A decisão finlandesa colocou Putin perante a necessidade de identificar o real oponente do outro lado do tabuleiro. Depois da jogada inicial, o novo czar percebeu que tinha adversário bem mais poderoso. José Pinto para o Observador:
A
decisão manifestada em conjunto pelo Presidente e pela
Primeiro-Ministro da Finlândia no sentido de o país solicitar, sem
demora, a adesão à NATO mereceu uma resposta pronta por parte do
Kremlin. Uma réplica dura ao ponto de o anterior Presidente russo,
Dimitry Medvedev, colocar a tónica na eminência de uma «verdadeira
guerra nuclear». Uma afirmação que, na ótica de alguns analistas, pode
ser vista como uma ameaça não apenas ao Ocidente, enquanto outros a
relativizam e a encaram como uma jogada de bluff visando condicionar a
política externa dos países vizinhos. Países no plural porque é
altamente provável que a Suécia siga o exemplo finlandês e abandone a
neutralidade.
Entre
estas duas visões extremas, talvez seja possível encontrar uma posição
intermédia. Aquela que olha para a situação como se de uma partida de
xadrez se tratasse. Um desafio que, a meu ver, está destinado a terminar
com um cheque sem mate. Um desfecho que, no entanto, envolverá um
prolongado número de jogadas, com ambos os contendores a procurarem
explorar ao máximo as fragilidades momentâneas decorrentes do cansaço da
outra parte.
Voltando
à decisão dos líderes finlandeses, não pode dizer-se que tivesse
constituído uma surpresa para o Kremlin e não apenas pelo facto de a
questão já vir a ser debatida há bastante tempo na Finlândia. Um
procedimento normal num país onde as decisões não são tomadas ao arrepio
da vontade dos cidadãos. Uma marca da qualidade da democracia
participativa há muito instaurada no país.
Na
verdade, a máquina de informação e desinformação de Moscovo acompanha
em permanência o que se passa no Mundo e dedica especial atenção aos
países que julga poderem colocar em causa os interesses russos. Por
isso, estava ciente de que a opinião pública finlandesa caminhava no
sentido favorável à adesão do país à NATO. Daí a campanha de
desinformação levada a cabo pelo ecossistema do sharp power russo no
país vizinho e a recuperação do momento da História em que os
finlandeses apoiaram os nazis na invasão da União Soviética.
Só
que, por falar em História, tanto a Rússia como a Finlândia sabem bem o
preço que pagaram por conflitos anteriores, designadamente pela
denominada Guerra de Inverno ocorrida em 1939-1940, quando a vitória
russa foi conseguida à custa de um número tão elevado de vítimas do seu
exército que, como viria a reconhecer Nikita Khrushchev, o triunfo
soviético deveria ser visto como uma derrota moral.
Algo
a não repetir, mesmo dando por adquirido que Putin não precisa de reler
a História. Basta tomar em linha de conta a resistência com que o seu
exército se está a ver confrontado na Ucrânia.
Face
ao exposto, percebe-se a alusão russa à possibilidade de recurso a
armas nucleares. O trunfo mais valioso que lhe resta. Só que um trunfo
que sabe não poder jogar, pois Moscovo sabe que não é a única potência a
dispor desse trunfo. Sendo verdade que, de acordo com o relatório de
2020 do Stockholm International Peace Research Institute, a Rússia conta
com 6.375 armas nucleares, não é menos verdade que os Estados Unidos da
América dispõem de 5.800. Resquícios dos tempos da guerra fria e que
não encontram competidores à altura noutras latitudes porque a China só
tem 320 armas nucleares, a França 290 e o Reino Unido 215. Não deixa de
ser curioso – chamemos-lhe assim – que os cinco países com maior poderio
nuclear sejam os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da
ONU, o órgão criado para garantir a manutenção da paz e da segurança
mundiais.
Retornando
ao jogo de xadrez, diga-se que a decisão finlandesa colocou Putin
perante a necessidade de identificar verdadeiramente o oponente que está
do outro lado do tabuleiro. Depois de uma jogada inicial – a invasão da
Ucrânia – onde Putin fingia que o adversário era constituído pelos
pretensos nazis que lideravam Kiev e eram treinados pelos Estados Unidos
e pela NATO, o novo czar russo viu-se obrigado a perceber que está a
jogar contra um adversário bem mais poderoso. Um opositor que dá pelo
nome de Mundo Livre. Um contendor impossível de vencer. Por mais
reconhecida que seja a capacidade russa na arte do xadrez.
Tempo
para este opositor reler Sun-Tzu. Não encurralar o inimigo ao ponto de o
levar a cometer um ato de desespero. A Diplomacia acabará por se
encarregar dessa parte. O cheque sem mate é o único desfecho isento de
arrependimento. Para ambos os jogadores. Para a Humanidade.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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