BLOG ORLANDO TAMBOSI
Viver
muito, viver bem e viver com a boca calada, pairando acima das
circunstâncias passageiras da política, deram à rainha que se foi um
lugar único. Vilma Gryzinski:
Rei
Charles e rainha Camilla. Esta é a realidade com a qual terão que se
acostumar 67 milhões de britânicos – e todo o resto da humanidade que
acompanha a novela da família real, na vida ou na Netflix. Quem diz que
não acompanha está sendo flexível com a verdade.
Mais
de 80% das pessoas vivas hoje no planeta nasceram depois que Elizabeth
II se tornou rainha, com apenas 25 anos, por causa da morte prematura do
pai, levado pelo câncer de pulmão.
Reis
e rainhas são arquétipos muito entranhados na cultura humana e poucos
podem ter correspondido tanto a essa imagem primal, de alguém com
virtudes únicas, quanto ela. Isso ajuda a explicar por que tanta gente
tinha estima e simpatia pela rainha. Ela ficou entre nós tempo
suficiente para se consolidar como um ícone, a imagem da tão única
monarquia britânica cujos integrantes, nem sempre brilhantes o
suficiente para entender isso, podem ler as peças de Shakespeare sobre
reis como parte da história da família.
Ao
contrário de sua xará e antecessora, Elizabeth I que começou a reinar
quando o Brasil tinha apenas 33 anos de descobrimento, a rainha que se
foi não tinha poder nenhum, exceto pela aura imaterial da tradição
herdada e do respeito conquistado.
Mas
em seu nome a nação inteira cantava God Save the Queen – um hino que
glorifica o monarca, não o país -, o Exército, a Marinha e a Força Aérea
iam à guerra (poucas vezes nos setenta anos de reinado, uma delas
quando outra mulher, Margaret Thatcher, mandou-os retomar as Ilhas
Malvinas), os correios entregavam cartas, os governantes – e a oposição
também – pediam licença para fazer o que tinham prometido ao eleitorado.
Como
nunca prometeu nada, exceto dedicar-se inteiramente à missão para a
qual foi ungida, o que fez de maneira exemplar, Elizabeth II nunca caiu
no mundo vulgar da política nem sofreu o desgaste natural que ele
provoca.
Sofreu
em silêncio quando, em nome do corte de gastos, perdeu o Britannia, o
iate no qual singrava o mundo num microcosmo perfeitamente isolado e
protegido. Um microfone indiscreto numa Garden Party, a recepção ao ar
livre, frequentemente chuvosa, em que os reais se misturam
com
os civis, capturou quando ela mostrou simpatia por uma policial que
havia participado do esquema de segurança da visita do líder chinês Xi
Jinping. “Eles foram muito rudes”, disse Elizabeth, numa raríssima
indiscrição. Como foi extraoficial, todo muito fez que não viu.
Fingir
que estava vendo e sorrir da maneira mais neutra possível foi uma
técnica aperfeiçoada por Elizabeth ao longo de sete décadas.
Presidentes, primeiros-ministros, príncipes árabes, ditadores e outros
bichos perigosos, cuja boa vontade interessava ao reino cultivar, eram
impecavelmente
recebidos.
Um biógrafo da rainha contou que ela não tinha surpresa nenhuma, pois
absolutamente todos falavam a mesma coisa: as maravilhas que estavam
fazendo por seus países.
Elizabeth
viveu para receber a décima-quinta pessoa a fazer o “beija-mão”: o
chefe, ou a chefe, de governo escolhido pelo partido no poder, ou em
eleição popular. Quem manda é o voto, mas pedir a autorização do monarca
faz parte do ritual. O primeiro da lista foi Winston Churchill –
imaginem só. Reticente em relação a uma monarca tão jovem, o mitológico
primeiro-ministro acabou desenvolvendo um laço de amizade – e, dizem,
até ficou um pouco caído pela rainha de cinturinha fina e voz de menina.
Desenvolveu uma “quase idolatria” por ela, descreveu um observador
privilegiado.
Quando
Elizabeth comemorou os setenta anos de reinado, um feito sem
precedentes, o palácio pediu discretamente que as homenagens não
derivassem, justamente, para a idolatria.
Foi
difícil. A “nossa rainha”, como tantos britânicos acostumaram-se a
dizer com orgulho, já tinha virado ídolo. Inclusive para os fashionistas
que babavam com a “roupa de trabalho” que ela consolidou e transformou
em marca registada, ou brand, como aprenderam a dizer: um casaco de cor
bem vistosa – chegou ao verde neon – para ser vista por todo mundo,
chapéu combinando, luvas, mocassim com saltinho feito sob medida por
Davide & Agnello e bolsa da marca Launer.
Tudo arrematado por um broche de sua formidável coleção.
A
rainha gostava de joias, embora não tivesse pendor para a ostentação
(quem tinha era sua mãe, também Elizabeth, que segundo um biógrafo
adorava o status real, uma característica de “mulher pobre que casa com
homem rico”). Gostou tanto do conjunto de águas marinhas brasileiras
encomendado por Assis Chateaubriand que mandou fazer uma tiara com as
mesmas pedras.
Uma
pesquisa do começo do ano deu que 82% dos britânicos acham que ela
cumpriu muito bem ou bastante bem seu papel. Elizabeth viveu muito e
bem, não só no sentido do luxo que a cercava, mas do cumprimento de um
papel que não escolheu, mas assumiu de corpo e alma.
Agora,
é o rei Charles, o filho a quem deu um presente final ao manifestar que
a mulher que escolheu, e pela qual trocou, inexplicavelmente para a
maioria das pessoas, a princesa Diana, deveria ser chamada de rainha.
Sempre foi assim e assim continuará a ser ninguém sabe até quando.
Missão
cumprida é como os militares costumavam se despedir de companheiros que
partiam desse mundo. É com esse reconhecimento praticamente unânime,
até dos antimonarquistas, que se encerraram os 96 anos de uma mulher
bastante comum, sem ares de grandeza, que levou uma vida quase
incomparavelmente incomum.
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