BLOG ORLANDO TAMBOSI
Todo
dia, os humoristas sofrem dumping dos políticos e dos intelectuais
brasileiros, que são muito mais eficientes em provocar gargalhadas do
que nós. Ruy Goiaba via Crusoé:
Que
falta faz uma Anfavea dos humoristas para choramingar contra a
concorrência desleal ameaçando matar uma “indústria nascente” — com a
diferença de que, no caso dos engraçadões profissionais deste país, a
deslealdade dos concorrentes é um fato incontestável. Todo dia, os
humoristas sofrem dumping dos políticos e dos intelectuais brasileiros,
que são muito mais eficientes em provocar gargalhadas do que nós (não
precisam dizer que no meu caso o sarrafo é baixo, talquei? A gerência
agradece). Quem me lê sabe que já reclamei disso incontáveis vezes aqui
no meu cantinho dos resmungos semanais.
Mas
tente se colocar no meu lugar, leitor. O que você faz quando no Brasil,
na mesma semana, um frade é filmado atropelando um sujeito que havia
roubado moletons da paróquia — e o atropelador, descobriu-se depois,
estava com a carteira de habilitação vencida havia dois anos; só faltou
um adesivo “dirigido por mim, guiado por Deus” no carro —, um bombeiro
entra no McDonald’s e atira num atendente por causa de um cupom de
desconto e uma delegada da Polícia Civil do Rio é flagrada com quase 2
milhões de reais em dinheiro vivo na casa dela? A resposta óbvia é: a)
desiste de fazer humor; b) foge (Mussum diria “se pirulita”) do Bananão o
mais rápido possível. Não necessariamente nessa ordem.
(O
menos surpreendente desses três episódios é obviamente o da delegada, o
que mostra a dimensão da lama em que estamos metidos. Aí você fica
sabendo que ela é suspeita de envolvimento com o sobrinho de Castor de
Andrade e o ex-PM acusado de matar Marielle Franco e, a cada revelação,
fica menos surpreso. É como se fôssemos todos o Chico Bento niilista
daquela tirinha que virou meme no Twitter e reagíssemos a tudo dizendo
“isso é normar, tudo isso é normar”.)
Sabemos
faz tempo que o roteirista do Brasil é um Quentin Tarantino com notas
de Zé do Caixão e chanchada — mas sem aquele negócio de reescrever a
história para que os good guys vençam no final: Adolf Hitler e outros
nazistas sendo assassinados no cinema, Sharon Tate escapando incólume da
“família Manson” etc. Aqui o mal venceu, e a hora do sim continua sendo
um descuido do não. Mas temos de admitir que o tal roteirista tem
acordado ultimamente com os dois pés esquerdos e anda de péssimo humor.
Ou então é Deus mesmo comprovando a veracidade essencial daquela piada:
serafins e querubins perguntando “puxa vida, Deus, por que destes tanta
beleza ao Brasil e tão pouca aos outros países?” e Ele respondendo
“esperem só para ver o povinho que eu vou colocar lá”.
Tenho
pensado cada vez mais no padre dos balões, Adelir de Carli, que em 2008
tentou viajar de Paranaguá (PR) a Dourados (MS) amarrado em mil balões
de gás hélio e sem saber usar o GPS — seu corpo foi encontrado mais de
dois meses depois, no litoral do Rio, e ele ainda foi agraciado com o
Darwin Awards daquele ano. Hoje, vejo o padre De Carli como um
visionário e contenho todo dia a vontade que o Bananão me dá de sair por
aí pendurado em uns balões e sem GPS. Pelo menos é melhor do que sair
por aí atropelando ladrão de moletom.
***
A GOIABICE DA SEMANA
Todo
mundo sabe que o motivo de haver segundo turno em eleição para o
Executivo é fazer o vencedor obter ao menos 50% mais um dos votos
válidos e ter sua escolha legitimada pela maioria. Todo mundo, menos
Merval Pereira e Miro Teixeira — recentemente, o presidente da ABL e
colunista de O Globo ressuscitou a ideia do ex-deputado de fazer um
segundo turno com três candidatos, o que possibilitaria ao candidato
vencedor ter menos votos que os dois perdedores somados (40% x 30% x
30%, por exemplo). Achei tão brilhante que faço questão de deixar aqui,
na mesma linha, minha sugestão para a Fifa: uma final de Copa com três
times em campo vai ser muito mais emocionante.

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