Coluna de Carlos Brickmann, publicada nos jornais desta quarta-feira:
É entusiasmante ouvir o superministro Paulo Guedes, o Posto Ipiranga
da Economia: disse à CNN (a propósito, é bom acompanhar a CNN: tem feito
um belo trabalho, com a divulgação de notícias exclusivas) que “o
Brasil já está saindo do buraco”, que as vendas para a China nos mantêm
equilibrados, e que o Governo prepara quatro grandes privatizações no
próximo trimestre.
É decepcionante acompanhar o destino de promessas anteriores. Há onze
meses, Guedes apresentou lista de 17 estatais a ser vendidas de
imediato. Há poucos dias, seu secretário especial de Desestatização,
Salim Mattar, disse que o Governo quer privatizar ao menos doze
estatais. Destas, seis estavam na lista do Posto Ipiranga, de empresas a
vender imediatamente em 2019. E quando Mattar espera privatizá-las? Em
2021. Isso se não houver problemas. A julgar pela propaganda oficial,
talvez haja: diz a propaganda que em 2015, final do Governo Dilma, as
estatais davam enorme prejuízo, e agora, com um ano e pouco de
Bolsonaro, dão bilhões de lucro. A propósito, não podemos esquecer o
Plano Marshall (ou PAC 2) oficialmente anunciado: por sua concepção, vai
precisar de estatais para tomar conta dele. E há ainda a aproximação do
Governo Bolsonaro com o Centrão: o presidente precisa dos parlamentares
para manter-se no cargo, e os parlamentares precisam de cargos para
reeleger-se. Estatais, pois.
Prometer é fácil – tanto que Guedes, confiante na falta de memória, promete a mesma coisa várias vezes.
Como diria Tite...
Por falar em prometer, Guedes prometeu, em vídeo, que a aprovação da
reforma tributária ocorrerá neste ano. Disse que o projeto está pronto
para enviar ao Congresso e espera vê-lo aprovado em 90 dias. Mas o
próprio Posto Ipiranga mostra que isso será muito difícil: gostaria, por
exemplo, de propor um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) de 10 ou 11%,
mas para isso precisaria ter a “tributação digital” (imposto sobre
movimentação bancária), “e infelizmente o Congresso interditou esse
debate”. No Congresso, diz, há propostas de IVA de até 30%, que, a seu
ver, “quebra o comércio e o setor de serviços”. Como se vê, um debate
difícil (e longo). Bolsonaro já disse que é contra a tal “tributação
digital”, identificadíssima com a velha CPMF.
Como debater com o Congresso sem apoio do Executivo? Indo mais longe:
em novembro há eleições municipais, e o Congresso se esvazia. Depois
das eleições, vêm as festas de fim de ano. Retoma-se o trabalho no ano
que vem.
...fala muito!
Mas imaginemos que tudo fique prontinho a tempo de ir ao Congresso e
torcer pela aprovação neste ano. A reforma administrativa de Guedes está
pronta e com Bolsonaro desde meados de fevereiro. De lá não saiu até
hoje.
O importante é ter saúde
O presidente Bolsonaro estar com coronavírus é algo a se lamentar.
Saúde é o que todos devem desejar-lhe, sejam favoráveis ou contrários a
ele. A vida de um ser humano, já ensinava o pastor John Donne há mais de
500 anos, é parte da vida de toda a Humanidade. E a quem o acuse de
debochar da grave doença, um lembrete: se Bolsonaro errou, seja
diferente, não repita este erro.
A volta do general
Lembra-se do general Santos Cruz, amigo de Bolsonaro, afastado do
cargo de ministro-chefe da Secretaria de Governo depois de uma guerra
que lhe foi movida pelos seguidores de Olavo de Carvalho, entre eles
pelo menos um dos filhos do presidente? Santos Cruz está de volta, com
disposição para briga. Abriu processo contra Olavo de Carvalho, o guru
da “ala ideológica” do bolsonarismo, e dois militantes, acusando-os de
ofensas nas redes sociais. Pede indenizações que, somadas, atingem R$
140 mil, e irão para instituições de caridade. As investigações
passarão, informa, pelo entorno de Bolsonaro.
Família é entorno?
Flávio, o filho 01, Carluxo, o 02, Eduardo, o 03, enfrentam problemas
que podem levá-los a julgamento. Santos Cruz não quer que ninguém lhe
peça perdão, mas garante que não vai transigir. “Vou até o fim”, disse à
revista Época, “com qualquer consequência. Não é só pela honra pessoal.
É funcional também. Eu era ministro! Quem é que tem a ousadia de
fabricar um documento grotescamente falso e fazer chegar ao presidente
da República? É crime. É uma ousadia, porra! Quero saber como isso
chegou ao celular do presidente. Quem enviou?”
O presidente recebeu mensagens de WhatsApp atribuídas a Santos Cruz
em que teria se referido desrespeitosamente a ele. Completa o general:
“Esses vagabundinhos que fizeram isso foram tão amadores que sequer
checaram que na hora da falsa mensagem eu estava em voo. São amadores,
para minha sorte.” E para azar do presidente, que também não verificou
esse pequeno detalhe.
Questão de utilidade
O Gabinete de Segurança Institucional não verifica currículos. Nem
mensagens. Ou não é acionado para isso. Em qualquer caso, qual sua
função?

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