Multado, cancelado, banido de rede social e agora detido, Li Haoshi tinha feito uma referência praticamente inocente ao lema do Exército Vermelho. Vilma Gryzinski:
Li
Haoshi ficou “profundamente envergonhado”, prometeu que ia interromper
todas as apresentações, “refletir profundamente”, reeducar-se e não
fazer, nunca mais, nenhum tipo de brincadeira do tipo que desencadeou a
fúria dos céus sobre sua cabeça. Praticamente uma autocrítica comparável
à dos terríveis tempos da Revolução Cultural.
Pouco
adiantou: acabou detido. As represálias são tão desproporcionais que
podem varrer do cenário não apenas o jovem humorista e a empresa que o
contratou, a Mídia Cultural Xiaguo, proibida de promover qualquer tipo
de performance – o que provavelmente não conseguiria de nenhuma maneira,
considerando-se a absurda multa equivalente a 2 milhões de dólares –,
como a própria atividade da comédia stand up, um surpreendente e
nascente ramoso humorismo na China.
Uma mulher de 34 anos também foi detida por postar uma manifestação de apoio a Li Haoshi.
Como
tantos equivalentes ocidentais, há muitos jovens chineses que adoram a
transgressão inerente à comédia – em shows ao vivo ou reproduções pelas
redes sociais. Qualquer referência, mesmo leve e remota, aos slogans
oficiais que comandam a vida na China provoca risadas deliciadas. As
cenas que mostram os rostos surpresos, gargalhando diante da
irresistível tentação que é ouvir algo proibido, revelam que eles não
são nada bobos ou manipulados – apenas têm menos oportunidades de se
expressar.
A
piada que custou a liberdade a Li Haoshi, um comediante estreante que,
claro, usa um nome artístico em inglês, House, só pode ser assimilada em
sua inteireza por quem entende a cultura chinesa. O comediante fez uma
referência a seus dois cachorros, adotados num abrigo para animais, numa
cena em que corriam atrás de um esquilo.
“Outros
cachorros fariam a gente dizer como são fofinhos. Mas esses dois me
lembraram de ‘Lute para ganhar, construa uma conduta exemplar’”.
A
casa veio abaixo com a referência à frase anunciada em 2013 por Xi
Jinpiing como um lema para o Exército de Libertação Popular, o nome
oficial das forças armadas que remete ao tempo da revolução comunista.
“Jamais
permitiremos que nenhuma empresa ou indivíduo use a capital chinesa
como palco para caluniar a gloriosa imagem do EPL”, disse uma nota
oficial da Secretaria da Cultura de Pequim.
A
vigilância sobre performances ao vivo ou nas redes é enorme e
constante. Um comediante da Malásia, Nigel Ng, fez piada com isso. Pediu
ao Partido Comunista Chinês que não sumisse com ele das redes por causa
de um show que vai estrear no domingo, dia 4 – aniversário do massacre
da Praça da Paz Celestial de 1989 e data que era comemorada quando
estudantes de Hong Kong ainda podiam imaginar que tinham liberdade para
fazer os protestos criteriosamente reprimidos, entre 2019 e 2020.
“Olhem
o Uncle Roger sendo cancelado”, brincou o comediante, que usa esse nome
artístico, ao mostrar um clip do próximo espetáculo. Quatro dias
depois, estava banido do Weibo, o Twitter chinês. Ng é um fenômeno da
internet, com seus vídeos parodiando um programa de culinária da BBC,
com inglês de forte sotaque malasiano, tendo atingido 34 milhões de
visualizações.
Segundo
Ian Williams, que foi correspondente na China, escrevendo na Spectator,
a surpreendente propagação dos espetáculos de comediantes stand up
começou da maneira mais previsível possível, em cafeterias e pequenos
clubes noturnos. Mas, hoje, atingiu o considerável número de cerca de
1.500 humoristas do gênero, um prodígio, considerando-se que os scripts
têm que passar por censura prévia – num gênero onde a improvisação reina
– e os comediantes se comprometem a “amar a pátria e apoiar a linha e
as políticas do PCC”.
Williams
lembrou que, certa vez, ouviu do artista dissidente Ai Weiwei, que mora
em Portugal, a seguinte definição: “O Partido Comunista Chinês é
provavelmente a coisa mais engraçada que existe. Mas não tem senso de
humor”.
Do
ponto de vista do regime, faz todo sentido reprimir os comediantes: o
humor é um meio intrinsicamente subversivo (exceto, por óbvio, quando
faz piada a favor, uma melancólica traição a si mesmo).
“A
China é um bom país”, provocou Nigel Ng num vídeo viral. “Temos que
dizer isso, não é? Com todos os telefones sendo interceptados”.
“Viva o presidente Xi”, diz ele. “Olhem meu crédito social subindo”.
“Crédito
social” é o instrumento inventado pelo regime chinês para premiar os
cidadãos bem comportados – e, evidentemente, submissos.
“E
Taiwan não é um país. Não é um país”, cutucou, repetindo um slogan
oficial da China. A plateia rolou de rir só com a entonação de voz.
Outro caso em que é preciso entender o contexto social.
Qualquer
piada, fraca, ruim, suja, abusada, desrespeitosa, tem um poder
insuportável para os que execram o ambiente de liberdade em que é
preferível ouvir um abuso a cometê-lo em nome da proteção ao público.
Alguma
mente pervertida nos Estados Unidos inventou a seguinte piada: “O que
acontece quando um chinês tem um filho com uma mexicana? Nasce um ladrão
de carro que não sabe dirigir”.
É
horrenda, ofensiva, preconceituosa, xenófoba e muito além das quase
inocentes provocações que custaram a carreira e a liberdade a Li Haoshi,
um jovem de óculos e calça de moletom igual a infinitas multidões de
outros.
Mas
é melhor não proibi-la do que usar o poder do estado para impor o que
um cidadão pode dizer a um público que escolheu ouvi-lo.
Por
falar nisso, já ouviram aquela em que Exército de um certo país faz uma
compra em massa de Viagra e mesmo assim se curva à ordem da autoridade
civil de convidar generais chineses para um seminário sobre doutrina
militar?
Ah, essa não tem graça nenhuma.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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