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A questão não é escolher entre a reforma econômica e a política. É ter coragem para fazer as duas ao mesmo tempo. Sem isso, cedo ou tarde vamos para o buraco. Artigo do professor Bolívar Lamounier para o Estadão:
Nem
uma criança de dez anos imagina que um avião, quando cai, se divide em
duas partes, a dos pobres esborrachando-se no chão e a dos ricos
seguindo normalmente o voo.
Nos
céus, a hipótese é delirantemente fantasiosa. Na terra, nem tanto. Já
aconteceu, e aqui mesmo, entre nós. A indústria brasileira chegou a
representar 27% do Produto Interno Bruto (PIB). Caiu para 11%, metade da
primeira classe. Hoje, o que a sustenta, e o resto da aeronave, é a
outra metade da primeira classe, principalmente a exportação de
commodities, e queira Deus que o crescimento da China se mantenha.
A
queda da indústria no PIB deveu-se em sua maior parte ao chamado “custo
Brasil”, que talvez devesse ser rebatizado “custo Brasília”, à força da
competição internacional, mas talvez em sua maior parte ao próprio
empresariado industrial, que desde os tempos getulistas pretendeu
assistir ao filme pagando meia-entrada, como se fosse estudante.
Quebraram todos. Quebrou a indústria. Quebrou o governo. E quebraram os
cinemas – essa talvez a pior perda.
No
fundo, tudo se resume ao fato de o País não ter uma elite digna do
nome. Desde o final do século 19, o mundo tem vivido duas situações. Ou
tem uma elite bem caracterizada, mas que em certos momentos se comporta
como um bando de jumentos, ou não a tem e passa a depender de um só
líder. Na Alemanha, nas três primeiras décadas que precederam a 1.ª
Guerra Mundial, ocorreram as duas coisas ao mesmo tempo. Havia uma
cabeça capaz de pensar, a do primeiro-ministro Otto von Bismarck. Não
por acaso, o Kaiser o demitiu em 1890. Em todos os outros países
predominava a outra situação. Havia elites, e todas queriam a guerra
contra os demais, com fins expansionistas. Foram, e aprenderam a lição:
20 milhões de mortos em combate mais 21 milhões de vítimas da gripe
espanhola, consequência direta da guerra.
Reduzidas
as proporções – porque nossa briga é de cachorro pequeno –, uma
situação análoga veio à tona em 1944, no debate entre Roberto Simonsen e
Eugênio Gudin, e ecoava o emergente profetismo de Celso Furtado, que
pregava a industrialização de qualquer jeito, pela substituição de
importações, tendo como trunfo, nos anos seguintes, o abundante
contingente de “paus-de-arara” que começou a vir do Nordeste e os parcos
recursos que o Estado arrancava da sociedade e transferia aos
industriais-estudantes. Na posição contrária, estava o economista
Eugênio Gudin, que advogava um crescimento industrial balanceado entre
indústria e agricultura. Recorde-se que, àquela altura, os pregoeiros da
industrialização a qualquer preço viam a agropecuária como um zero à
esquerda, desinformados de que a revolução pecuária já estava em marcha,
deflagrada pelos fazendeiros de Uberaba, que haviam viajado à Índia
para trazer os primeiros espécimes das raças zebuínas.
O
problema, pois, como se vê, é que o Brasil nunca teve e não tem uma
elite que se possa levar a sério. Permito-me recordar-lhes que elite não
é uma casta com ares aristocráticos nem um grupo de bilionários sem
vocação empresarial, que só pensa em conhecer todos os recantos do
mundo. Não temos uma elite e temos, logo ali, espreitando-nos, um baita
dilema. De um lado, a velha forma de crescer com recursos supridos por
um Estado falido, fórmula perempta, mas que continua a contar com apoio
político. Do outro, nosso longamente esperado “estalo de Vieira”: uma
economia mais aberta, investimentos estrangeiros para um setor privado
dinâmico, uma revolução tecnológica (como a que Estados Unidos e Japão
fizeram cada um nas três últimas décadas do século 19) e uma revolução
política que liquide de vez a cabeça patrimonialista de nossa máquina de
Estado.
O
que acima foi dito leva à inevitável conclusão de que os 50% de
miseráveis que vivem da mão para a boca nada podem ser responsabilizados
por nenhuma ocorrida no céu ou na terra, no passado ou no futuro, com
ou sem vítimas mortais. Aqui, estamos falando de um grupo que ganhou
numa Mega Sena invertida, aquele que vive em favelas, nas periferias,
debaixo de viadutos – ou na rua mesmo, quando até nas favelas lhe faltam
vagas. Volta e meia me perguntam: “Mas não foi ela que elegeu os que
mandam no País?”. É claro que foi. É a lei da oferta e da procura. Votou
(com o voto obrigatório) no que lhe foi ofertado.
Queira
Deus que Lula, que de Getúlio já herdou o figurino de “pai dos pobres”,
não queira também herdar o de profeta da industrialização com recursos
públicos inexistentes. Ou melhor, recursos existentes, mas que estão
ferreamente guardados nos colchões da multidão de picaretas
corporativistas e numa infinidade de patifarias insculpidas na
Constituição e nas leis estaduais e municipais. A questão não é escolher
entre as duas reformas acima alinhavadas, a econômica e a política. É
ter coragem para fazer as duas ao mesmo tempo. Sem isso, esteja o leitor
certo de que cedo ou tarde vamos para o buraco, no céu ou na terra, e
qualquer que seja a nossa classe.
Postado há 6 days ago por Orlando Tambosi
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