BLOG ORLANDO TAMBOSI
O melhor que se pode dizer de Heloísa Buarque de Hollanda é que ela não tem relação nenhuma com o Chico Buarque de Hollanda. A crônica de Alexandre Soares Silva para a Crusoé:
Heloisa Buarque de Hollanda é a mais nova integrante da Academia Brasileira de Letras.
Não,
não é a Miúcha, que também tinha esse nome e que morreu inocente de
livros. Esta Heloisa Buarque de Hollanda é a autora de Feminista, Eu?,
Explosão Feminista, Pensamento Feminista Hoje: Perspectivas Decoloniais,
mais uns outros tantos livros com “feminista” no título, e o que parece
à primeira vista ser um livro sobre a Regina Casé e o Luís Fernando
Guimarães.
É
só ativismo político. Ela mesma diz isso em todas as entrevistas que
dá. “O que eu estou fazendo é uma militância”, responde quando lhe
perguntam o que a motiva a escrever. “É o que eu posso dar. Virou um
projeto político.”
Segundo
o seu próprio site, Heloisa é também autora de artigos como “A Academia
ao Sul do Cyberspace”, “O Declínio da Autoria na Web e nas Artes”,
“Vida Literária na Web”, “Política Cultural ao Sul da Web”, etc. Sim,
Heloisa é o tipo de pessoa que ainda fala “web”, e como todas as
professoras encantadas com a internet você meio que espera que ela fale
“internautas” ou “rede mundial de computadores”.
Literatura
de avozinha prafrentex. Livros de senhorinha ainda lúcida que vai
sozinha na feira. Essa datada imortal de Ribeirão Preto parece aceitar
todas as inovações juvenis do ativismo atual com uma ansiedade evidente
de não ser deixada pra trás.
Em
entrevistas: ”Essa geração nova, que tem um gás e uma consciência
incrível já adquirida…” “A geração dos anos 90 não era feminista e não
se interessava por isso. Mas de repente com a internet explodiu essa
quarta onda do feminismo. As filhas nos traíram, mas as netas nos
resgataram. É uma alegria ter essas ‘netas’ mandando ver (risos).”
E
por aí vai. O vocabulário, pelo menos o vocabulário de ativista, é au
courant: “escravizados” no lugar de “escravos”, “povos originários” no
lugar de “indígenas” ou “índios”, “decolonial” pra todo lado, etc.
O
feminismo, diz ela, foi uma fascinação na sua pós-graduação em Nova
York. “Você começa a ler tudo com outro olho, que é seu, mas que até
então nunca tinha usado.”
Parece
que estou recebendo uma revelação sobre os métodos de leitura das
feministas que eu preferiria não ter recebido. Isso lembra o velho
poema:
Camões, poeta caolho,
Grande vate português,
Enxergava mais com um olho
Do que nós todos com três.
Eis um poeta que merecia entrar na ABL, mas infelizmente morreu anônimo.
Numa entrevista para o UOL:
P: Qual é o grande mérito da escrita feita por mulheres?
HBH:
A mulher bota a primeira pessoa no texto, sua biografia, coisa que o
homem não faz. É uma visão do texto completamente diferente. A mulher
registra sua experiência e diz de onde está falando. Homem não diz de
onde está falando, porque homem é “universal”, é “a verdade”.
Talvez
ela tenha razão, e as escritoras mulheres não consigam mesmo escrever
com objetividade, e tudo no que elas escrevem seja “eu, eu, eu, eu, eu”.
Talvez eu mesmo já tenha dito algo parecido, embora com o atenuante de
que eu nunca disse que era feminista, quanto mais nos títulos dos meus
livros.
Mas
duas coisas: primeiro, quem me dera que os escritores homens atuais
realmente escrevessem assim, como um Tolstói universal da objetividade
flutuando no espaço da observação pura. Isso acabou faz muito tempo, e
todos eles parecem agora estar “botando a primeira pessoa no texto, sua
biografia”, como ela diz.
E
a segunda coisa: não encaixo minha escritora favorita, Muriel Spark,
nisso que ela está falando; nem George Eliot, Edith Wharton, Willa
Cather, Mary Renault, Molly Keane, ou Donna Tartt. Mas que sei eu sobre
“literatura feminina”?
Enfim.
Toda vaga que abre na Academia Brasileira de Letras vem essa discussão
de que não-sei-quem não deveria poder entrar, “porque nem escreve
literatura”.
Essa
polêmica é sempre colocada nos termos errados. O problema de Gilberto
Gil, Heloisa Buarque, Sarney etc não é que não escrevem literatura.
Antes fosse, porque o que é menos prejudicial para a literatura do que
pessoas que nem sequer escrevem literatura?
O
problema deles é que seja o que for que eles fazem está perto demais da
literatura. O que escrevem tem uma semelhança caricatural e deformada
com a literatura, e essa semelhança distante é obviamente pior que não
escrever coisa nenhuma.
Deem-me
um honesto não escritor! Tem gente demais que escreveu livro na ABL.
Ela deveria abrigar todas as pessoas que nunca escreveram um livro nas
suas vidas. Chamem pagodeiros, perfumistas, taxidermistas, um sujeito
que vende quibe.
Os
livros de HBH não são literatura, certamente, mas a sua semelhança
caricatural com a literatura me faz desejar que quem tivesse entrado na
ABL fosse alguém incapaz de escrever uma lista de compras; alguém como
um filhote de weimaraner, ou um gorila que se comunica por gestos
marcel-marceausescos, ou até um envelope com sessenta sementes de
girassol.
O
melhor que se pode dizer de Heloisa Buarque de Hollanda é que ela não
tem relação nenhuma com o Chico Buarque de Hollanda. E às vezes me
parece uma boa ideia chamar todo mundo que não tem relação nenhuma com o
Chico Buarque de Hollanda para entrar na Academia Brasileira de Letras.
Postado há 4 days ago por Orlando Tambosi

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