduro – não
pareciam muito relevantes. Hoje a questão da Ucrânia é incontornável,
nela joga-se o futuro da paz, da liberdade, da prosperidade na Europa. E
a tendência comunista para defender os regimes mais repressivos desde
que sejam suficientemente antiamericanos leva o PCP a defender a
rendição perante o regresso das guerras de conquista à Europa. É justo
reconhecer que o PCP até ataca Putin, mas só quando este critica a
sagrada União Soviética. Sobre a invasão da Ucrânia o PCP e os seus
aliados insistem que o problema não são os 200.000 soldados que Putin
lançou contra esse país, eram os menos de 5.000 soldados que a NATO
tinha enviado a partir de 2017 para os seus Estados membros mais
diretamente ameaçados pelo expansionismo russo. É impossível deixar
passar em claro estas posições ou deixar que passem por uma forma de
pacifismo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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