Bolsonaro reafirma seu poder de arrebatar multidões e deve continuar influindo na política mesmo que perca as eleições. Carlos Graieb para a revista Crusoé:
Durante
o 7 de Setembro, Jair Bolsonaro conseguiu levar, mais uma vez,
multidões de apoiadores para as ruas de Brasília, Rio de Janeiro, São
Paulo e outras capitais. Essa exibição de força política levanta duas
questões. A primeira diz respeito às eleições que se aproximam; a
segunda, ao futuro do bolsonarismo.
Na
noite de quarta-feira, o QG de Bolsonaro estava exultante. A campanha
tem dados mostrando que, quando critica o sistema eleitoral e as urnas
eletrônicas, ou insulta ministros do STF e do TSE, Bolsonaro faz sucesso
entre os seus seguidores fanáticos, mas exaspera os eleitores
indecisos.
Nos
dias que antecederam o 7 de Setembro, um grande esforço foi feito para
convencer Bolsonaro a evitar esses assuntos. Com o microfone na mão, ele
ainda incentivou suas plateias a vaiar integrantes do STF e ameaçou
“enquadrar quem joga fora das quatro linhas da Constituição”. Mas
Bolsonaro não disse nada que se equiparasse, em virulência, ao seu
discurso na mesma data, em 2021. Daí a comemoração dos assessores.
Não
espantar o eleitorado, no entanto, não é o mesmo que conquistá-lo.
Quais outros benefícios Bolsonaro pode extrair das celebrações do
Bicentenário da Independência?
Ao
contrário do que seria de esperar numa data histórica, os discursos do
presidente em Brasília e no Rio de Janeiro não lançaram nenhuma luz
sobre o passado, nem projetaram uma imagem inspiradora do futuro –
daquilo a que o Brasil pode aspirar.
As
poucas frases ditas sobre economia não serão lembradas por aqueles que
mais precisam da ajuda do governo – os 33 milhões de esfaimados do país –
nem pelo imenso contingente de eleitores com renda entre dois e cinco
salários mínimos que ainda não têm firmeza em sua escolha de candidato.
As
mulheres que se decepcionaram com o trabalho de Bolsonaro –
especialmente durante a pandemia, quando ele deixou escancarada sua
falta de empatia – dificilmente encontrarão em suas palavras qualquer
motivo para reelegê-lo.
De
tudo que Bolsonaro disse ao longo do dia, já se sabe o que ficou
marcado: o coro de “imbrochável” que o ele puxou, exaltando a si próprio
e à sua – suposta – potência sexual.A maneira como Bolsonaro sequestrou
as comemorações do Bicentenário, transformando-as em um evento de
campanha, também pode acabar se voltando contra ele.
Na
própria quarta-feira, diversos partidos acionaram o TSE, alegando que o
desfile cívico-militar de Brasília e as apresentações de navios e
paraquedistas no Rio de Janeiro se confundiram completamente com os
comícios que vieram em seguida, configurando abusos de poder político e
uso de recursos públicos em proveito próprio. O que se pretende obter é a
inelegibilidade de Bolsonaro.
Ainda
que esse desfecho jurídico não aconteça, a demonstração de que o
presidente não teve nenhum escrúpulo em usar a máquina pública em seu
favor pode prejudicá-lo. As imagens falam por si próprias. Não é difícil
para ninguém perceber que, ao contrário de qualquer outro ano, cidadãos
que não rezam pela cartilha do bolsonarismo não se sentiriam à vontade,
nem seriam bem-vindos, nos festejos nominalmente “públicos” de 2022.
Na
verdade, as imagens de multidões vestidas de verde e amarelo, exibindo
faixas e entoando gritos de apoio a Bolsonaro, são mesmo o único troféu
que sua campanha conquistou no 7 de Setembro.
Não
existem estimativas oficiais para o tamanho das reuniões de
bolsonaristas nas três principais capitais onde elas aconteceram. Usando
fotos aéreas e modelos de ocupação do espaço em grandes eventos,
pesquisadores da Universidade de São Paulo estimaram em 32 mil pessoas a
presença em São Paulo e em 64 mil, a presença no Rio de Janeiro.
Com
método semelhante, o site Poder 360 calculou que o número de apoiadores
de Jair Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, foi um
pouco maior do que cem mil pessoas. Os bolsonaristas acham pouco.
Na
quarta-feira, o locutor de rodeios Cuiabano Lima, convocado para animar
o comício de Bolsonaro na capital federal, foi instruído a multiplicar
por dez o número de presentes (assista o vídeo, acima). “Aqui hoje na
Esplanada, mais de 100 mil pessoas”, disse Lima, com seu chapelão de
cowboy. Imediatamente, um militar emergiu do fundo do palco – era o
coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do presidente – e sussurrou
algumas palavras no ouvido do locutor. Que logo mudou o discurso: “Aqui
na minha frente, cem mil. Mas, em toda a Esplanada, chegaram os dados,
um milhão de pessoas! Um milhão de brasileiros, levantem as mãos!”
O
bolsonarismo deve se agarrar a esse número inflado. Ele dará suporte à
narrativa prevista para as próximas três semanas: a de que o “datapovo”,
baseado no olhômetro e nas conversas entre amigos, diz a verdade,
enquanto os institutos de pesquisa – pelo menos aqueles que continuarem
mostrando Bolsonaro atrás de Lula em intenções de voto – mentem.

É
preciso reconhecer, contudo, que, ainda que não lhe garantam uma
vitória em outubro, essas imagens de gente nas ruas dão a Bolsonaro algo
que nenhum outro político brasileiro – nem mesmo Lula – tem atualmente:
uma prova de que ao seu redor se articula um movimento político coeso,
sempre pronto a responder a um chamado e com alguns objetivos claros.
Por
muitos anos, Lula e o PT é que puderam se gabar disso. A situação
começou a mudar durante as manifestações de 2013, quando ficou claro que
o partido e seus satélites (especialmente os sindicatos) já não podiam
se apresentar como porta-vozes exclusivos da vontade popular. A eclosão
da Lava Jato, em 2014, e as grandes passeatas que se repetiram dali em
diante, até o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, desbancaram de uma
vez por todas a esquerda dessa posição de que ela julgava ser dona.
O
fato de que grandes sindicados, depois de algum tempo, precisaram
oferecer sanduíches aos participantes de seus eventos de apoio a Dilma,
para convencê-los a comparecer, adicionou uma expressão ao nosso léxico
político: “mortadelas”, em referência aos militantes de esquerda. A
reforma trabalhista empreendida por Michel Temer, que pôs um fim à
contribuição sindical obrigatória, fez com que até mesmo manobras como
essas se tornassem difíceis. As bandeiras de sindicatos estavam
presentes tanto no lançamento da candidatura de Lula, em maio deste ano,
quanto no seu primeiro evento de campanha, em agosto. Mas os dois
eventos empalidecem diante a lembrança de outros comícios, nos tempos
áureos do PT.
O
bolsonarismo, atualmente, conta com apoio financeiro de alguns
empresários como Luciano Hang, que ocupou um espaço de honra no palanque
oficial de Brasília, desalojando inclusive o presidente de Portugal
Marcelo Rebelo de Souza, que ali estava. Conta, principalmente, com o
apoio de líderes evangélicos. Foi o pastor Silas Malafaia, por exemplo,
quem pagou pelo carro de som de onde Bolsonaro discursou na
quarta-feira, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, o presidente não dispõe de
estruturas como os ricos sindicatos dos anos 1990 e 2000, para ajudar a
organizar seus seguidores.
As
redes sociais são as ferramentas de que ele necessita para mobilizar
uma base social que, apesar de heterogênea, responde aos mesmos
estímulos, como a defesa da família, das armas como meio de autodefesa e
da pátria contra globalistas, comunistas e o que mais for.
Bolsonaro
tem hoje algo entre 32% e 35% nas pesquisas de intenção de voto. Ainda
que sua base fiel seja bem menor, da ordem de 20% ou 15% do eleitorado,
trata-se de uma força política incontornável. Como mostrou mais uma vez o
7 de Setembro sequestrado, quando Bolsonaro chama, o seu povo acode.
Pode ser que ele perca as eleições em outubro. Mas nem ele, nem o
bolsonarismo deverão perder a voz – e nesse caso, o Brasil vai descobrir
o que significa tê-los na oposição.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário