BLOG ORLANDO TAMBOSI
Nem é preciso dizer que essa pororoca de not even wrong foi tratada nas redes como uma “aula” de redução dos juros, o que mais uma vez comprova a clássica frase de Umberto Eco sobre a internet ter dado voz a uma legião de imbecis. Ruy Goiaba para a Crusoé:
Todo
mundo que me lê — obrigado, querida meia dúzia de três ou quatro; se
todos fossem iguais a vocês, que maravilha viver — sabe o quanto implico
com o mau uso e a má tradução de termos em inglês para substituir
palavras do português que estão em pleno uso corrente: vocês sabem, há
um pessoal que adora “aplicar” para um curso ou “endereçar” um problema.
Este texto, porém, trata de um caso que é o contrário disso: expressões
inglesas que ainda não têm tradução corrente e deveriam ter, porque o
que elas descrevem acontece o tempo todo nessa contradição em termos que
é o “debate político” do Bananão.
Uma
delas é whataboutism, substantivo que vem de “what about…?” naquela
acepção de “mas e Fulano?”. Em português, trata-se de responder a uma
pergunta ou a uma acusação difícil sem responder — fazendo, em vez
disso, uma contra-acusação ou levantando uma questão diferente. Fica
fácil entender com exemplos práticos: o fenômeno ocorre sempre que
alguém fala mal do Lula e o lulista retruca com “mas e o Bolsonaro?”,
assim como os bolsonaristas vinham com “e o PT, hein? E o Lula?” toda
vez que o Talquei era alvo de críticas. O whataboutism, como se vê, é
democrático e pluripartidário: pode ser usado por qualquer um que seja
incapaz de dar resposta direta e prefira desviar o assunto.
Outra
dessas expressões para as quais é difícil achar uma versão concisa em
português — e, aliás, uma das minhas favoritas em inglês — é not even
wrong. Ela é usada para descrever alguma coisa que é tão absurda e sem
sentido que, para chegar a ser apenas errada, tem que melhorar MUITO. O
Brasil nos dá belíssimos exemplos de not even wrong o tempo todo: um
deles é aquele economista unicamper que, certa vez, publicou uma tabela
de investimentos públicos em relação ao PIB, com o Brasil lá embaixo,
dizendo que essa era a “razão do nosso atraso”. No topo da tabela
estavam grandes potências como Haiti e Nicarágua; pode ser difícil, mas
quem sabe um dia não chegamos lá?
Mas
o melhor exemplo recente de not even wrong foi a, digamos assim,
performance do glorioso senador Cid Gomes durante a audiência do
presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, no Senado na última
terça (25). O irmão de Ciro decidiu mostrar ao banqueiro como é que se
faz: trouxe uma lousa, pegou a taxa de juros dos EUA, usou aquela regra
de três que a gente aprende no ensino fundamental e “estimou” o quanto o
Brasil economizaria se adotasse os mesmos juros da “Meca do
capitalismo” (nas palavras do nobre senador). É JENIAL — afinal, não há
diferença nenhuma da economia americana para a nossa, nem em tamanho do
PIB, nem em histórico de inflação, nem em nadica de nada. Basta meter a
regrinha de três e tá resolvido: pode mandar embora o pessoal do Copom
que fica perdendo tempo com aquele porrilhão de números da economia
brasileira. Aliás, gostaria que o senador fizesse o mesmo cálculo com o
salário do Jeff Bezos e o meu, para saber certinho quanto mereço ganhar.
(A
patuscada não terminou aí: Cid exibiu um boné do Santander, onde Campos
Neto já trabalhou, e disse “pegue seu bonezinho e peça para sair”. Bom,
pelo menos não era uma retroescavadeira; mas teria sido mais divertido o
presidente do BC responder oferecendo ao senador um boné da
Massey-Ferguson.)
Nem
é preciso dizer que essa pororoca de not even wrong foi tratada nas
redes como uma “aula” de redução dos juros, o que mais uma vez comprova a
clássica frase de Umberto Eco sobre a internet ter dado voz a uma
legião de imbecis. Arrisco até dizer que Cid talvez — vejam bem, talvez —
soubesse estar falando besteira, mas fez de propósito para viralizar:
como as eleições no Bananão têm demonstrado, lacração funciona e elege
gente que não passa ilesa pelo mata-burro, mas ainda assim é
marginalmente mais inteligente que os idiotas da aldeia que votam neles.
Não tenham ilusões: seguiremos elegendo os palhaços mais carismáticos
neste país que, para ficar errado, ainda tem de melhorar muito.
***
A GOIABICE DA SEMANA
Que
disputa acirrada, meus amigos! A semana começou com Fernando Haddad
assegurando que a Shein abriria uma fábrica aqui e ofereceria “cerca de
100 mil empregos” para brasileiros — nem a maior empresa do país, o
Itaú/Unibanco, chega a ter 100 mil funcionários hoje. Depois veio Fabio
Wajngarten, dublê de porta-voz e advogado da família Bolsonaro, jurar
que Michelle Bolsonaro deixou as joias sauditas “dois ou três dias” na
cozinha do Alvorada porque, puxa vida, não fazia a menor ideia do que
estava dentro do pacote. Mas, na última quarta-feira (26), pintou o
campeão: em depoimento à Polícia Federal, Jair Bolsonaro alegou que
estava sob efeito de remédios quando postou (e depois apagou) um vídeo
com fake news sobre as urnas eletrônicas, dois dias depois do 8 de
janeiro. O “foi mal, tava doidão” fica, portanto, oficializado como
estratégia de defesa.

O meme que, ao lado de “foi sem querer querendo”, resume a defesa de Bolsonaro
Postado há 5 days ago por Orlando Tambosi

Nenhum comentário:
Postar um comentário