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O papel ridículo a que Girão se prestou é um desserviço para uma pauta legítima e que tem o apoio da maior parte da população brasileira: a luta contra liberação do aborto. Guilherme Macalossi para a Gazeta do Povo:
Nem
o lulopetista mais empedernido poderá negar que a vitória de Lula na
eleição teve menos a ver com seus supostos méritos e mais com a
colaboração involuntária do bolsonarismo, cuja passagem pelo poder
deixou marcas profundas de incompetência, violência política, crise
institucional permanente, flerte com a ruptura democrática e
desumanidade com as centenas de milhares de vítimas da Covid. Esse caldo
desastroso fez até históricos críticos e opositores do PT preferirem
fazer o L a reeleger Jair Bolsonaro.
A
massa de eleitores de centro, principalmente no Sul e no Sudeste, foi
mudando de lado entre 2018 e 2022. E basta constatar o que ocorreu em
cidades como São Paulo, onde o ex-presidente venceu em 2018 com mais de
60% dos votos e perdeu em 2022 com 49%. Nos quatro anos de seu mandato,
Bolsonaro encolheu em regiões onde detinha considerável vantagem.
Depois
de ajudar a reabilitar o PT, o bolsonarismo parece disposto também a
desmoralizar a ideia de oposição. O caso dessa semana envolvendo o
senador Eduardo Girão é emblemático. Em meio a uma audiência pública com
o ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, o parlamentar do Novo
tentou lhe entregar um feto de plástico. “Já que a gente entrou na
questão da dignidade humana, vou materializar com a entrega dessa
criança com 11 semanas de gestação”, disse se levantando da cadeira e
indo até a mesa onde estava o integrante do Executivo. Almeida reagiu
repudiando o que chamou de “performance”. “Eu vou pedir uma coisa, eu
não quero receber isso por um motivo muito simples: eu vou ser pai agora
(...) Em nome da minha filha, eu não vou receber. Isso é um escárnio”.
Se
tivesse um mínimo de bom senso, Girão deixaria de lado a necessidade de
alimentar o alarido de bolhas com recortes de seus momentos de lacração
e evitaria o risco de abrir o flanco dessa forma. Como o governo Lula tem flexibilizado as restrições impostas ao aborto,
o senador achou que bastaria fazer um teatro para constranger Almeida,
um entusiasmado defensor da mudança na legislação. Mas o ministro é
tudo, menos um parvo. E soube inverter a situação, produzindo um recorte
a seu favor. Enquanto o ministro era aplaudido, o senador voltava para
seu lugar em silêncio, numa cena que acabou viralizando imediatamente.
Girão,
assim como outros bolsonaristas, é tão performático quanto
despreparado. Aturdido pela resposta que recebeu, não conseguiu nem
identificar que Almeida havia caído inadvertidamente em autocontradição.
Ao recusar o feto de plástico em nome de sua filha que estava por
nascer, o ministro dos Direitos Humanos acabou reconhecendo a existência
de vida já no ventre materno. A pergunta óbvia seria se tal status se
aplica de forma geral para a população ou se vale apenas quando há o
desejo de se ter o bebê. Não pode haver dois juízos para a questão. Mas
Girão nem deve ter se apercebido do óbvio lapso produzido pelo ministro.
O
papel ridículo a que Girão se prestou é um desserviço para uma pauta
legítima e que tem o apoio da maior parte da população brasileira: a
luta contra liberação do aborto. O que ele fez foi transformar o
ministro em vítima, fazendo dele o cavalheiro impoluto a tratar o
adversário provocador e incivilizado com galhardia. O senador, por sua
vez, apenas posou de bufão frustrado, fazendo da sua imagem uma
caricatura que vai ser usada pela esquerda para descrever o
comportamento de todos os que concordam com ele, mas que não
necessariamente são adeptos de seus métodos.
A
construção de um movimento político conservador legítimo foi
sequestrada pelo bolsonarismo, que levou a abordagem de sua agenda ao
extremo, o que contribuiu para se criar uma falsa percepção de
razoabilidade na esquerda. E não apenas no debate sobre o aborto. A
ideia de direito individual se converteu num atomismo antissocial sem
responsabilidades, a defesa do direito de legítima defesa virou uma
pregação de viés miliciano, a crítica ao estatismo virou o desmonte do
setor público básico, a defesa do sistema de livre mercado virou um
elitismo vultar, a oposição ao identitarismo militante virou licença
para o exercício do preconceito, e a crítica às políticas econômicas do
PT se converteu no medo do fantasma comunista pré-queda do Muro de
Berlim. Para a alegria da esquerda no poder, a chamada oposição de
direita virou um valhacouto aberrante, em que prudência foi trocada pela
peruca loira de Nikolas Ferreira.
Postado há 4 days ago por Orlando Tambosi

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