BLOG ORLANDO TAMBOSI
Segundo o infalível senhor presidente, a falta de alimentos de muitos vem do muito que comem uns poucos. Divirtam-se com a crônica de Orlando Tosetto na Crusoé:
É
melhor pular os preâmbulos e falar de vez: sou um dos responsáveis pela
fome que assola o Brasil. E digo o porquê: segundo o excelso e, pelo
tom mavioso das loas, infalível senhor presidente, a fome de muitos vem
do muito que comem uns poucos. Ora, sendo eu um indivíduo corpulento, de
ossos grandes, isto é, sendo eu gordo (“gordo como um ministro”, diriam
os debochados; mas eu, que nunca debocho de nada nem de ninguém, digo
só gordo), segue-se que ando comendo a comida dos outros. É verdade e,
como dizem, posso provar.
Puxe
aí o amigo pela lembrança: sumiu-lhe alguma batata do prato enquanto
você sorria para o tipo faceiro a seu lado? Eu comi. Eu ou o Flávio
Dino. (Não, péra: o Flávio Dino não, o Flávio Dino jamais – eu, eu é que
comi.) Evaporou-se uma das salsichas do seu dogão de esquina enquanto
você, pasmado, mirava um arranha-céu colossal? Eu furtei. A embalagem
dos frios foi aberta e sete fatias de salame hamburguês de primeira
qualidade desapareceram enquanto você catava as moedas no caixa do
supermercado? Eu levei. Metade do pepperoni que ornava sua pizza sumiu
enquanto você pagava o motoboy? Eu papei. Três quartos dos seus ovos
mexidos desapareceram enquanto você lia a capa do jornal e gritava “Mas
não é possível! Não é possível!!!”? Fui eu, sim. Faltavam dois kiwis na
sua sacola quando você voltou da feira? Eu os aliviei. É isso, amigo:
aquele ronco matinal na sua barriga se deve ao bife que eu furtei do
prato do seu jantar. É por isso que você é magro, ó, famélico da terra.
Mas
tem mais. Aqui é Brasil e sempre tem mais. Eu sou diabético, o que quer
dizer que também andei abafando as sobremesas dos brasileiros. Uma
dentada inesperada no seu sorvete: eu. Três gomos a menos na sua
mexerica (ou, se você for gaúcho, na sua bergamota): eu. Sumiram as
camadas de cima do seu mil-folhas: eu. Caramba, já comeram metade do seu
bolo de aniversário: eu. Acabou o doce de leite argentino: eu. Tinha
gelatina e não tem mais: eu. Sumiu o pavê? Eu. Não era pacumê?
Daí
o amigo se convença: estou no centro da crise da fome. Sou toda uma
nuvem de gafanhotos, sou um cavaleiro da escassez, um paladino do
raquitismo alheio. Mas estou arrependido e quero me emendar. Vou começar
um regime. Severo, mas democrático. Se cada gordo que me lê (tem gordo
aí entre os leitores, tem? Vai daqui um abraço) fizer a mesma coisa, a
médio prazo a fome no Brasil já era. O mínimo que eu ganho é o dedo dos
vizinhos me apontando na rua e dizendo:
— Lá vai ele: magro como a Justiça.
Pois não vá agora o amigo achar que a Justiça, até ela, anda roubando da marmita do trabalhador.
* * *
Mas
péra aí: magro? Eu tenho mesmo que ficar magro? A minha gordura é do
mal, ou me induz ao mal? É ela que me faz criar famélicos? Vejamos.
O
assunto talvez já tenha amornado – ou, como dizem em Portugal,
arrefecido –, mas é recente a grita em torno desse negócio woke de
andarem reescrevendo os livros de Roald Dahl, que escreveu A fantástica
fábrica de chocolate. Se o amigo viu o filme (é claro que viu), lembra
que o autor tinha o hábito de fazer rir caçoando de pessoas feias,
pessoas velhas e doentes, pessoas de peruca, pessoas com dentaduras,
pessoas narigudas, pessoas esqueléticas, pessoas gordas. Acontece que,
como dizem as reescrituras, não tem problema ser feio, ser velho e
doente, usar peruca ou dentadura, ter narigão ou ser esquelético ou
gordo: problema mesmo é querer fazer graça com isso.
Bem,
se não tem problema ser gordo – e quem o diz é o mundo woke, muito
acatado na formulação das políticas públicas do novo governo velho –,
então eu talvez não seja o culpado pela fome do país. Então eu talvez
esteja sendo injustiçado. Então eu talvez esteja sendo alvo de
preconceito. Então eu talvez esteja sendo alvo de, oh, meu Deus,
gordofobia.
Eis
aí a sinuca de bico. Quem tem razão: o mundo woke ou o senhor
presidente? E eu sou o que: uma minoria ou um monstro? Sou digno de
compreensão ou de bronca? Nem eu mesmo sei.
Por
vias das dúvidas, adeus regime: vou continuar gordo e rapinando o rango
dos desfavorecidos. E, da próxima vez que o senhor Presidente me acusar
de cavaleiro do apocalipse, zás: vou cancelá-lo. Ou melhor:
reescrevê-lo. Ao melhor estilo woke.
Postado há 6 days ago por Orlando Tambosi

Nenhum comentário:
Postar um comentário