Ainda conheci, nos anos 80, comunistas que negavam penosamente a existência do pacto germano-soviético (um deles fechava a mulher em casa à chave para não o trair, já agora). Crônica do professor Paulo Tunhas para o Observador:
Com
a quantidade de maluquinhos que há por aí, não é certamente de excluir
que um magneto (uma daquelas coisas que, por motivos decorativos ou
outros, se aplicam às portas dos frigoríficos) com a letra Z, símbolo da
invasão russa da Ucrânia, pudesse estar disponível numa banca de
qualquer encontro partidário. Seria estranho, mas não impossível. Como
dizia Aristóteles, referindo-se à tragédia, é verosímil que as coisas se
passem por vezes contrariamente à verosimilhança. Acontece que foi na
Festa do Avante que o objecto foi descoberto por José Pacheco Pereira,
que, com louvável diligência de arquivista, o recolheu para a colecção
da associação “Ephemera”. O PC, quando a coisa veio a público,
apressou-se a declarar que a organização nada tinha a ver com o tal
magneto e que ele ali fora depositado por um “visitante”.
Admitamos,
com boa fé, que sim. Por várias óbvias razões, acho muito provável que a
organização não tivesse qualquer responsabilidade directa na presença
do magneto. Há coisas que não podem ser explícitas. Não convém andar com
torpezas demasiado volumosas às costas. Custa muito. Ainda conheci, nos
anos 80, comunistas que negavam penosamente a existência do pacto
germano-soviético (um deles fechava a mulher em casa à chave para não o
trair, já agora). Cuidado e encobrimento são reflexos comuns no PC. Dito
isto, é difícil conter a curiosidade sobre a identidade do “visitante” e
porque foi ele “visitar” a Festa. Seria um putinista russo – ou um
agente da CIA apostado em descredibilizar o PCP?
Mas
o meu ponto é outro. O meu ponto é que, somando tudo, é muito menos
inverosímil que o tal magneto tivesse aparecido na Festa do Avante do
que num encontro de qualquer outro partido português. E quais as razões
dessa particular verosimilhança? Vamos ver.
Jerónimo
de Sousa convidou-nos a todos, antes do evento, a vir à Festa com “os
olhos limpos de preconceito”. A que “preconceito” se referia ele? Sem
dúvida àquilo que ele julga ser o preconceito genérico contra o PCP. Mas
também – é impossível pensar de outra maneira – a um “preconceito”
muito mais específico: aquele que consiste em pensar que o PC apoia a
bárbara invasão putinista da Ucrânia. Acontece, no entanto, que se
Jerónimo de Sousa quer pelo menos combater este último “preconceito”, a
estratégia seguida falha em toda a linha. Porque as voltas e voltinhas
todas que o PC dá conduzem inexoravelmente o cidadão comum a
convencer-se que o apoio é mesmo real, por mais truques verbais que o
procurem disfarçar. E a Festa, se alguma coisa, contribuiu para tornar a
convicção ainda mais sólida.
Os
truques, de resto, são simples e costumeiros: a indistinção entre
agressor e agredido; a inversão de relações causais patentes; a
afirmação de um princípio de causalidade única do mal (os Estados
Unidos, que, através da NATO, arrastam a Europa); o salto para um plano
de generalidade protectora (“do lado da paz e contra a guerra”); etc.
Tudo isto, que faz parte do repertório clássico do PC e dos seus
apêndices, já o conhecemos de há muito tempo. Nada mudou. Nada de nada.
Foi
o que Jerónimo de Sousa disse no discurso de encerramento. E foi o que,
por exemplo, Ângelo Alves, membro da comissão política do PCP, também
disse. Face à “crise do capitalismo”, “o imperialismo escolheu a linha
do confronto”. Mas, acrescentou, há razões para optimismo: tudo isso,
continuou em delírio, é sinal do “declínio do capitalismo”. Ofereço uma
viagem a S. Petersburgo – ou Leninegrado, como o PC ainda gosta de lhe
chamar – a quem consiga aqui descobrir que a Rússia invadiu a Ucrânia.
Os debates da Festa, por sua vez, foram exemplares do tal salto para a
generalidade protectora, em versão exclamativa: “Pela paz e
solidariedade, na Europa e no mundo!”; “Quem quer a guerra? A juventude
luta pela paz!”; “Não ao militarismo e à guerra! Por um mundo de paz e
cooperação!”.
Às
vezes pergunto-me quem é que o PC julga que engana com estas coisas. Ou
ainda se quer enganar alguém. Ou até se a distinção entre a mentira e a
verdade faz sentido para aquela gente. Esta última interrogação não é
disparatada, tratando-se de um partido cujo principal herói, Lenine, foi
o inventor do totalitarismo e cujo “Sol da Terra” costumava ser a
defunta U.R.S.S., célebre pelo seu regime de mentira permanente e de
constante encobrimento de tudo – ao ponto de o recentemente desaparecido
Gorbachov, que o PC, de Cunhal aos nossos dias, sempre condenou, ter
tido que adoptar a palavra glasnost, transparência, como símbolo das
suas tentativas de reformas naquele idílico lugar.
Terá,
ao menos, enganado os artistas convidados? Não creio. José Milhazes,
como é sabido, tentou apelar ao sentido de humanidade e de solidariedade
com as vítimas ucranianas da invasão russa, incitando-os a não tocarem
ali. Debalde. Mas foram eles enganados? Não, pura e simplesmente
precisavam do dinheiro e, por mais que andem sempre com os princípios na
boca, dinheirinho é dinheirinho. Pobre dinheiro, é certo. Pobríssimo,
por exemplo, para o horrível e cada vez mais louco Roger Waters, o
ex-Pink Floyd, que pede todos os dias à Ucrânia que se renda e a Israel
que se suicide. Porque é que ele não veio à Festa? Money, como diz a
canção dele. Note-se que não censuro os motivos, eminentemente
compreensíveis, mesmo para os ricos ou riquíssimos. Censuro, se é que a
palavra convém, apenas o pior: é que a inteligência não abunda, como se
pode ver pelas declarações de alguns dos participantes.
Eis
uma pequena selecção da actividade espiritual dos pobres-diabos. O
cantor Vitorino declarou que foi à Festa porque tem “o coração à
esquerda”, embora, sublinhou, a sua posição não seja “coincidente com a
de nenhum partido português”. E logo passou para a indistinção entre
agressor e agredido e para o salto para a generalidade protectora:
“estou profundamente solidário com os povos que estão na guerra”,
“ponho-os muitas vezes ao mesmo nível”. Hesito em comentar – não
comento. Adolfo Luxúria Canibal, dos “Mão Morta”, apresentou a banda –
quando eu era novo, dizia-se “grupo”, ou, ainda mais antiquadamente,
“conjunto” – com uma frase imorredoira: “Nós somos os cabrões dos Mão
Morta, sempre contra a extrema-direita, mesmo que nos ponham um Z na
lapela”. Terá sido contactado pelo “visitante”? Dino D’Santiago entrou
imediatamente na generalidade protectora, mantendo que é, como “filho do
século XX”, “responsável pelo sangue derramado nesta e em todas as
guerras”. Como é bom de ver, ninguém lhe pedia a admissão de uma culpa
tão vasta e quase sobre-humana, era uma coisa mais localizada, mas
percebe-se que dê jeito. É como num dos exemplos de má-fé que Sartre dá:
a menina, no banco de jardim, que deixa que o cavalheiro sentado ao
lado lhe segure a mão. Deixando-o acariciá-la, ao mesmo tempo não está
ali, está num outro lugar. Recusa a responsabilidade. É e não é ao mesmo
tempo. Por fim, temos um saudável retorno a um franco linguajar pela
voz de Scúru Fitchádu (é um pseudónimo): “46 anos de Festa. 46 chapadas
na tromba desses porcos lá fora”. Não é que ele seja incapaz de outra
linguagem. Declara, por exemplo, com profundidade: “O eurocentrismo na
avaliação dos conflitos dá que pensar”. Mas as “chapadas na tromba
desses porcos lá fora” têm, pensa Scúru (e eu estou de acordo), mais
força. Enfim… Agora a sério, José Milhazes, acha que estas cabeças
poderiam escutar o seu apelo?
É
claro que se fosse um comício do Chega, ouviam-no e ouviam-no muito.
Quando um pobre incauto, também a contar com o dinheirinho, lá aceita
cantar as suas coisas, caem-lhe todos – a começar pelos que foram à
Festa do Avante – em cima. É princípios para aqui, princípios para ali,
geografia dos corações, para falar como Vitorino. A coisa é tão mais
absurda quanto o Chega, com todos os seus defeitos, não foi servo
fervoroso de nenhum Estado totalitário, nem mantem, que eu saiba,
cordiais relações com nenhum. Se nalguma coisa ele é mais inconveniente
do que o PC é por ter muito mais votos do que ele.
Escrevo isto e penso na divertidíssima Carmo Afonso, que, num momento de puro génio, escreveu na sua coluna do Público: “Por cada vez que alguém compara o BE e o PCP à extrema direita, morre um passarinho silvestre, seca uma flor campestre”.
Estarei eu, por uma qualquer omnipotência do pensamento, a dizimar a
passarada e a dar cabo das florzinhas? Logo eu que, mal chega a
Primavera, fico maravilhado com as margaridas, esses “despretensiosos
lugares-comuns da natureza” de que falava Wordsworth, e que, mal posso,
me pisgo para um sítio onde rapo um frio dos diabos para só ver árvores e
ouvir passarinhos… Alguma coisa me diz que Carmo Afonso, na sua crença
na eficácia mágica do pensamento, está errada. Ouço-me a dizer o que
Chico Marx dizia a Groucho: Why a duck? Porquê um pato, de facto? Porque
não um pacto de fato, que faria exactamente o mesmo sentido – isto é,
nenhum? Porque é que umas palavrinhas de bom-senso podem desencadear uma
catástrofe ecológica?
Mas
não quero discutir mais a proposição especulativa de Carmo Afonso.
Quero voltar ao magneto da Festa do Avante. Porque o verdadeiro “Z” que
denuncia a existência do gato não é o pobre do magneto, que poderia
estar ali ou não estar, pronto para a porta do frigorífico. O verdadeiro
“Z” é o que se pode ler e ouvir em filigrana nas palavras pronunciadas e
escritas pelo PCP, nomeadamente na Festa. Dito de outra maneira: não é
aquilo que se aplica na porta do frigorífico. É o que se vê dentro do
frigorífico quando a porta se abre. É o interior do frigorífico que está
cheio de “visitantes” que querem destruir a Ucrânia.
PS1.
Aparentemente, o jornal “i” sofreu um ataque informático no próprio dia
em que publicou uma primeira página desagradável para os artistas que
participaram na Festa do Avante. Não manifestei indignação moral face
aos ditos artistas e não a manifesto igualmente face à primeira página.
Limito-me a constatar que, verosimilmente, os “visitantes” informáticos
estão activos.
PS2.
António Costa teve ontem, a propósito das pensões, um momento “I am not
a crook”. Para quem não tiver reparado, não foi a primeira vez, muito
pelo contrário. Nunca lhe aconteceu mal nenhum.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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