BLOG ORLANDO TAMBOSI
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| Pequim, cidade-fantasma. |
Houve quem acreditasse que as autocracias tinham vantagem sobre as democracias porque eram mais ágeis na luta contra a propagação da pandemia. Dois anos depois sabemos que não é assim. André Abrantes Amaral para o Observador:
É
curioso como a percepção que temos dos factos muda em pouco tempo. Há
dois anos estávamos fechados em casa e temíamos o pior: a propagação de
um coronavírus que podia ser mortal e para o qual não havia vacina nem
curativos fiáveis. Assistíamos ao sucesso do regime chinês na
erradicação dessa mesma pandemia, ao contrário do que sucedia com as
democracias onde reinava a confusão. A China fechara algumas cidades
durante várias semanas (por cá sabíamos pouco que fechar podia
significar a morte por fome ou doença sem tratamento dentro das próprias
habitações) e os resultados estavam à vista: lentamente os
confinamentos eram levantados e, aos poucos, uma sociedade de cidadãos
cumpridores saía à rua dentro de horários pré-estabelecidos e à vez, de
maneira a se evitarem aglomerações. Aquela parecia ser a única forma
possível.
Já
na Europa e nos EUA reinava a confusão. Os casos positivos atingiam um
nível alarmante, os hospitais não davam vazão a tantos doentes, as
mortes acumulavam-se sem enterros dignos das pessoas que eram no que se
traduziam aqueles milhares de números diários. Os governos estavam
atarantados, as pessoas resguardavam-se em casa embora saíssem para
fazer compras ou até passear nas ruas próximas. No meio de tudo isso
havia uma convicção: a pandemia resolvia-se com uma vancina. Através da
ciência.
Foi
o que sucedeu. A vacina surgiu, na verdade foram várias e, de imediato,
as democracias liberais colocaram em marcha um plano de vacinação único
na história. No espaço de um ano a grande maioria da população foi
imunizada ao mesmo tempo que o vírus se propagava. Com o tempo, e tal
como os cientistas o preveram, o coronavírus mutou-se, uma, duas, três e
mais vezes, e foi perdendo força enquanto se tornava mais contagioso.
Dois anos depois podemos arriscar que esta pandemia é coisa do passado.
Pelo menos aqui na Europa e nos EUA. Nas democracias liberais.
Infelizmente o mesmo não podemos dizer da China.
Porque a China, a ditadura comunista chinesa, continua a confinar pessoas em casa. Desde de Março que a cidade de Xangai se encontra isolada.
Ninguém entra, ninguém sai. Nem da cidade nem de casa que os
confinamentos por aqueles lados são totais; são verdadeiramente reais;
são a doer. Até a Organização Mundial da Saúde criticou a política de
zero casos de Covid-19 de Pequim. Os dirigentes comunistas chineses
esclarecem que esta é a única forma de se evitarem mais de 1,6 milhões
de mortes. O que não mencionam é a baixa taxa de vacinação e a falta de
qualidade das vacinas chinesas. E é assim que, dois anos passados, as
cidades da Europa e dos EUA voltaram à vida normal enquanto na China se
continua em 2020 e a economia começa a ressentir-se. Se a crise
económica terá consequências políticas é o que saberemos nos próximos
meses.
Assistimos
a muitas transformações. Durante anos muitas empresas ocidentais
fecharam as suas fábricas na Europa e nos EUA para as abrirem na China. A
mão-de-obra era barata e os trabalhadores cumpridores. Os resultados
foram muito bons pois o custo da produção era baixo, os preços desciam e
uma inflação zero permitia juros baixos, o que anulava os riscos do
endividamento. A experiência mostra agora que não basta que as pessoas
trabalhem bem para que se abram fábricas na China; também é preciso que o
governo chinês seja confiável. E a única forma que, até ao presente,
conhecemos que nos garante que um governo é confiável e previsível é a
democracia liberal. É esta que dá espaço de manobra aos cidadãos para
que critiquem e corrijam os erros dos seus governos.
Outra
vitória das democracias foi a resposta da Ucrânia à invasão russa e a
reacção do Ocidente à firmeza de Kiev. Há quem compare a situação actual
do Ocidente à do Império Romano. Entenda que, à semelhança do que
sucedeu com Roma, também o Ocidente já viveu o seu apogeu e inicia
lentamente o seu longo declínio. A tese é tentadora e até pode ser
verdadeira. Mas tem um pequeno senão: o Império Romano não conheceu a
liberdade individual. O que os romanos conseguiram foi fantástico a
muitos níveis, mas não atingiu este pantamar. E este valor, esta
descoberta, é um motor com uma força aparentemente ímpar e única. Uma
força que surge quando e onde menos se espera. Quando e onde se crê que a
causa está perdida. Uma força que Pequim tenta a todo o custo apagar
com ordens de prisão como a do Cardeal de Hong Kong.
Com 90 anos, este cardeal católico foi detido pelas autoridades por ter
ajudado os manifestantes de 2019 que precisavam de ajuda financeira.
Podemos ficar impressionados com a frieza e o cinismo de certos
políticos e comentadores portugueses que equiparam o comportamento do
governo russo ao da Ucrânia, mas estas pessoas podem escrever e dizer o
que pensam. São livres de o fazer e não são punidas. A nossa
discordância não passa disso: de uma total falta de acordo.
Quando
Francis Fukuyama expôs, em ‘The End of History and the Last Man’, que a
democracia liberal é a forma final do governo dos homens, não excluiu
possíveis retrocessos. Não negou novas vagas de regimes totalitários.
Não pôs de parte novos deslumbramentos por velhas utopias. Fukuyama
mencionou apenas que a busca do melhor regime possível terminara com a
democracia parlamentar; com o conceito da separação do poder político e
da sua limitação. Que tipo de democracia parlamentar é que cada país vai
implementar de acordo com a sua cultura e as suas tradições é outra
questão. Tal como poderemos manter em aberto as chamadas de atenção que
Leo Strauss já fizera ao liberalismo moderno e aos riscos que este
representava para o niilismo e que poderiam levar à decadência da
civilização. Mas essa discussão, a ser tida, será sempre no seio das
democracias liberais que são os únicos regimes que a permitem.
O
certo é que podemos concluir, neste ano de 2022, que as democracias
estão melhor que em 2020. Estão melhor que as autocracias. Apesar da
inflação, da dívida, do populismo, da enorme confusão que resulta de a
cada um ser dada a oportunidade de pensar pela sua cabeça é melhor viver
em democracia que em ditadura. Por muito estranho que pareça a
percepção desta verdade tem uma força que nós próprios desconhecemos
apesar de a vivermos todos os dias.

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