A situação na Arábia Saudita não está para amadores e Mohammed Bin
Salman tem o tipo de cabeça quente que só bota fogo no deserto. Vilma Gryzinski:
Mohammad Bin Salman não é nenhum Príncipe de Maquiavel.
Embora possivelmente se veja assim. E seja guiado por um dos
princípios do gênio florentino: “Os homens devem ser adulados ou
destruídos, pois pode vingar-se das ofensas leves e não das graves; de
modo que a ofensa que se faça ao homem deve ser de tal ordem que não se
tema a vingança”.
O risco é que, em meio a suas brigas palacianas pelo poder, ele acabe
arrastando o mundo junto numa disputa muito mais importante, a pelo
preço do petróleo num momento em que o efeito coronavírus faz o mundo
viver no mais perigoso dos fios da navalha.
A briga agora é com ninguém menos que Vladimir Putin. Na calada do fim de semana, a Arábia Saudita passou a cimitarra no preço do petróleo.
Motivo: vingança contra a Rússia por se recusar a aderir à política
da OPEP de fechar a torneira da produção para ver se segurava o preço em
derrocada, devido a desaquecimento econômico global provocado por um
vírus que se alastra mais perigosamente sobre as finanças do que sobre
as potenciais vítimas da epidemia.
A derrocada do preço do petróleo abriu a semana com perspectivas
piores ainda para a economia, demonstrando, mais uma vez, que sempre tem
mais fundo no poço.
É esta a hora de comprar briga com a Rússia, com quem a OPEP vinha
fazendo jogo combinado há três anos, e ir para uma nova “guerra do
petróleo”?
Todo mundo sofre, do Brasil ao Canadá, dos Estados Unidos à Venezuela. Mas é claro que os menos desenvolvidos sofrem mais.
Sem contar, claro, a própria Arábia Saudita. Não é um momento exatamente bom. Ao contrário, é um momento de alta instabilidade.
Ao longo da semana passada, agentes mascarados dos serviços de
inteligência prenderam dois dos homens mais importantes do reino,
potenciais rivais para tramar a queda do príncipe herdeiro, o que com
toda certeza estavam fazendo. Seguiram-se outras prisões.
Um é irmão do rei Salman, príncipe Ahmed Bin Abdulaziz. Não um irmão
qualquer, mas o único remanescente, fora Salman, dos “sete Sudairi”, os
filhos do falecido rei Abdulaziz com a mesma mulher, justamente da tribo
Sudairi.
Os irmãos formaram a elite da Casa de Saud, transmitindo o poder de
um para outro, conforme iam morrendo, pelo método de sucessão agnática.
Os que não chegavam ao trono, ficavam com as posições mais
importantes do reino. Ahmed, por exemplo, foi ministro do Interior e
responsável pela administração dos lugares santos, a “custódia” de Meca e
Medina da qual a monarquia saudita deriva o que considera legitimidade
incontestável.
Ahmed deu um tempo fora do país – palácios não faltam – depois que o
rei Salman tumultuou o processo de sucessão e nomeou o filho favorito,
Mohammed Bin Salman, como príncipe herdeiro.
A oposição dele ao sobrinho era mais do que conhecida e ele poderia,
pela posição que ocupa na família, ser um “sucessor tampão”, um
escolhido para substituir MBS enquanto as diferentes facções buscassem
uma solução mais definitiva.
Mais importante ainda foi o outro preso da semana, príncipe Mohammad
Bin Nayef. Primo mais velho de MBS, também tinha direito a ser chamado
pelas iniciais MBN.
Nayef era o sucessor oficial antes que o rei lhe passasse a perna e colocasse o filho no lugar dele.
Em sinal de respeito, MBS fez uma encenação diante das câmeras depois
do que foi, na prática, a deposição de Nayef: beijou-lhe as mãos e
curvou um joelho diante dele.
Também colocou o primo e ex-futuro rei em detenção domiciliar – palaciana, no caso.
Pouco antes de ser dramaticamente empurrado para fora da sucessão,
Nayef havia recebido a mais alta condecoração da CIA a estrangeiros por
sua colaboração no combate ao terrorismo.
A medalha foi dada por Mike Pompeo, então diretor da CIA, hoje secretário de Estado.
Nayef não apenas dirigiu os serviços de inteligência contra o terrorismo jihadista, como sentiu diretamente seus efeitos.
Escapou de quatro tentativas de assassinato, sendo a última delas o
bizarro caso de um terrorista supostamente convertido que se explodiu
diante dele com uma bomba cirurgicamente implantada na cavidade anal.
O método terrorista não prosperou porque o próprio corpo do suicida
serviu como barreira. Um caso similar foi ficcionalizado na série
israelense Fauda, da Netflix.
Nayef apareceu com dois dedos enfaixados depois do atentado, para efeito propagandístico, mas os efeitos foram piores.
Devido a dores excruciantes que tratamentos médicos na Suíça não
resolveram, ele passou a tomar grande quantidade de remédios para dor.
Um dos motivos alegados, por baixo do pano, para sua remoção como futuro rei foi o efeito psicológico prejudicial da medicação.
Confinar ou exilar príncipes recalcitrantes não é exatamente uma novidade nos misteriosos corredores do poder da Arábia Saudita.
Sempre tem gente demais querendo um pedaço do poder – e dos contratos milionários do governo.
Mas é claro que o equilíbrio de forças precisa ser muito bem pensado.
Audácia, qualidade elogiada por Maquiavel num Príncipe, é o que não falta a Bin Salman.
Mas audácia mal sucedida pode dar em fiascos, do qual o mais
conhecido foi o tarantinesco assassinato do jornalista Jamal Khashoggi,
estrangulado e esquartejado no consulado saudita em Istambul.
Um abuso inominável, sem contar o vexame do crime grotescamente mal planejado.
E ainda teve o caso da invasão do telefone de Jeff Bezos.
Pode um futuro rei invadir o telefone do homem mais rico do mundo
para se vingar da plataforma dada a Khashoggi, um operador menor
transformado em herói por seus próprios assassinos?
Depois de irromper como sucessor como um príncipe jovem e cheio de
ideias para abrandar os controles religiosos extremamente conservadores
sobre a população, MBS conquistou simpatias entre o público jovem.
Também criou um dinheiroduto para promover sua imagem de monarca reformista e visionário.
A realidade está sendo um pouco mais complicada.
A guerra do petróleo que MBS desencadeou faz parte de um grande jogo
em que a Rússia tenta derrubar a produção americana, explodindo com a
liberação da extração, de óleo e gás, promovida por Donald Trump.
Tem que ter bala na agulha para peitar Vladimir Putin.
E assumir o risco de levar o mundo para o buraco de uma mega crise financeira.
“Todos veem o que você parece ser, mas poucos sabem o que você
realmente é”, escreveu Maquiavel sobre o homem em posição de poder.
Muito já apareceu sobre o que realmente é Mohammed Bin Salman. Muito mais vai aparecer.

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