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| O promotor Pecci, assassinado na Colômbia. |
O casal Pecci estava tão feliz e tranquilo que nem se deu conta de que, ao compartilhar seus momentos de relax pelo Instagram, talvez estivesse dando o mapa do caminho para os assassinos. Leonardo Coutinho para a Gazeta do Povo:
A
península de Barú é um paraíso banhado pelo mar do Caribe que,
combinado com a colonial Cartagena, forma um dos melhores destinos
turísticos da Colômbia. Foi onde o promotor federal paraguaio Marcelo
Pecci escolheu passar sua lua de mel. E foi nas areias brancas de Barú
que ele – acreditando estar longe do perigo que o cercava no Paraguai –
foi executado com três disparos de uma pistola 9mm. Sem dizer uma só
palavra, o atirador desembarcou da garupa de um jet-ski, caminhou até
Pecci e mostrou quão longos são os braços do terror e do crime.
Constantemente
ameaçado pelos criminosos que atuam em seu país, Pecci estava
constantemente sob proteção policial. Um estilo de vida opressor. Ao se
refugiar no litoral colombiano, Pecci, que havia se casado apenas dez
dias antes de ser assassinado, talvez buscasse a paz e a privacidade que
os criminosos haviam lhe tirado fazia tempo.
O
casal Pecci estava tão feliz e tranquilo que nem se deu conta de que,
ao compartilhar seus momentos de relax pelo Instagram, talvez estivesse
dando o mapa do caminho para os assassinos. As investigações ainda estão
em curso, mas não parece absurdo pensar que foi por meio do Instagram
que mandantes de seu assassinato identificaram o momento e local exatos
de sua morte.
Um
descuido que jamais poderá ser interpretado como culpa. O casal Pecci
só queria viver alguns momentos de normalidade, longe do perigo diário
imposto a eles no Paraguai. Mas eles descobriram, da pior maneira
possível, que não há descanso diante do tipo de criminosos que o
promotor enfrentou.
Por
anos de desmazelo institucional e negligência, o Paraguai se
transformou em um paraíso de traficantes, contrabandistas e operadores
financeiros de máfias e organizações terroristas. Com os atentados de 11
de setembro de 2001, o mundo começou a colocar os olhos na região, mas
alguns agentes políticos, de segurança e diplomatas – incluindo
brasileiros – sempre preferiram negar, ocultar e distorcer os fatos sob
uma suposta alegação de “preconceito religioso”, “securitização” e
“paranoia”. Desculpas para não fazer nada.
Nos
últimos anos, o Paraguai tem se esforçado para se livrar das máfias.
Ser um lugar melhor e seguro. Melhorou os mecanismos de prevenção e
combate à lavagem de ativos, designou como organizações terroristas
grupos que até então atuavam livremente em seu território, buscou ajuda
dos vizinhos para combater o tráfico e começou a reprimir as ações do
PCC, que montou no país uma de suas bases internacionais para
“administração” da cocaína boliviana que é descarregada ali e do
contrabando de armas, cigarros e outras estripulias.
Evidentemente,
tudo é muito difícil. Os esforços para reverter os estragos chegaram
tarde e são mais lentos que os avanços do crime. Mas o Paraguai, com
todas as suas limitações, vem fazendo um esforço de governança inédito e
louvável. O promotor Marcelo Pecci era um dos agentes de transformação
do país. Ele liderou operações gigantescas para prisão de traficantes, o
desmantelamento de redes de lavagem de dinheiro e mandou para a cadeia
pelo menos dois tubarões do Hezbollah – o grupo terrorista libanês, que
desde os anos 1980 usa o Paraguai, Argentina e Brasil como base de suas
operações financeiras.
Os
investigadores suspeitam que talvez esta seja a razão de sua morte. A
extradição para os Estados Unidos de dois dos mais importantes
operadores financeiros do Hezbollah na América Latina foi um golpe duro
para os terroristas que por 40 anos atuaram livremente na região. As
investigações também apontam para outros caminhos. Alguns deles levam ao
PCC e aos seus parceiros locais, por exemplo. Nada está descartado.
Muito
menos uma joint venture entre os terroristas do Hezbollah e os
traficantes brasileiros, que há tempos trabalham em conjunto nas
operações de tráfico de cocaína e lavagem de dinheiro. Uma aliança que
parece ter surgido nas penitenciárias do Paraná, onde membros do
Hezbollah, que foram presos pelos crimes mais diversos, construíram uma
relação de negócios e troca de experiência com os traficantes.
A
sociedade parece complexa, mas a sua constituição foi relativamente
simples por meio da convergência de interesses e a complementaridade das
atividades. Especialista em evasão de divisas, lavagem de dinheiro e
rotas clandestinas com capilaridade na África, Europa e principalmente
nos Estados Unidos, o Hezbollah passou a oferecer serviços financeiros e
de logística externa em troca logística local e o provimento de drogas
até os canais de desembarque, que hoje são preferencialmente portos
marítimos.
Além
do fornecimento de drogas, o Hezbollah recebe do PCC proteção para os
membros e seus negócios ilícitos (quase sempre relacionados ao
contrabando), serviços de pistolagem e uma série de outras operações
locais.
Assim
como foi o atentado à bomba que o Hezbollah comandou contra a sede da
Associação Mutual Israelita de Buenos Aires (Amia), em 1994, ou o
assassinato do procurador Alberto Nisman, em 2015, a execução de Pecci
tem uma dupla função: em essência, vingança. Mas também intimidação.
Há
tempos, a fronteira entre o crime transnacional e o terrorismo foi
rompida. As investigações do assassinato de Pecci parecem que levarão
para um caminho que nos lembrará que, enquanto as autoridades seguirem
pensando que traficantes e terroristas são bichos que não compartilham o
mesmo ecossistema, esses criminosos seguirão tirando vantagens
evolutivas, e quem faz o trabalho de lutar contra eles e o mal que
representam acaba em desvantagem.
Como se não bastasse, Pecci foi morto no dia mais feliz de sua vida. No dia em que ele soube que seria pai.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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