BLOG ORLANDO TAMBOSI
O risco de conflito nuclear está no campo das possibilidades reais. Vilma Gryzinski para a revista Veja:
Por
que autoridades e jornalistas — amestrados — falam tanto em guerra
nuclear na Rússia? Os arsenais nucleares existem para não serem usados,
segundo o consenso que se instaurou na época em que Estados Unidos e
União Soviética eram potências intensamente rivais, mas racionais,
conscientes de que os dois lados tinham poder de se destruir mutuamente
de forma jamais vista na história da humanidade. Ninguém ganharia uma
guerra nuclear porque os dois países haviam desenvolvido sistemas em que
mísseis encravados em silos no coração rochoso de montanhas,
transportados por “aviões do Juízo Final” eternamente se revezando nos
céus ou aninhados em submarinos indetectáveis continuariam a cumprir sua
programação infernal mesmo que todos os centros de comando já tivessem
virado “cinzas radioativas”. Alguns cálculos falavam em 700 milhões de
mortos numa guerra assim, seguidos por mais centenas de milhões que
pereceriam de fome: a fuligem lançada na estratosfera obscureceria a luz
solar e diminuiria a temperatura do planeta em até oito graus, o
fenômeno chamado inverno nuclear que arruinaria 90% das plantações no
Hemisfério Norte. Algo parecido com a queda do meteoro que levou à
extinção dos dinossauros.
Como
é possível que Vladimir Putin, o herdeiro e modernizador desse arsenal
apocalíptico, tenha se tornado um Kim Jong-un fortificado, um líder que
ameaça, ou manda ameaçar, o mundo constantemente com o terror nuclear? A
primeira explicação é a mais fácil: ele faz isso porque está fraco, não
forte. A guerra que desfechou contra a Ucrânia tem mostrado que o urso
russo é de papel. A resistência dos ucranianos não antecipa um desfecho
claro, toda semana morre um general, o mundo desenvolvido caminha para
se livrar da russodependência fóssil, só deficientes morais com cérebro
de estegossauro têm a falta de vergonha de defender o lado de Putin. A
opinião pública russa, que apoia maciçamente a obliteração da Ucrânia,
começa a desconfiar que o país não está ganhando. Lembrá-la do poderio
nuclear da mãe-pátria afaga egos com muitas desilusões ainda pela
frente.
Existe
ainda outra possibilidade: Putin e asseclas estão dessensibilizando a
opinião pública, esgarçando sistematicamente as várias cortinas que
envolvem o tabu das armas nucleares. Preparam, assim, o terreno, para o
uso de um artefato tático, uma “bombinha” que reverta uma possibilidade,
completamente inaceitável do ponto de vista russo, de uma derrota no
campo de batalha. O filósofo alemão Jürgen Habermas, mortificado com a
conversão da esquerda pacifista à ajuda bélica em massa aos ucranianos,
disse que a situação atual cria duas opções insuportáveis: derrota da
Ucrânia ou escalada incontrolável que acabe levando à III Guerra
Mundial, com o terror nuclear pairando sobre todos. “Temos de encontrar
uma saída para nosso dilema.” Qual? Nem Habermas, com seus 92 anos, em
boa parte dedicados a desenvolver a Theorie des kommunikativen Handelns,
uma espécie de teoria de tudo da racionalidade, é capaz de responder.
Putin explodiu a racionalidade ao invadir a Ucrânia e aprisionou a si
mesmo num labirinto de saídas fechadas. No processo, virou um perigo que
o resto do mundo não sabe como resolver.
Publicado em VEJA de 18 de maio de 2022, edição nº 2789

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