Artigo de Diego Casagrande, publicado em Opinião & Crítica:
Qualquer reportagem decente – mesmo minimamente – que aborde presos
em primeiro plano, que conte suas histórias, deve sempre relatar porque
eles estão ali.
A história de um preso não começa na prisão, há um “antes” que o levou para lá.
Ao abordar seus crimes ou penas, não se trata de revitimizá-los, de
aumentar o preconceito, ou de criar embaraços para que se ressocializem
(os que podem e efetivamente querem).
O que me proponho é abordar apenas do ponto de vista jornalístico e de uma ética básica que compreende a comunicação social.
Estamos falando de como informar da melhor maneira possível o público, o leitor, o espectador, o consumidor de notícias.
Me refiro a RESPEITO por quem está do outro lado recebendo uma INFORMAÇÃO.
E nunca é demais lembrar: INFORMAÇÃO é coisa séria!
Dr. Dráuzio, Globo e Fantástico na reportagem sobre o estuprador e
assassino Suzy violaram isso tudo, vendendo gato por lebre, fazendo as
ovelhas chorarem pela história de um lobo sanguinário.
Vamos lá… Junto de qualquer história jornalisticamente relatada por
quem perdeu a liberdade diante de uma falta grave, há dados que não
podem faltar.
É elementar para a seriedade da comunicação, tão abalada – e não sem razão – na atualidade.
Que o preso conte eventuais violências que tenha sofrido, ou se falta
espaço na cela, ou se a comida é azeda, tudo isso está dentro do
script. Tudo certo. É inclusive saudável denunciar as distorções no
ambiente prisional, para que possamos aprimorar os cárceres brasileiros,
não raro, porões imundos e desumanos.
Mas agora estamos falando de outras coisas: verdade, critérios
honestos e equilíbrio no tão importante ato de informar o público.
Por que ele está lá? Qual seu crime? Qual sua pena?
Todas as pessoas estão ali porque existe algo passado. A vida delas
não começou agora. E se ali estão, confinadas, é porque existe um
sistema jurídico, um sistema de proteção da própria sociedade, que foi
violado e que prevê sanções.
No caso da Suzy, abraçada por Dráuzio ao reclamar do preconceito por
ser trans, faltou contar o essencial: era um monstro que estuprou, matou
estrangulado e escondeu o corpo de um menino de 9 anos.
Nas cadeias, assassinos de crianças e estupradores correm risco
permanente, são jurados de morte, talvez isso explique o porquê de Susy
não receber visitas. Há também um familiar dela que declarou querer
distância por se tratar de um abusador violento.
Feio, muito feio. Antiético esconder isso, para dizer o mínimo.
Negar informações básicas ao espectador, deixar o consumidor de
jornalismo no vazio, é negar o básico… ainda mais em tempos de
inevitável fluidez da informação. As coisas aparecem rápido, como de
fato apareceram.
E quem está sentado na poltrona vai percebendo que se tornou um idiota útil nas mãos de manipuladores midiáticos.
No caso em questão, centenas de crianças emocionadas foram incitadas a
mandar cartas e chocolates para… um matador de crianças. É surreal!
O triste é que este tipo de manipulação pode, ao contrário do que
parece querer, aumentar o preconceito com os transexuais. Muita gente
vai tendo a impressão de que os crimes cometidos por eles são ocultados,
abafados. Isso aumenta o sentimento de impotência e gera reações
negativas.
Dráuzio Varella é conhecido por romantizar as histórias de presos, como se fossem anjos caídos do céu.
Desta vez foi longe demais.
Dráuzio e a Globo silenciaram sobre um facínora pedófilo, violador sexual e matador de uma criança.
Miguel de Unamuno certa vez disse: “há momentos em que silenciar é mentir”.
Silenciar sobre um monstro é a pior das mentiras.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário