MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 10 de setembro de 2022

200 anos de farsa

 


A identidade de qualquer país depende, em larga medida, de certo grau de farsa: coisas que não foram bem assim historicamente, mas que uma sociedade convencionou lembrar de certa forma. Via Crusoé, a crônica semanal de Ruy Goiaba:


Vejam vocês como são as coisas: 50 anos atrás (52, para ser mais exato), o cartunista Jaguar e toda a turma do Pasquim foram em cana por causa de um cartum. Era uma reprodução do quadro de Pedro Américo sobre o grito da Independência, à qual Jaguar acrescentou um balãozinho com o imperador dizendo “eu quero mocotó!” — refrão de um sucesso de Jorge Ben, que ainda não era Ben Jor naquela época, apresentado num festival da canção por Erlon Chaves e sua Banda Veneno. Os milicos não gostaram da afronta aos símbolos pátrios. Fast-forward para 2022: agora, temos no palanque dos 200 anos do 7 de Setembro um presidente milico, esse estadista, esse verdadeiro De Gaulle que é Jair Bolsonaro, puxando o corinho de “imbrochável”. E aliados achando bom porque, veja bem, pelo menos ele não está xingando a turma do Supremo.

Por falar no quadro de Pedro Américo, vocês devem saber que ele é uma falsificação histórica (eu sei, há quem prefira chamar de “representação artística livre” do grito do Ipiranga). A tela, de 1888, é basicamente um plágio do quadro do pintor francês Ernest Meissonier sobre a Batalha de Friedland, concluído em 1875. O artista plástico brasileiro substituiu a figurinha de Napoleão pela de dom Pedro I — que aparece montado num garboso corcel, e não no lombo do burro que o imperador costumava usar como transporte. Fora o fato de o próprio 7 de Setembro nem sempre ter sido em 7 de setembro: a Independência do Brasil já foi comemorada em 12 de outubro, dia do aniversário e da coroação de Pedro I. Depois que o monarca se pirulitou do Brasil para ser o Pedro IV de Portugal, a data passou a ser o aniversário de Pedro II, 2 de dezembro. Não pegou, como costuma acontecer com certas leis aqui, e o 7 de Setembro ganhou a parada.

Ou seja, o Dia da Independência é essencialmente uma farsa — mas uma farsa socialmente aceita, uma convenção, como costuma ser a maioria das datas comemorativas. Sabe-se, por exemplo, que Jesus não apenas nasceu entre quatro e seis anos “antes de Cristo” como, muito provavelmente, veio ao mundo em uma data que não era 25 de dezembro: os cristãos convencionaram comemorar o nascimento de Cristo, dependendo da hipótese, no dia do solstício de inverno ou como “apropriação cultural” da festa romana do Sol Invicto. Nada disso jamais impediu alguém de celebrar o Natal com seus entes queridos, a não ser que você seja aquela pessoa espetacularmente chata que fica insistindo no “Jesus histórico” em vez de se dedicar às rabanadas e à troca de presentes.

A identidade de qualquer país depende, em larga medida, de certo grau de farsa: coisas que não foram bem assim historicamente, mas que uma sociedade convencionou lembrar de certa forma. Sai-se do plano da “vida como ela é” para o dos símbolos comuns a um povo, em torno dos quais os brasileiros (os americanos, os franceses, os russos etc. etc.) se congregam — e que, claro, não são imutáveis: estão sujeitos a constante revisão. Por exemplo, a ideia de um Dia da Consciência Negra separado do 13 de Maio, data da abolição da escravatura no Brasil, nem passava pela cabeça dos governantes brasileiros nas décadas de 50 e 60. E mais de 30 anos transcorreram desde as primeiras comemorações do 20 de Novembro até que essa data fosse oficializada pelo governo, em 2003.

Volto ao primeiro parágrafo para concluir: é patético que Bolsonaro tenha usado o Dia da Independência para atualizar o velho dito marxista sobre a história se repetir primeiro como tragédia e depois como farsa. Ela agora se repete como pornochanchada — com toques de Circo do Seu Léo, como revezamento de puxa-sacos ao lado do presidente no palanque, pirâmide de motociclistas e ala das baianas do homeschooling. Não custa lembrar que a eleição será decidida entre esse senhor e Lula, o do “tesão de 20 anos”: dois velhos querendo mostrar que ainda dão no couro. Em vez de comprar um SUV ou uma Harley, um deles ganhará a direção do país de presente, para compensar a crise da terceira idade.

Só espero que um dia a, por assim dizer, evolução histórica do Bananão leve à substituição do “ordem e progresso” da bandeira por “crime ocorre nada acontece feijoada” ou “7 a 1 foi pouco”. Do jeito que vai, não demora muito.

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A GOIABICE DA SEMANA

Sempre que vocês tiverem algum receio de golpe vindo das nossas gloriosas Forças Armadas, ou do não menos glorioso governo, pensem nos paraquedistas que ficaram presos na árvore ou caíram de cara no asfalto de Copacabana na véspera do 7 de Setembro. Pensem também na van que, no dia seguinte, conseguiu ficar presa no teto da guarita do Palácio do Planalto. Gambiarra e incompetência são a danação, mas às vezes também são a salvação do Brasil.

 
A van entalada: não há nada mais inútil que esse aviso de “altura máxima”
 
 
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

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