Charles não é muito popular, as correntes históricas não favorecem e o valor de uma instituição milenar pode ser desgastado rapidamente. Vilma Gryzinski:
Um dos maiores orgulhos de Elizabeth II
era ter garantido três herdeiros na linha de sucessão – filho, neto e
bisneto -, um feito raro, com o único precedente da rainha Vitória, no
século XIX.
Mas ter a sucessão estabilizada não significa garantia de que ela vá acontecer.
Numa
das pesquisas feitas por ocasião do jubileu de platina da falecida
rainha, 62% dos britânicos eram a favor da monarquia e apenas 22%
contra. Seria bom para o novo rei Charles III,
exceto por um detalhe: 37% prefeririam que a coroa, depois de Elizabeth
II, passasse diretamente para seu filho William, muito mais popular
junto à opinião pública.
É
claro que isso nunca aconteceria: seguir a linha da sucessão é um dos
sustentáculos de um sistema baseado no princípio da hereditariedade e da
hierarquia.
Como é possível que algo tão anacrônico sobreviva a tantas mudanças do mundo contemporâneo?
Nas
monarquias escandinavas, os ventos históricos parecem calmos. O papel
de reis e rainhas é, comparativamente, pouco contencioso e nos postos
avançados do estado de bem-estar social não faz muito sentido consertar
algo que não está quebrado. Na Espanha, o maior problema do rei Felipe
VI é o seu pai, Juan Carlos, que detonou o prestígio da monarquia com
contatos e negócios suspeitos.
Sem
contar que Felipe poderá ser o rei que verá a Espanha perder um pedaço
preciosíssimo, a Catalunha, onde predomina o separatismo.
O
mesmo sentimento separatista pode arrancar do Reino Unido a Escócia e,
eventualmente, a Irlanda do Norte. O reino se tornaria desunido,
desmanchando um projeto consolidado há mais de 300 anos, perspectiva
tão ruim que, por ocasião do plebiscito de 2014, Elizabeth fez uma uma
rara e cautelosa declaração pública, aconselhando os eleitores a “pensar
cuidadosamente” em suas escolhas.
O
voto pela independência perdeu, com 44%, mas o separatismo é uma
corrente forte. O atual governo é formado pelo principal partido
independentista. A forte identificação da família real com a Escócia,
realçada pelo uso de kilts quando os homens estão em território escocês,
o farto emprego de gaitas de fole e pela própria morte da rainha em seu
castelo particular em Balmoral, desabaria a partir do momento em que o
“sim” vencesse.
A monarquia sobreviveria num país encolhido e até mesmo nem nele.
“Na
medida em que a Grã-Bretanha se torna mais diversa, mais secular, mais
insistentemente igualitária e menos conectada com seu passado, a própria
ideia de uma monarquia hereditária cristã embasada na tradição e ha
história se torna menos inteligível. O apoio à instituição tem caído
entre as faixas etárias mais jovens”, escreveu Niall Gooch no UnHerd.
“A
popularidade pessoal de Elizabeth II pode não se traduzir em afeição
duradoura pela Coroa como instituição e tudo o que representa”.
Charles
sabe muito bem disso e dedicou as últimas décadas a construir uma
imagem positiva e deixar no passado o repúdio provocado pela forma como
tratou e traiu Diana, a primeira mulher rejeitada.
Nesse
sentido, a morte de Diana, há 25 anos, ajudou Charles a tornar
aceitável, ao longo do tempo, seu casamento com Camilla e o tratamento
que ela assumiu desde ontem, o de rainha consorte.
Tornar-se
rei aos 73 anos não é exatamente entusiasmante e todo o trabalho
sistemático de relações públicas não conseguiu o prodígio de transformar
uma personalidade pouco inspiradora num herdeiro e agora rei popular.
As
revelações recentes de que aceitou sacolas de dinheiro vivo para sua
fundação, doados por um xeque do Catar, e outra contribuição de irmãos
de Osama Bin Laden, não ajudaram em nada a torná-lo mais admirado.
Charles também tem que administrar dois problemas familiares extremamente incômodos.
Um é de seu filho Harry, que saiu batendo a porta para ir morar – e ganhar dinheiro – com a mulher nos Estados Unidos.
Harry
e Meghan vivem de soltar inconfidências – falsas e verdadeiras – sobre a
família real. Não vão se tornar mais contidos. Para dar uma ideia do
clima de animosidade: eles estavam por acaso na Inglaterra quando a
rainha morreu e foi anunciado que viajariam a Balmoral, mas depois a
informação foi corrigida. Harry acabou indo sozinho.
O
outro problema ficou menos espinhoso com a morte da rainha: Andrew, o
filho que foi totalmente cortado dos compromissos oficiais da família
real por causa dos contatos com o pedófilo suicida Jeffrey Epstein, não
pode mais apelar à mamãe para restaurar seu status.
Depois
do período de luto, que vai ser bem longo, todos os próximos passos
terão que ser cuidadosamente coreografados. Quando Charles for coroado,
terá que conciliar a tradição da cerimônia – que tem partes que remetem
ao período anterior à conquista normanda, no começo do século XI – a
adaptações inevitáveis.
Não
poderá protagonizar um ato idêntico ao da mãe, que tinha apenas 27 anos
quando entrou em Westminster usando a coroa de estado de 1 quilo e 280
gramas e manto de veludo ornado com peles de arminho de 6,5 metros. Sem
contar a cerimônia de unção , com uma cruz feita no peito com uma
mistura secreta de óleos e essências perfumadas, simbolizando algo que
não existe há muito tempo: a monarquia por direito divino.
Foi
por promover este conceito que o xará mais famoso – ou infame – do novo
rei, Charles I, acabou decapitado em 1649 – um regicídio que só se
repetiria quase 150 anos depois na França. A revolução inglesa durou
pouco. Depois de uma década, ao longo da qual Oliver Cromwell, o homem
que derrotou as forças leais ao rei em nome do Parlamento rebelado, foi
ficando excessivamente poderoso, assumiu atribuições ditatoriais e
acabou nomeando o filho como sucessor. Entre um rei plebeu, e inepto, e
um rei por hereditariedade, o país acabou pendendo pela restauração da
monarquia, com o filho do rei executado, Charles II, retornado do exílio
na França. Seu avô materno Henri IV da França, tinha sido assassinado
por um fundamentalista católico e a avó, a formidável Maria de Médici,
terminou a vida confinada por conspirar contra um filho.
A
época dos tronos disputados em batalhas passou há muito tempo e o campo
de confronto hoje está nas redes sociais. Uma pesquisa recente mostra
que Kate, a mulher de William, está acima até do marido em popularidade,
com 68% de aprovação.
Quando
se tornar a princesa de Gales, o título que ficou adormecido desde
Diana (Camilla poderia usá-lo depois que se casou com Charles, o
príncipe de Gales, mas foi prudentemente aconselhada a usar o segundo da
lista, de duquesa da Cornualha), Kate se consolidará como um dos
trunfos mais valiosos da monarquia.
Um
casal jovem, bonito, dedicado à família e a boas causas, criando com
afeto e cuidado um futuro reizinho, só ajuda a promover uma causa que
parece historicamente perdida.
Só é preciso que Charles III não atrapalhe muito.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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