Constituições demandam consensos amplos e limitados, e servem fundamentalmente para proteger a liberdade e a igualdade de todos diante da lei. Fernando Schüler para a revista Veja:
O
rechazo ganhou no Chile e o que seria a fantástica nova Constituição da
América Latina foi parar em uma gaveta. Mas ficará na história. Será
lembrada como a primeira Constituição ativista. Identitária,
progressista, ambientalista, antissexista, antipatriarcal, indigenista,
animalista. E feita do amor às palavras. São exatas 49 637, seis vezes
mais do que na Constituição dos Estados Unidos. Não há problema com os
ativistas. Eu mesmo já fui um deles, lá pelos meus 20 anos. O problema é
o “ativista fora do lugar”. O sujeito que se põe a formatar a sociedade
a partir de sua visão de mundo muito particular. A fazer “engenharia
social”, ou ainda, como nesse caso, uma superengenharia social.
Regulando as palavras que devemos usar, definindo as “identidades”
merecedoras de mais ou menos direitos, o padrão correto de desigualdades
econômicas, e mesmo coisas mais sublimes, como reconhecer “a
espiritualidade como um elemento essencial do ser humano”, como se lia
no projeto chileno.
Lendo
aquele texto quase infinito, tive a sensação de me perder no paraíso.
“Direito à moradia”, ao “ar limpo”, à “alimentação saudável e
culturalmente pertinente”, ao acesso à internet, à “educação sexual
integral”, ao uso de “sementes tradicionais”, a uma “morte digna”. E à
“igualdade substantiva”, conceito que não faço ideia de como será
interpretado pelos juízes chilenos. Apreciei o “direito à cosmovisão”,
talvez posto lá por uma minoria “filosófica”. A palavra direito/direitos
aparece 422 vezes. Recorde mundial, entre todas as constituições do
planeta, segundo o Comparative Constitutions Project.
Os
economistas, com sua mania xarope de perguntar sobre o custo das
coisas, foram estragar a festa. Disseram que o novo texto iria custar
entre 9% e 14% do PIB chileno. The Economist chamou o projeto de “lista
fantasiosa e fiscalmente irresponsável da esquerda”, vocacionada a dar
marcha a ré no progresso que o Chile conquistou ao longo das últimas
quatro décadas. O Chile é o primeiro colocado, na América Latina, em
virtualmente todos os indicadores relevantes. Melhor IDH, maior PIB per
capita, melhor educação, medida pelo Pisa, menores taxas de pobreza e
mortalidade infantil. Tudo culpa do “modelo neoliberal”, que, segundo se
lê por aí, era urgente que fosse posto abaixo no país.
Muita
gente achou paradoxal que as pessoas tenham apoiado, em 2020, a
realização do processo constituinte, e no frigir dos ovos tenham votado
contra o texto final. Não há paradoxo nenhum. No primeiro referendo,
facultativo, votaram 50% dos eleitores; no segundo, obrigatório, foram
86%. “A maioria silenciosa entrou em campo”, me diz um colega chileno, e
“muitos eleitores imaginavam corrigir falhas da atual Constituição, não
colocar o edifício inteiro abaixo. “Houve também uma interpretação
equivocada sobre o significado dos protestos de 2019”, ele diz. Não
houve uma revolução, e tampouco havia ali algum programa de mudanças
minimamente estruturado. Havia um descontentamento difuso, conduzido por
grupos muito à esquerda do pensamento médio da sociedade chilena. Seu
resultado mais objetivo foi o impulso dado à eleição de Gabriel Boric.
Me lembrei das lições de Hannah Arendt: a guerra de libertação é sempre
mais fácil do que a construção da liberdade. Daí sua admiração pela
moderação e o senso prático dos revolucionários americanos, e seu
ceticismo com a eloquência vazia dos revolucionários franceses.
De
minha parte, lembrei dos protestos de rua do Brasil em 2013. Há traço
comum aí das democracias atuais. O súbito aparecimento do “quinto
poder”, feito da multidão aglutinada via redes digitais, ao estilo
flashmob. Manuel Castells radiografou isso com precisão, observando que
se tratam, em regra, de movimentos desordenados, nascidos de algum
“gatilho” (como foi o aumento do metrô, no Chile) com um apelo difuso à
“dignidade”, e efêmeros. Diferentemente do que ocorreu no Brasil, o
“estalido social” chileno foi violento. Trinta mortes e vandalização
generalizada de bens públicos. E que aprovou um processo constituinte,
que abriu a caixa de pandora e resultou no texto agora rechaçado.
O
engraçado é ler algumas explicações. De uma analista, leio que a
população não “compreendeu” o significado da nova Carta, e a culpa seria
das fake news sobre a relativização dos direitos à propriedade,
abertura das fronteiras aos imigrantes e coisas do tipo. É curioso.
Parecemos imaginar que a ignorância anda sempre do “outro lado”. Em uma
manifestação do “Aprovo”, o grupo Las Indetectables realizou uma
performance extraindo uma bandeira chilena do ânus de um performer,
representando o que seria o “aborto do velho Chile”. Tudo avançado
demais para “essa gente” entender. Vai aí uma marca das democracias
atuais: a tensão permanente entre a minoria ativista e a maioria formada
pelos homens comuns. O conservador, o “gado”, que não entende, que
gosta de música ruim, piadas de mau gosto, usa as palavras erradas e não
reconhece os avanços do progressismo.
O
que ninguém admite é que as pessoas possam ter votado “não” porque
acharam o projeto ruim, e é assim nas democracias. Uma democracia não é
boa apenas quando ganham as posições progressistas, mas também quando
ganha o outro lado. Difícil entender? Outro ponto é fazer distinção
entre o que é matéria constitucional e o que é matéria de política
pública. A Constituição trata das regras do jogo. Direitos fundamentais,
organização da República e temas de grande consenso. Liberdade de
expressão é matéria constitucional; lutar contra a mudança climática
(como se lê no projeto chileno) é política pública. Temas de política
pública são transitórios, sujeitos a consensos provisórios, numa
sociedade aberta. Nossa Constituição é um exemplo dessa confusão. Por
que consideramos que é matéria constitucional proteger a Zona Franca de
Manaus? Ou que determinada categoria profissional tenha um piso
salarial, diferentemente das demais, igualmente dignas? Um colega
cáustico me definiu o problema: põe isso lá quem tem lobby no Congresso,
e isso vale para piso, benefícios fiscais ou aposentadorias especiais.
Temos uma Constituição marcada a ferro pelo lobby no mundo político. Não
deveria ser assim.
É
esta a lição chilena. Que nenhum grupo em particular, nenhuma minoria
ideológica, deve pretender fixar as regras do jogo em uma sociedade
plural. Que as constituições demandam consensos amplos e limitados, e
servem fundamentalmente para proteger a liberdade e a igualdade de todos
diante da lei. Aqueles direitos elementares que, de geração em geração,
forjaram o melhor do mundo moderno, e dos quais não deveríamos abrir
mão.
Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper
Publicado em VEJA de 14 de setembro de 2022, edição nº 2806
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário