Não há democracia liberal sem pelo menos dois partidos rivais que
concorrem entre si no Parlamento. Artigo do professor João Carlos
Espada, via Observador:
Pode ser impressão minha, como se costuma dizer, mas tenho observado
com surpresa uma crescente relevância dada pela comunicação social a um
pequeníssimo partido, com um único deputado, que dá pelo nome bizarro de
“Chega”.
Uns artigos são contra, outros são a favor, outros ainda são mais ou
menos. E quase todos prevêem grande potencial de crescimento. Alguns
garantem mesmo que já cresceu imenso. Em qualquer caso, todos fazem
publicidade a um partido menor e com menor capacidade de articulação do
seu programa político — se é que o tem.
Trata-se sem dúvida de uma dissonância cognitiva. Não gostaria de
especular sobre as motivações que a alimentam. Mas não é difícil
percepcionar as consequências políticas — intencionais ou não — dessa
dissonância cognitiva.
Em primeiro lugar, a publicidade ao “Chega” é sobretudo útil à
esquerda radical. Funciona como confirmação da sua delirante visão da
“direita” como “inimiga da democracia”. A ideia hoje é re-criar a
dicotomia “Fascismo ou Revolução”, agora na versão “Chega ou Esquerda
Radical”. Mantém-se desta forma a ignorância da esquerda troglodita
sobre a democracia liberal (por eles designada capitalista) que se funda
na rivalidade pacífica e civilizada entre esquerda e direita
democráticas.
Aquela visão troglodita da esquerda radical foi entre nós
corajosamente enfrentada e derrotada por Mário Soares, enquanto líder do
Partido Socialista e da esquerda democrática. Atrevo-me a pensar que
continua a ser do interesse próprio esclarecido do Partido Socialista
tentar permanecer fiel ao legado de Mário Soares.
Em segundo lugar, temos as consequências da publicidade ao “Chega” no
âmbito da direita democrática. Aqui, o fenómeno é ainda mais bizarro —
porque é simplesmente suicida.
Muita gente anda zangada com a liderança do PSD de Rui Rio. Isto pode
ser compreensível — dado que, salvo melhor opinião, o Dr Rui Rio não
tem explicado com vagar (para já não dizer com vigor) o que distingue o
seu programa. Mas, em vez de apresentarem novas ideias para o PSD,
alguns críticos de Rui Rio não têm melhor ideia do que apostar no
crescimento de um grupelho radical — basicamente com o objectivo de
poder dizer que é o alegado “centrismo” de Rio que faz crescer o
“Chega”.
Receio ter de dizer que, na base desta comum aposta de uma certa
“esquerda” e de uma certa “direita” na conversa sobre o Chega, está uma
profunda ignorância política — que, sem receio, deve ser enfaticamente
denunciada e ridicularizada como aquilo que realmente é: primitiva,
terceiro-mundista, tribal.
A esquerda que define a direita como fascista (que para eles é
sinónimo de capitalista) é a esquerda do terceiro mundo que alimentou as
ditaduras comunistas na Rússia, na China, na Coreia do Norte, em Cuba,
na Venezuela e lugares afins.
A direita que define a esquerda como comunista (e, muitas vezes,
também como “capitalista”) é a direita terceiro-mundista — que
infelizmente teve algum impacto episódico, embora trágico, no continente
europeu, um pouco menos episódico, possivelmente menos trágico, na
Península Ibérica e na América Latina.
Essa chamada “direita” (em rigor, uma mera versão
contra-revolucionária do colectivismo revolucionário anti-liberal)
simplesmente ignorou — e continua a ignorar — que Churchill, De Gaulle e
Adenauer, Ronald Reagan e Margaret Thatcher foram líderes conservadores
anti-comunistas e anti-fascistas. É aquela mesma chamada “direita” que
provincianamente ignora estes factos e que continua a dizer hoje que o
PSD de Sá Carneiro e o CDS de Adelino Amaro da Costa eram… “de
esquerda”.
Dois pontos devem ser recordados contra o provincianismo
terceiro-mundista da esquerda e da direita colectivistas e
anti-liberais:
Primeiro, não há democracia liberal sem pelo menos dois partidos
rivais que concorrem entre si no Parlamento. Os seus programas devem ser
saudavelmente distintos e concorrenciais. Mas ambos devem
simultaneamente convergir enfaticamente na defesa comum das regras
gerais da democracia liberal. Nenhum partido sério da esquerda ou da
direita democráticas admite ou jamais admitiu a menor dúvida sobre as
suas credenciais demo-liberais.
Segundo, convém não projectar no eleitorado as pulsões tribais da
chamadas “redes sociais”. Uma coisa é o que a bolha mediática propaga —
outra coisa é o que os eleitores escolhem nas urnas e nos seus modos de
vida quotidianos.
Dois exemplos recentes podem ilustrar estas observações:
No Reino Unido, os radicais anti-Churchill, anti-capitalistas e
anti-semitas da dupla Corbyn/McDonnell tiveram uma derrota histórica nas
últimas eleições de Dezembro do ano passado; e o novo moderado líder
trabalhista, Sir Keir Starmer, está agora a re-centrar o seu partido,
revelando uma robusta e credível alternativa à (também histórica)
maioria de centro-direita obtida por Boris Johnson.
Nos EUA, o sr. Trump venceu as últimas eleições com base na
resistência ao radicalismo crescente e algo delirante do partido
democrata. Entretanto, os democratas puseram a andar o bizarro sr.
Bernie Sanders e re-centraram o discurso com Joe Biden. Este
re-centramento imediatamente pôs em causa a vantagem nas sondagens do
sr. Trump.
Em suma: como dizia Mário Soares — contra Álvaro Cunhal e os
saudosistas do antigo regime — devemos confiar no bom senso dos
eleitores. E, como dizia Winston Churchill, “Study History, Study
History!” (mas, de preferência, não apenas da América Latina ou da
Península Ibérica…).
Post-Scriptum: É incontornável registar que, contra ventos e
marés da esquerda e da direita radicais, o Presidente da República
Marcelo Rebelo de Sousa tem procurado defender o “equilíbrio do navio” —
uma expressão consagrada de Edmund Burke e Michael Oakeshott (dois
conservadores liberais) sobre a democracia liberal, fundada na
concorrência civilizada entre esquerda e direita democráticas. Voltarei a
este tema.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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