
Charge de Luiz Mello (Arquivo Google)
O governo Bolsonaro, através da Secretaria de Comunicação (Secom), deseja praticamente dobrar a verba de publicidade prevista para este ano, no sentido de melhorar sua imagem tanto no país quanto no exterior. O desgaste decorre das crises que envolvem o Palácio do Planalto e a equipe do presidente da República. Reportagem de Renato Onofre, Folha de SP de segunda-feira, focaliza o assunto.
Jornalista profissional há mais de 60 anos, posso assegurar que não existe vínculo entre a publicidade paga e as matérias publicadas nos jornais e focalizadas nas redes de televisão.
PUBLICIDADE COMERCIAL – Na minha opinião, a Secom está visando principalmente a Rede Globo por dominar amplamente a audiência, e a Folha, O Globo, o Estadão e também o Valor, pois estes são os maiores e mais influentes jornais do país.
Veicular publicidade comercial não adianta nada, é jogar dinheiro fora. A comunicação política e administrativa é gratuita e tem como base os acontecimentos da realidade e as iniciativas do governo que representem o interesse legítimo da população.
A Secom não consegue compreender esse processo. Pudera. São pouquíssimos os órgãos públicos e empresas estatais que adotam a linha a que me refiro. Preferem pagar pela divulgação que poderiam obter de graça.
ERRO ESTRATÉGICO – A matéria publicitária não convence exatamente por resultar de espaço pago. A diferença entre publicidade e jornalismo é a mesma que na matemática separa o teorema do axioma. Um abismo.
Renato Onofre destaca o ponto nevrálgico da questão. O secretário adjunto Samy Liberman, em ofício encaminhando a duplicação da verba para este ano, dá como exemplo que as mudanças do comando da Saúde repercutiram negativamente nos jornais econômicos mais influentes no mundo.
E conclui haver necessidade de uma liberação maior do gasto no setor de comunicação. Principalmente – vejam só – nos veículos nacionais mais críticos às ações do governo, além de quintuplicar o valor de gastos em relações públicas com a mídia. Isso exige maior capilaridade associada a situações muito díspares em cada local.
ESFORÇO INÚTIL – A verba este ano para a Secom incluída no orçamento prevê uma aplicação de 138 milhões de reais. A Secretaria está pedindo orçamento de 325 milhões de reais. Como se constata, a surpresa não está tanto no aumento da verba e sim no objetivo falso do alvo apresentado como justificativa.
Não adianta nada, é absolutamente nulo qualquer gesto que possa ser interpretado como tentativa de cooptação. A imagem do Brasil é ruim, porque o governo toma decisões erradas.a meta citada por Liberman, ela envolve além da mídia brasileira o New York Times, Washington Post e o Wall Street Journal, além de jornais europeus.
“COMPRAR” APOIO? – Nesse cenário as matérias negativas expõe o país, o que faz necessária uma ação de comunicação positiva. A imagem do Brasil no exterior tem de ser revertida. Para isso acontecer, é preciso o governo melhorar sua atuação, é claro. Não adianta tentar “comprar” apoio jornalístico.
Internamente, de acordo com o Datafolha, o governo Bolsonaro está perdendo de 44 a 32 na opinião pública. Nas relações públicas, em foruns internacionais, a média dos gastos nos últimos anos foi de “apenas” 10 milhões de reais.
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LIBERDADE DE EXPRESSÃO NÃO INCLUI ANONIMATO
Em artigo publicado hoje na Folha, o professor Ivar A. Hartmann, aborda o tema das fake news, a partir do projeto do senador Alessandro Vieira aprovado pelo Senado Federal.
Hartmann, formado em Direito por Harvard, aponta para um alvo certo quando defende a liberdade de expressão e condena o anonimato ao mesmo tempo. Está certo. Mas algumas observações escapam à realidade das redes sociais. Ele condena, é claro, as fake news, mas acentua que deve ser encontrado um denominador comum entre os bolsonaristas e os esquerdistas.
Não é nada disso. O cenário é muito mais amplo do que daquele ocupado pelas duas correntes. A rede da Internet, na minha opinião, torna impossível qualquer controle prévio da mídia espacial.
EDITOR RESPONSÁVEL – Nos jornais e emissoras de televisão as matérias são vistas por editores antes de sua publicação. Há inclusive editores responsáveis. O diretor responsável da Rede Globo, por exemplo, é o jornalista Ali Kamel. Esta colocação é fundamental para dividir as responsabilidades e situações. O que não pode haver, como o próprio Hartmann observa, é o anonimato, por uma razão simples. Seres humanos são responsáveis pela introdução dos robôs nas telas de um espaço infinito.
As pessoas podem escrever o que desejarem. Mas ficam responsáveis pelo que dizem. Os robôs não têm responsabilidade alguma. Assim, o fim do anonimato resolve a questão.
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