BLOG ORLANDO TAMBOSI
Com jeito, alguém descobrirá um dia que Platão não era vegetariano, que Goya não era feminista, que Benjamin Franklin desconfiava de vacinas, que Rodin não ligava às alterações climáticas. Via Observador, a crônica semanal de Alberto Gonçalves para o Observador:
A
propósito do Dia da Mulher, a Penguin portuguesa, pelo menos a Penguin
portuguesa, resolveu, cito, “desafiar convenções”. Vai daí, imprimiu uma
série de livros em que os autores aparecem identificados na capa com o
nome da mãe e não, como é habitual, com o do pai. Shakespeare passou a
William Arden, Wilde a Oscar Elgee, Kafka a Franz Lowy, Austen a Jane
Leigh e Pessoa a Fernando Nogueira, etc. E tudo isto #EmNomeDaMulher,
“hashtag” que a editora pediu ao povo para usar nas redes sociais, junto
com a adopção do apelido materno e a consciência de que é preciso
“mudar mentalidades”.
Não
conheço a repercussão do apelo. Mas faço uma ideia das mentalidades que
mudou. Não me custa imaginar o típico agressor que entra em casa, com
sangue no álcool e cachecol do clube ao pescoço, e se prepara para
descarregar na cônjuge as frustrações habituais. Confrontado com o
atraso no jantar, já a mão está levantada para o bofetão da praxe quando
ocorre ao bruto a campanha da Penguin. De súbito, o bruto apercebe-se
de que, apesar da Carta ao Pai, Kafka também tinha mãe. E comove-se. A
mão desce, não num estalo e sim numa carícia, que de seguida se
transforma num abraço longo e apertado. Obrigado, Penguin.
Além
de mostrar que, não fora a tradição patronímica, Wilde seria confundido
com uma marca de televisores e Pessoa com um antigo líder do PSD, a
iniciativa desafiou de facto uma convenção: a de que cada ser humano é
dotado de um cérebro. É que, pelos vistos, as senhoras e os cavalheiros
da Penguin ignoram que os nomes das mães dos autores são os nomes dos
pais delas. E que, assaz orgulhosos da proeza, se limitaram a rebaptizar
cada poeta, dramaturgo ou romancista com o sobrenome do respectivo avô,
ele próprio um provável representante do heteropatriarcado tóxico.
A
incapacidade de raciocinar é naturalmente comum ao revisionismo
literário, e não só, em curso. Por não conseguir distinguir ficção da
realidade nem produzir um texto legível, essa gente vinga-se conforme
pode dos que conseguem. É sempre mais cómodo trucidar As Aventuras de
Huckleberry Finn (ai, a “n-word”!) do que conceber trabalho que lhe
chegue à planta de um pé raso – mais cómodo e mais adequado a burgessos.
Nuns casos, os burgessos alteram o nome dos escritores. Noutros,
alteram as palavras que estes nos deixaram.
Não
há semana sem lápis azul. Na semana passada, a censura voltou-se para
as obras de Roald Dahl, aparentemente repletas de vocábulos ofensivos
para sujeitos com a ofensa fácil. Assim, “gordo” tornou-se “enorme” (sem
se especificar em qual dos eixos cartesianos). “Feia” tornou-se “muito
desagradável” (o que não parece grande eufemismo). E “preto” desapareceu
sumariamente, ainda que na história em causa a cor descrevesse uns
tractores. Nem quero pensar se Dahl, ou Roald Hesselberg, o nome da mãe,
tivesse mesmo arriscado bulir com raças (descontados, é claro, o
anti-semitismo e os anões, perdão, os pequenitos de Charlie e a Fábrica
de Chocolate, em que alguém arranjou forma de ver uma paródia aos
negros).
Quem
se meteu na delicada temática racial foi Eça de Queirós, ou Zé Maria
Eça, dado que somente o Queirós veio do pai. Ou essa (desculpem) é a
opinião de Vanusa Vera-Cruz Lima, investigadora cabo-verdiana que dá
aulas de português numa universidade americana. O problema da dra.
Vanusa é com Os Maias, cujo narrador “reproduz a superioridade da raça
branca sobre a raça negra, evidenciada através do discurso, frases,
escolha de palavras, pensamentos das personagens de que a raça branca
merecia ter o poder absoluto sobre a raça negra”. Para cúmulo, a dra.
Vanusa detectou que João da Ega era favorável à escravatura, talvez por
ter investigado atentamente a críptica frase em que Eça de Queirós diz:
“Ega declarou muito decididamente que era pela escravatura”. Perante
tais afrontas, a dra. Vanusa não exige proibições: apenas reclama que as
futuras edições de Os Maias venham acompanhadas de comentários, estilo
Código Civil, de modo a gerar “conversas corajosas sobre raça dentro do
romance”.
Não
vale a pena informar a dra. Vanusa de que a concentração de melanina é
tema tão central a Os Maias quanto as rendas de bilros. E lembrar-lhe o
papel dos africanos no tráfico de africanos. E explicar-lhe que quem
teria legitimidade para pedir a revisão póstuma de Eça de Queirós eram
os portugueses da metrópole, devida e lucidamente enxovalhados por ele
(à cautela, nunca o fizemos). Porém, nenhum desses pontos é o ponto.
O
ponto é que, se calhar, Eça de Queirós era realmente racista. E Roald
Dahl odiava judeus. E Fernando Pessoa assinou com resmas de nomes sem
recorrer ao da mãe. E, com jeito, alguém descobrirá um dia que Platão
não era vegetariano, que Bach não era ateu, que Goya não era feminista,
que Benjamin Franklin desconfiava de vacinas, que Rodin não ligava às
alterações climáticas, que T.S. Eliot não apreciava a social-democracia,
que Churchill não se entusiasmava com transsexuais e que, à semelhança
do neto, o meu avô não separava o lixo.
E
depois? Nada disso é extraordinário. Extraordinário é haver no Ocidente
criaturas que, sem saber escrever, querem reescrever dois mil e
quinhentos anos de História à luz do que aprenderam num vídeo do TikTok
da passada terça-feira. Extraordinária é a soberba das criaturas, aliás
proporcional à boçalidade. Para não envergonharem pai ou mãe, as
criaturas deviam usar pseudónimo todos os dias.
Postado há 6 days ago por Orlando Tambosi

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