É sempre difícil julgar o extremismo a priori, mas a história da última década mostra como um radical no discurso não é o mesmo radical no governo. João Diogo Barbosa para o Observador:
A
eleição de Liz Truss teve a vantagem de acalmar por uns meses os
problemas de continuidade de governo no Reino Unido. O processo
eleitoral que a escolheu foi longo, complexo e dificilmente terá
contribuído para melhorar as perspectivas do partido que governa há 12
anos e chega ao quarto Primeiro-Ministro nesse período.
A
instabilidade dos conservadores no Reino Unido, mesmo sem uma oposição
competitiva, complicou a situação política do país de formas
inesperadas. Votar em David Cameron não podia ser o mesmo que votar em
Theresa May, que esteve sempre a uma distância razoável de Boris
Johnson, que por sua vez pode ser descrito como o tipo de político que
foi eleito para se opor ao liberalismo de alguém como Liz Truss.
Nesses
anos de governo, quase tudo aconteceu ao partido, de uma coligação aos
referendos à independência da Escócia e à permanência na União Europeia,
para além da pandemia e o regresso da inflação. Entre as mudanças de
líder e a gestão de emergências, o legado dos Conservadores nesta era
inclui necessariamente um crescimento económico anémico, problemas na
evolução da produtividade e do rendimento disponível. Juntamente com o
declínio demográfico, é um quadro de problemas tipicamente europeu,
mesmo entre países com histórias políticas mais desinteressantes.
A
combinação entre turbulência política e estagnação económica que
perseguirá Truss como aos seus antecessores é menos comum, mas não é
inédita no continente. Na verdade, a sucessão de primeiros-ministros e a
alteração na composição dos governos tornou habitual a comparação entre
o Reino Unido e a Itália, onde os mesmos doze anos viram passar sete
primeiros-ministros.
No
final do mês, Itália terá eleições legislativas, mas não
necessariamente um novo primeiro-ministro, uma vez que as eleições têm
servido mais para alterar a composição parlamentar do que para escolher
um governo – daqueles sete primeiros-ministros, só um, Berlusconi,
comandou uma vitória eleitoral antes de ser nomeado para o cargo. Ao
contrário do Reino Unido, o problema italiano é a ausência de uma
maioria política que possa dar origem a uma oposição eficaz.
Daí
que as próximas eleições mereçam mais atenção do que têm recebido.
Depois do governo praticamente unânime de Mario Draghi, a campanha para o
substituir trouxe blocos estratégicos e alianças táticas, com a
possibilidade de uma maioria de direita como o grande ponto de
interesse.
De
acordo com as sondagens, o partido Irmãos de Itália, liderado por
Giorgia Meloni, disputa o primeiro lugar com o Partido Democrático de
Enrico Letta, que foi já primeiro-ministro durante nove meses, entre
2013 e 2014.
A
principal vantagem comparativa de Meloni parece ser a aliança de
direita com Salvini e Berlusconi, dificilmente replicável à esquerda.
Essa aliança, aliás, ilustra as principais dinâmicas políticas
italianas. Desde logo, a instabilidade das intenções de voto: a Liga de
Salvini parecia destinada a governar, mas o apoio ao governo de Draghi
penalizou-a em favor da sua alternativa à direita. Por outro lado, a
política italiana deslocou-se para os extremos: o governo institucional
de Mario Draghi tinha como principais suportes a Liga de Salvini e o
Movimento 5 Estrelas de Giuseppe Conte, cuja proeminência política vinha
da proposta populista e da oposição aos partidos tradicionais; Giorgia
Meloni fez a sua carreira nos movimentos que reclamavam a herança de
Mussolini e os Irmãos de Itália são ainda hoje uma amálgama desses
ativistas com os órfãos da direita tradicional que desapareceu com a
primeira reforma de Berlusconi.
A
possibilidade de os herdeiros de Mussolini governarem a terceira
economia da União Europeia justifica a preocupação. No entanto, tal como
no Reino Unido, o radicalismo cultural, simbólico e retórico pode não
implicar um radicalismo de governo, pelo menos não no sentido de tornar
plausível o regresso do totalitarismo. Meloni, aparentemente fã de
separar a obra do artista, assegura que o apreço juvenil por Mussolini
não é um apreço pelo fascismo e a sua campanha tem sido passada a
separar-se das opiniões tradicionalmente mais lesivas da
extrema-direita, comprometendo-se com o apoio à NATO e à Ucrânia e
discordando da União Europeia sobretudo na melhor forma de aplicar os
fundos comunitários.
Meloni
está incomparavelmente à direita de Truss e Itália tem problemas bem
mais profundos e prolongados do que os do Reino Unido. É sempre difícil
julgar o extremismo a priori, mas a história da última década mostra
como um radical no discurso não é o mesmo radical no governo. Truss
poderá baixar ou evitar subir os impostos sem quebrar relações com a
União Europeia e um governo Meloni poderá continuar a dificultar a vida
aos imigrantes sem avançar para um neofascismo. Parece mais difícil que
qualquer uma possa trazer estabilidade política e resolver os problemas
estruturais das suas economias. A História repete-se.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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