A
identidade de qualquer país depende, em larga medida, de certo grau de
farsa: coisas que não foram bem assim historicamente, mas que uma
sociedade convencionou lembrar de certa forma. Via Crusoé, a crônica semanal de Ruy Goiaba:
Vejam
vocês como são as coisas: 50 anos atrás (52, para ser mais exato), o
cartunista Jaguar e toda a turma do Pasquim foram em cana por causa de
um cartum. Era uma reprodução do quadro de Pedro Américo sobre o grito
da Independência, à qual Jaguar acrescentou um balãozinho com o
imperador dizendo “eu quero mocotó!” — refrão de um sucesso de Jorge
Ben, que ainda não era Ben Jor naquela época, apresentado num festival
da canção por Erlon Chaves e sua Banda Veneno. Os milicos não gostaram
da afronta aos símbolos pátrios. Fast-forward para 2022: agora, temos no
palanque dos 200 anos do 7 de Setembro um presidente milico, esse
estadista, esse verdadeiro De Gaulle que é Jair Bolsonaro, puxando o
corinho de “imbrochável”. E aliados achando bom porque, veja bem, pelo
menos ele não está xingando a turma do Supremo.
Por
falar no quadro de Pedro Américo, vocês devem saber que ele é uma
falsificação histórica (eu sei, há quem prefira chamar de “representação
artística livre” do grito do Ipiranga). A tela, de 1888, é basicamente
um plágio do quadro do pintor francês Ernest Meissonier sobre a Batalha
de Friedland, concluído em 1875. O artista plástico brasileiro
substituiu a figurinha de Napoleão pela de dom Pedro I — que aparece
montado num garboso corcel, e não no lombo do burro que o imperador
costumava usar como transporte. Fora o fato de o próprio 7 de Setembro
nem sempre ter sido em 7 de setembro: a Independência do Brasil já foi
comemorada em 12 de outubro, dia do aniversário e da coroação de Pedro
I. Depois que o monarca se pirulitou do Brasil para ser o Pedro IV de
Portugal, a data passou a ser o aniversário de Pedro II, 2 de dezembro.
Não pegou, como costuma acontecer com certas leis aqui, e o 7 de
Setembro ganhou a parada.
Ou
seja, o Dia da Independência é essencialmente uma farsa — mas uma farsa
socialmente aceita, uma convenção, como costuma ser a maioria das datas
comemorativas. Sabe-se, por exemplo, que Jesus não apenas nasceu entre
quatro e seis anos “antes de Cristo” como, muito provavelmente, veio ao
mundo em uma data que não era 25 de dezembro: os cristãos convencionaram
comemorar o nascimento de Cristo, dependendo da hipótese, no dia do
solstício de inverno ou como “apropriação cultural” da festa romana do
Sol Invicto. Nada disso jamais impediu alguém de celebrar o Natal com
seus entes queridos, a não ser que você seja aquela pessoa
espetacularmente chata que fica insistindo no “Jesus histórico” em vez
de se dedicar às rabanadas e à troca de presentes.
A
identidade de qualquer país depende, em larga medida, de certo grau de
farsa: coisas que não foram bem assim historicamente, mas que uma
sociedade convencionou lembrar de certa forma. Sai-se do plano da “vida
como ela é” para o dos símbolos comuns a um povo, em torno dos quais os
brasileiros (os americanos, os franceses, os russos etc. etc.) se
congregam — e que, claro, não são imutáveis: estão sujeitos a constante
revisão. Por exemplo, a ideia de um Dia da Consciência Negra separado do
13 de Maio, data da abolição da escravatura no Brasil, nem passava pela
cabeça dos governantes brasileiros nas décadas de 50 e 60. E mais de 30
anos transcorreram desde as primeiras comemorações do 20 de Novembro
até que essa data fosse oficializada pelo governo, em 2003.
Volto
ao primeiro parágrafo para concluir: é patético que Bolsonaro tenha
usado o Dia da Independência para atualizar o velho dito marxista sobre a
história se repetir primeiro como tragédia e depois como farsa. Ela
agora se repete como pornochanchada — com toques de Circo do Seu Léo,
como revezamento de puxa-sacos ao lado do presidente no palanque,
pirâmide de motociclistas e ala das baianas do homeschooling. Não custa
lembrar que a eleição será decidida entre esse senhor e Lula, o do
“tesão de 20 anos”: dois velhos querendo mostrar que ainda dão no couro.
Em vez de comprar um SUV ou uma Harley, um deles ganhará a direção do
país de presente, para compensar a crise da terceira idade.
Só
espero que um dia a, por assim dizer, evolução histórica do Bananão
leve à substituição do “ordem e progresso” da bandeira por “crime ocorre
nada acontece feijoada” ou “7 a 1 foi pouco”. Do jeito que vai, não
demora muito.
***
A GOIABICE DA SEMANA
Sempre
que vocês tiverem algum receio de golpe vindo das nossas gloriosas
Forças Armadas, ou do não menos glorioso governo, pensem nos
paraquedistas que ficaram presos na árvore ou caíram de cara no asfalto
de Copacabana na véspera do 7 de Setembro. Pensem também na van que, no
dia seguinte, conseguiu ficar presa no teto da guarita do Palácio do
Planalto. Gambiarra e incompetência são a danação, mas às vezes também
são a salvação do Brasil.

A van entalada: não há nada mais inútil que esse aviso de “altura máxima”
BLOG ORLANDO TAMBOSI
Nenhum comentário:
Postar um comentário