BLOG ORLANDO TAMBOSI
Ela não é uma escritora reconfortante para quem se ocupa das questões políticas (e não literárias) da discriminação e do preconceito. Como garantir que não será cancelada amanhã ou depois? Carlos Graieb para a revista Crusoé:
É
realmente um escândalo que passagens preocupantes da obra ficcional de
Clarice Lispector (1920-1977) ainda não tenham sido expurgadas. Estive
dando uma olhada em seus contos e há uma grande quantidade de trechos
que põem em destaque características físicas dos personagens. É
impossível ficar indiferente diante dos riscos que isso traz a leitoras e
leitores: as passagens podem mexer com inseguranças ou lembrar
experiências dolorosas, disparando gatilhos de pânico e infelicidade.
Dou alguns exemplos.
O
conto Tentação, do livro A Legião Estrangeira, precisa ser eliminado
inteiramente de futuras edições. Diz respeito a uma menina ruiva. A
narradora a observa no cúmulo da infelicidade: ruiva, sentada numa
escada sob o sol a pino e ainda por cima com soluço. Aparece um cão
basset e a menina imediatamente se identifica com ele: “Os pelos de
ambos eram curtos, vermelhos.” A narradora sente que a menina deseja ter
o cachorro desesperadamente (e o cachorro, parece, também deseja ser
dela!). Mas o instante passa e o basset vai embora com sua dona. O conto
ressalta a solidão e o isolamento de crianças que têm um traço incomum,
como os cabelos ruivos, sem oferecer nenhum consolo (exceto a menção a
um futuro – incerto – em que a menina poderia erguer altivamente sua
cabeça de mulher). Não é possível fazer uma intervenção discreta nesse
texto. Ele se resolve em duas páginas. Não tem salvação.
No
mesmo livro há o conto Os Desastres de Sofia. Ele tem dois personagens,
uma menina e seu professor. Esse é descrito logo no começo: “gordo,
grande e silencioso, de ombros contraídos”. Mais tarde ficamos sabendo
que ele é feio quando sorri. Instintivamente, a menina associa as
características físicas – especialmente os ombros contraídos – a alguma
fraqueza moral. E por isso o homem a irrita, ao mesmo tempo que ela quer
salvá-lo. Será que essa ênfase toda na gordura, nos ombros e no sorriso
feio é necessária? Esse é um conto mais longo e complexo. Sem dúvida
seria possível melhorá-lo cortando esses detalhes que estigmatizam um
certo tipo de corpo.
Não
vou comentar longamente o conto O Corpo, de um dos últimos livros de
Lispector, mas observo que a gordura de uma personagem é novamente posta
em evidência. Trata-se de um trisal: um homem e duas mulheres que vivem
juntos. Carmem, a mulher mais velha, é “gorda e enxundiosa”. O uso de
uma palavra tão incomum quanto “enxundiosa”, que indica ao mesmo tempo
obsesidade e oleosidade, põe o corpo de Carmem ainda mais em destaque,
sob uma luz desagradável. Precisava mesmo? De jeito nenhum. No final da
história, Carmem e Beatriz se unem para dar cabo do homem que as
oprimia. Num conto com um final tão satisfatório, a descrição física das
mulheres, mais do que secundária, é desnecessária. Faz todo sentido
cortá-la.
Há
muitos outros exemplos que poderiam ser citados, mas esses já são
suficientes. É preciso submeter a obra de Clarice Lispector a uma
limpeza, para que ela possa cumprir sua função verdadeira: tornar seus
leitores e leitoras pessoas melhores, aptas a ver o mundo não como ele
é, mas como precisa ser.
********
Será que tenho de explicar que o texto acima é 100% irônico?
Não, eu não quero livrar a obra de Clarice Lispector de passagens “incômodas”.
Quero
sugerir que interpretações estúpidas e censórias podem recair sobre
qualquer texto, inclusive sobre aqueles considerados sagrados pelos
leitores “virtuosos” de hoje – leitores que não se contentam mais em
discutir o contexto em que as obras do passado foram escritas,
preferindo purgá-las dos seus supostos pecados ou, simplesmente,
bani-las.
Escolhi
Clarice por dois motivos: primeiro, porque ela é adorada pela crítica
feminista e queer; em segundo lugar, porque ela seria uma escritora
muito pior se não prestasse tanta atenção ao corpo de seus personagens.
Clarice,
no entanto, não escreve para tranquilizar as pessoas sobre suas rugas
ou sua gordura. Nem para dizer que todos os corpos são belos ou coisa
que o valha. Não é, em absoluto, uma escritora reconfortante para quem
se ocupa das questões políticas (e não literárias) da discriminação e do
preconceito. As recompensas de sua obra são outras.
Nos
contos e romances de Clarice Lispector, o corpo com frequência é um
problema, um enigma, o ponto de partida para as mais perturbadoras
vertigens existenciais (assim como a célebre gosma da barata que a
protagonista de A Paixão Segundo G.H. engole).
Entro
nesse assunto da censura e eventual cancelamento de escritores (com
algum atraso) por causa da história de Roald Dahl (1916-1990), autor
inglês de literatura infantil cujos livros estão sendo relançados sem
palavras como “gordo” e “feio”, que ele usava despreocupadamente para
descrever seus personagens. E agora também estão reescrevendo os livros
do 007, pela mesma razão. Parece que Ian Fleming, o criador do
superespião, era preconceituoso quando falava de minorias.
Nunca
li Ian Fleming, mas imagino como vão “consertar” um livro como Os
Pestes (Editora 34), que li com meus filhos alguns anos atrás. O Sr.
Peste é “um velho horroroso e fedorento”. A Sra. Peste, idem. A
diferença é que ela não tem a cara peluda. “O que era uma pena”, escreve
Dahl, “porque se tivesse, os pelos esconderiam um pouco a feiura dela.”
Como costumava acontecer nos livros infantis desde a época dos irmãos
Grimm, no século 18, a feiura do Sr. e da Sra. Peste vem de mãos dadas
com a malvadeza. Traços físicos e morais se confundem.
A
medida dos editores de Roald Dahl é preventiva. Eles se antecipam a uma
campanha de cancelamento que poderia estourar a qualquer momento. Com
isso, fazem um escritor bastante endiabrado do século 20 soar como um
autor bonzinho dos dias de hoje. As crianças que o lerem serão levadas a
crer que o mundo sempre foi igual. Não podem saber que no passado as
coisas eram diferentes – e talvez, em alguns aspectos, tenham até
melhorado.
Desde
os anos 1970 há quem aponte o racismo ou o sexismo de Roald Dahl. Nada
semelhante jamais aconteceu com Clarice Lispector. Mas nunca se sabe.
Cheias de fúria justiceira, as revoluções têm o hábito de se voltar
contra seus próprios ídolos. E quem vai garantir que amanhã ou depois,
em alguma sala de aula repleta de indignação em nome das minorias, um
conto como Tentação não vá ser mesmo considerado insensível para com os
ruivos deste mundo? Como garantir que Clarice jamais será excomungada em
nome da delicadeza?
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

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