BLOG ORLANDO TAMBOSI
O programa da primeira-dama foi batizado de "Papo de Respeito" e, pelo menos na edição de estreia, teve como tema a violência contra a mulher — que esquerdistas insistem em chamar de "pessoa que menstrua". Gabriel de Arruda Castro para a Gazeta do Povo:
A
primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, estreou como
apresentadora de TV nesta semana. Por TV, entenda-se o canal da TV
BrasilGov no YouTube.
Janja
pode dizer, com razão, que sua participação não fere a lei porque a TV
Brasil e a TVBrasil Gov não são a mesma coisa, embora pareça.
A
TV Brasil é uma emissora pública com um perfil mais amplo e inspirada
na BBC britânica. Pelo menos no papel, ela desfruta um certo grau de
independência, mantém uma programação variada e não se limita a
reproduzir o que dizem as autoridades. Já a TV BrasilGov é uma versão
repaginada da antiga NBR, o canal de TV cuja única missão era divulgar
as ações do governo federal.
Em
2019, a gestão de Jair Bolsonaro extinguiu o canal de televisão da NBR,
que passou a simplesmente reproduzir a programação da TV Brasil. Mas a
equipe da antiga unidade, agora chamada de TV BrasilGov, continuou
produzindo conteúdo para a internet. O canal do YouTube, por exemplo,
tem 1,4 milhão de inscritos, embora a maior parte dos vídeos não chegue a
1.000 visualizações. Foi lá que Janja fez sua estreia como
apresentadora (e somou cerca de 2.500 visualizações nos três primeiros
dias).
O
programa da primeira-dama foi batizado de "Papo de Respeito" e, pelo
menos na edição de estreia, teve como tema a violência contra a mulher —
que esquerdistas insistem em chamar de "pessoa que menstrua".
Janja
começou com o pé esquerdo. Quando a transmissão teve início, era
possível ouvir a voz de uma pessoa (a diretora, presume-se) dizendo
"Vamos mudar aqui um pouquinho". Sem saber que já está ao vivo, Janja
pergunta: “Não deu certo?”'. Em seguida, ela parece ter recebido o OK
para dar início ao programa e começa a ler a sua fala de abertura. Mas
não se pode ouvir nada por mais de 30 segundos. Simplesmente não há
áudio. Quando o som volta, a primeira-dama já havia apresentado suas
convidadas: a ministra da Mulher, Cida Gonçalves, e a influenciadora
digital Lua Xavier.
"Sejam bem-vindas ao Papo de Respeito", diz Janja, que anuncia a própria falta de experiência:
"A
Lua vai me ajudar aqui bastante porque eu sou muito nova nessa coisa de
live, de blogueirinha". A primeira-dama tenta exibir algum carisma. De
início gagueja e abusa dos anacolutos. Depois, parece mais à vontade,
embora raramente olhe para a câmera.
Nota 5 em desenvoltura. Nota 4 no conteúdo.
Dados distorcidos
Faz
sentido que o governo queira divulgar os canais de denúncia de
violência contra a mulher e orientar as vítimas a procurar apoio. A
importância do assunto é inegável. Mas, ao longo do debate, Janja e suas
convidadas distorceram informações e recorreram a chavões ideológicos.
Janja
começa citando um “aumento muito grande” no número de feminicídios no
Brasil em anos recentes. Mas, segundo as estatísticas citadas por ela,
entre 2018 e 2021, a elevação média foi de aproximadamente 3% ao ano —
desconsiderando o crescimento populacional. Sem dados para fundamentar
sua fala, ela também vê uma relação direta entre a elevação no número de
armas legais e o crescimento no número de feminicídios e a elevação no
porte de arma no Brasil. "São 2 milhões de portes de arma autorizados",
ela explica. Mas Janja parece confundir posse (o direito de adquirir uma
arma) com o porte (a autorização para circular com a arma fora de
casa), que é bem mais raro. Para obter o porte, é preciso fazer um
requerimento à Polícia Federal demonstrando “a sua efetiva necessidade
por exercício de atividade profissional de risco ou de ameaça à sua
integridade física.”
Além
de errar nos números, Janja errou na análise da correlação. Os dados
gerais de homicídios mostram um que, desde que o PT deixou o governo, as
mortes violentas diminuíram significativamente, embora a quantidade de
armas legais tenha aumentado. Além disso, a aplicação da lei do
feminicídio é tida como ambígua, já que a legislação é recente (entrou
em vigor em 2015) e tem uma aplicação relativamente nebulosa (O que é “
menosprezo ou discriminação à condição de mulher”?). Na verdade, o
número de mulheres assassinadas (não apenas os casos de feminicídio)
teve uma queda significativa entre 2017 e 2019, e se manteve
praticamente estável desde então, em torno das 3.900 mortes anuais.
Sequência de gafes
Em
outro momento, o debate tem uma pausa para que as convidadas possam
assistir ao vídeo de uma mulher entrevistada fora do estúdio. Quando a
transmissão retorna, Janja não percebe: está acompanhada por uma pessoa
não-identificada — talvez uma produtora — que lhe fala ao pé do ouvido e
lhe mostra algo em um pedaço de papel. É o comentário de uma
internauta, que ela lerá em seguida. Distraída, Janja não retoma a
palavra. Lua é quem se encarrega de não deixar a conversa morrer.
Depois,
Janja volta ao eixo. O debate tem tudo o que se espera das personagens.
Elas falam em "maiorias minorizadas" e “situação de vulnerabilidade".
Janja sai-se com um “A nível de política pública.” Lua acha relevante
dizer que é “sacerdotisa de umbanda.” Janja lança outra generalização
difícil de comprovar: “"Hoje infelizmente, os homens não estão se
contentando em matar as mulheres. Eles estão matando os filhos também.”
Mais à vontade, ela aproveita a oportunidade para cancelar Mazzaropi.
A
primeira-dama conta que estava em casa, ("com o meu marido"),
assistindo a um filme antigo na TV Brasil. Pela descrição, ela se
referia a dos filmes de Amácio Mazzaropi, que são rotineiramente
exibidos pela emissora. Janja diz que não aguentou quando um personagem
destratou a mulher ao dizer algo como: "Fica quieta, você é burra, você
só serve para lavar a louça". Naquele dia, e talvez para sempre, o
presidente Lula perdeu o direito de rir das piadas do protagonista de
Jeca Tatu. "Eu virei para o meu marido, que no caso é o presidente Lula,
né?, e eu falei para ele: vamos trocar de canal?", conta Janja.
Nota 3 em sensibilidade artística.
Ministra fala palavrão
Nota
igualmente baixa merece o desempenho da ministra Cida, que aniquilou
meia-dúzia de plurais (como em "essas questões pública") e causou
confusão na apresentadora quando afirmou que “A violência contra as
mulheres e contra as crianças são autorizadas." Janja se assustou: “Como
assim, Cida?”. A ministra explicou: "É porque assim, Janja. O fato de
eu como cidadão, vizinho, amigo não fazer nada, eu autorizo.” OK.
Ainda
mais constrangedor foi o momento em que a ministra resolveu lançar um
palavrão. Ao comentar que as vítimas da violência doméstica são
estigmatizadas, ela afirmou que “Aí vão dizer que ela é p...". Silêncio
por alguns segundos. Janja diz: "É difícil, gente. É pesado".
Talvez
seja uma boa deixa para encerrar o bate-papo, depois de mais de uma
hora de conversa. “Um beijo grande, gente, boa noite”, diz a
primeira-dama. Palmas tímidas da plateia que até então não se sabia que
existia.
Mas
antes de ir embora, Janja tem um recado: “Esse Papo de Respeito, ele
vai voltar com outros temas. A gente vai ter sempre esse diálogo com
ministros, com pessoas que discutem isso na sociedade”.
É
possível que, além do YouTube, o programa de Janja também passe a ser
exibido na TV: o presidente Lula prometeu ressuscitar o canal aberto da
NBR. Seria lugar a mais para a primeira-dama e seu talk show não terem
audiência.
Postado há 1 week ago por Orlando Tambosi

Nenhum comentário:
Postar um comentário