"O sacrifício de um indivíduo pode ser válido, se dele advier um bem
maior”, escreve Schwartsman, talvez na esperança do que o “advier” na
frase distraia o leitor e o impeça de perceber a perversidade do
raciocínio. Paulo Polzonoff Jr. dá uma boa resposta a Hélio Schwarstman, editorialista da Folhona:
Hélio Schwartsman rascunhou umas palavras publicadas apressadamente
na tentativa de justificar o injustificável e explicar por que ele, que
já foi editor de opinião (de opinião!) da Folha de S. Paulo, torce para
que o presidente Jair Bolsonaro morra. Schwartsman está num estágio
avançado de “Bolsonaro Derangement Syndrome”. De minha parte, torço para
que ele tenha uma vida longa, melhore seu texto esquálido, recobre a
capacidade de ver o mundo e as pessoas com o olhar compassivo, reconheça
o erro absurdo e continue escrevendo. Nada pessoal.
Amarrado que estou ao que ele chama de “moral tradicional”, me recuso
a ceder ao impulso de expurgá-lo como faria a um autor que tem a
ousadia de se confessar “consequencialista” – para usar o termo que lhe é
tão caro. Em outras palavras, a “moral tradicional” me pede que o
perdoe por qualquer que tenha sido o motivo (vaidade? Ira?) que o levou a
escrever tamanha barbaridade.
Explica Schwartsman em seu texto que, no admirável consequencialismo
que ele parece professar, o resultado final está acima de qualquer
coisa. Qualquer coisa. É uma ética abjeta com a qual ele implicitamente
compactua e que encontra eco nas maiores tragédias políticas do último
século, como Holodomor, Holocausto, gulags, pelotões de fuzilamento,
porões da Ditadura, etc.
Para os consequencialistas, cuja moral torpe me obriga a parar o
texto (vou ali e já volto) para tomar um Sonrisal, o controle
populacional na China, por meio de abortos, esterilizações forçadas e o
assassinato puro e simples de crianças recém-saídas do ventre materno, é
justificado (“valorado”, no jargão dele) pelo resultado que produziu: a
prosperidade chinesa.
“O sacrifício de um indivíduo pode ser válido, se dele advier um bem
maior”, escreve Schwartsman, talvez na esperança do que o “advier” na
frase distraia o leitor e o impeça de perceber a perversidade do
raciocínio.
Aí, como se tocado por um anjo, ou talvez percebendo o
consequencialismo de suas palavras repugnantes, o autor propõe que
façamos um exercício filosófico: a morte de Jair Bolsonaro seria
filosoficamente defensável se garantisse a preservação de um número
maior de vidas em meio à pandemia de coronavírus?
Mas a pirueta semivirtuosa não dá muito certo. E Schwartsman, no
parágrafo seguinte, recorre ao tecnicismo tosco, próprio das mentes
apequenadas, dessas que se orgulham de seus diplomas na parede e que
leem gráficos como se fossem expressão da Sabedoria Divina, para atestar
que as pessoas estão morrendo aos montes por causa das “falas
negacionistas” do presidente. Argumento que contaria com a chancela de
“pesquisadores da UFABC, da FGV e da USP”.
A partir daí, Schwartsman dá uma de Jarbas Passarinho, manda às favas
os escrúpulos de consciência, e diz que a morte de Jair Bolsonaro por
coronavírus traria ao país “bônus políticos”, como o “fim das tensões
institucionais e de tentativas de esvaziamento de políticas ambientais,
culturais, científicas etc.”
Eu, que graças a Deus tento ficar o mais longe possível dessa tribo
consequencialista, com seus rituais macabros de sofrimento e morte
inimagináveis, me permito uma dúvida, uma questão retórica que, nos
últimos dias, tem me visitado com frequência: Schwartsman (e os que
pensam como ele) realmente acreditam que a morte de um homem que eles
não cansam de dizer que é inepto vai ser capaz de trazer paz ao Brasil
e, de quebra, exterminar o coronavírus?
Já sem qualquer resquício do semipudor que pudesse ter “contaminado”
os parágrafos anteriores de seu famigerado texto, desprovido de “estudos
científicos” e talvez percebendo que a “moral tradicional” batia
desesperadamente à sua porta para impedi-lo de concluir uma argumentação
tão indecorosa, Schwartsman diz que a morte de Jair Bolsonaro por
Covid-19 serviria ainda para alertar os governantes mundiais para a
gravidade da doença.
Como especular pode ser divertido e, neste caso, não faz mal a
ninguém, eu usaria as palavras do próprio Hélio Schwartsman para
argumentar que seu texto também pode servir como um “cautionary tale”,
ainda que de alcance restrito a essa imoral bolha progressista. Afinal,
depois de estabelecer um novo patamar de vilania ao desavergonhadamente
desejar a morte de uma pessoa, talvez daqui para a frente fique muito
mais difícil para militantes de sua laia ostentarem a falsa virtude de
seus delírios políticos.
Parafraseando o necroarticulista, Schwartsman presta em vida, e por
vias tortas, o serviço de mostrar do que é capaz uma moral perversa,
munida de uma pena maculada.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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