Simplesmente era bom saber que a rainha Elzabeth estava no mundo. Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:
Estou
sentado na poltrona, olhando para a tela do computador e me perguntando
se seria muita cara-de-pau de minha parte escrever mais uma daquelas
crônicas clichezentas sobre não ter assunto. Claro que eu daria um jeito
de disfarçar e tal. Mas mesmo assim. Eis que estou prestes a cometer
este desatino, pois, quando recebo a notícia da morte da rainha
Elizabeth II. “Parece que morreu minha avó”, digo. Mas não tem ninguém
por perto para ouvir.
“Recebo
a notícia” é modo de dizer. Fica parecendo que sou importante e que
tenho linha-direta com o palácio de Buckingham. Meus sentimentos,
Charles. Ou melhor, Charlinho. Mas não quero soar desrespeitoso aqui.
Este é meu jeito de lidar com a morte. Costumo dizer que eu mesmo,
quando pendurar a pena e o mata-borrão, encontrarei uma forma assim
celestial de zombar dessa angústia que nos irmana: a de que todos um dia
vamos morrer.
Voltando
ao assunto de não ter assunto no dia em que morre a rainha Elizabeth
II, a monarca legítima ou afetiva de meio-mundo, é angustiante não ter
assunto, ainda mais estando rodeado por um Assunto e vários assuntinhos
que se perderão. É, eu sei o que você está se perguntando e a resposta é
sim, a frase anterior provavelmente bateu o recorde de “assuntos” numa
única frase para falar sobre a angústia de não ter assunto. É um dom.
Se
bem que eu estava refletindo aqui e talvez não seja de bom tom dizer
que Elizabeth II foi a monarca afetiva de meio-mundo – eu aí nesse meio.
Porque sempre vai ter algum desgraçado para falar em imperialismo
britânico e outras coisas que não se fala numa hora dessas. Agora mesmo
vi um desses xingando a rainha de algo que não vou reproduzir aqui. Como
é que pode, né?
Nessas
horas só consigo pensar que morreu um ser humano. No caso, uma pessoa
querida por milhões. Uma senhorinha de aparência voternal (parece que a
palavra correta serial “avoengal”, mas não rola, né?). Uma personalidade
pela qual muitos (novamente eu entre eles) nutriam um afeto que não
tinha nada a ver com política. Sei lá. Era simplesmente bom saber que a
rainha Elizabeth II estava no mundo.
Então,
paciência. Vai ficar sendo, sim, a monarca afetiva de incontáveis
pseudossúditos (culpe a reforma ortográfica por essa feiura) que viam na
rainha da Inglaterra mais do que uma agradável figura decorativa. Como
mostra a série “The Crown” (e eu não tenho motivo algum para não
acreditar que tudo ali é a mais pura verdade), Elizabeth II entendia o
fardo existencial que era usar aquela coroa. No século que viu a
consagração do narcisismo como estilo de vida, saber-se menos indivíduo
do que rainha, e agir de acordo, é um feito digno da mais sincera
admiração. Tanto pelo indivíduo quanto pela rainha – ainda que fictícia.
Mas,
como eu dizia antes de ser interrompido por um assunto de suma
importância, às vezes é angustiante ficar sem assunto. Mas sabe que às
vezes também é bom? Nesses dias, meus pensamentos percorrem os
labirintos mais remotos do meu cérebro, à cata de qualquer coisinha que
possa servir de assunto. Nesse processo, não raro esbarro em memórias
que julgava há muito perdidas. Mas o que é que isso tem a ver com a
morte da rainha mesmo?
Só
sei que hoje, no dia em que eu estava sem assunto, morreu a rainha
Elizabeth II. Um cronista mais detalhista diria que faz calor e sol no
inverno curitibano. Um mais chegado ao lado prosaico da vida falaria do
feijão salgado demais. Um mais inclinado ao humor de gosto duvidoso
diria que agora quem assume é o Ray Charles. E um mais dado à poesia se
teletransportaria agora mesmo para Londres, a fim de declamar os belos
versos de Auden (aqueles mesmos de “Quatro Casamentos e Um Funeral”) e,
assim, encerrar em alto estilo este texto em homenagem a Elizabeth II, a
Betinha:
Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás*.
* Funeral Blues, na tradução de Nelson Ascher
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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