Rever a história é uma espécie de esporte: um tipo de salto com vara, digamos, em que o revisionista pula por cima de umas coisas e cai no colchão de umas conclusões, como direi?, novas. A crônica de Orlando Tosetto Jr. para a Crusoé:
Efeméride,
caro amigo, é uma palavra que, segundo o dicionário, tem dois
significados: o primeiro é o da tábula astronômica que registra, a
intervalos regulares, a posição de um astro; o segundo é o de ser a data
de um fato importante. Podia ser também nome de divindade grega, de
ninfa talvez, dessas que nos engazopam nalgum dos charmes que os deuses
lhes concediam. É fácil imaginar um verso em que um certo varão ou
sátiro caiu nos encantos das Efemérides e efemerizado ficou.
Quanto
ao primeiro significado, deixemo-lo com astrônomos, astrólogos e
adolescentes, que gostam de astros e outras coisas efêmeras (sim,
efêmero e efeméride têm o mesmo étimo). Vamos ficar com o segundo e
relembrar, nesta sexta-feira, que na longínqua quarta, anteontem pois,
tivemos, entre outras coisas, a efeméride do Bicentenário da
Independência.
Uma
efeméride, perdoe o amigo o meu francês, senão o meu iorubá ou nagô,
muito borocoxô. É que aqui em São Paulo choveu, e efeméride não combina
com chuva – as únicas coisas que combinam com chuva são rock inglês
triste, sambas do Lupicínio Rodrigues e filmes noir. Efeméride, no
Brasil, costuma ter gente bêbada e seminua, baticum em volume alto,
brigas generalizadas e tiroteios (Páscoa e Natal, por exemplo, são
assim): a chuva nos negou tudo isso, inclusive porque também fez frio.
Ademais,
veja: uma data tão importante como um bicentenário trouxe, afinal,
pouca coisa em matéria de ruído, de reverberação, de bumbo batendo. Onde
está a enxurrada de livros sobre o assunto, por exemplo? Cadê as
séries, grandes ou mínis? Os filmes? Os simpósios? Os discos, originais e
relançados? Os, vá lá, os programas de auditório? As semanas cheias de
eventos e shows e palestras e o escambau?
É
verdade que reabriram o Museu do Ipiranga, ainda que com festança
modesta, e é verdade que houve desfiles. Mas, em 1972, uma efeméride
menor, mas de nome mais comprido e complicado, o sesquicentenário,
repercutiu muito mais e fez muito mais barulho. Rendeu inclusive o
enterro, na Quinta da Boa Vista, de um programa de TV feito para nos
lembrar, agora, em 2022, como era aquele Brasil, e que, parece, ninguém
lembrou de desenterrar – talvez porque tenha um general em posição
respeitável, talvez porque produto da finada TV Tupi. Ou talvez porque,
como dizia o Ivan Lessa, de quinze em quinze anos o Brasil esquece o que
aconteceu nos últimos quinze anos; que dizer, então, de cinquenta?
Borocoxô demais.
* * *
Rever
a história é uma espécie de esporte: um tipo de salto com vara,
digamos, em que o revisionista pula por cima de umas coisas e cai no
colchão de umas conclusões, como direi?, novas. Diferenciadas.
Diferentonas.
Por
exemplo: deram para achar mórbido e feio o hábito dos nossos ancestrais
de preservar órgãos de homens e mulheres célebres, e reclamaram de
trazerem o coração de D. Pedro I para os festejos borocoxôs. Imaginem se
esses reclamões soubessem que guardar um coração não é nada: a Rússia
mantém num pote, por exemplo, o membro viril do Rasputin; Portugal,
coração de D. Pedro fora, guarda num frasco a cabeça de Diogo Alves,
serial killer do século XVIII; os Estados Unidos custodiam o cérebro e
os olhos de Albert Einstein; a Igreja preserva algumas centenas de
corpos incorruptos de santos, e relíquias várias, entre as quais ossos e
sangue; e, afinal, a indústria mais próspera do Egito era a das múmias,
que incluía não apenas gente, mas também gatos, bois e até besouros. O
que é, diante disso, o coração de um monarca? Que susto esses saltadores
vão levar quando descobrirem os ossuários dos cemitérios, hein?
Mas tem mais. Ultimamente, por exemplo, se lê por aí que a Independência foi branca e machista. Do que eu deduzo duas coisas.
Uma, que a colônia era trans e cor de abóbora.
Outra,
que os machos brancos – ou um macho branco só, D. Pedro I – fizeram
pelo menos uma coisa boa. Porque, creio eu, o salto com vara da revisão
histórica ainda não pulou tão baixo a ponto de dizer que independência é
mau negócio e o status de colônia é que é bacana.
Algo me diz, no entanto, que não perco por esperar.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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