A quantidade de peritos preocupados com o sexo do corpo discente é directamente proporcional às consumições que o sexo alimenta. Quanto mais criaturas esmiúçam o drama, maior é o drama. Alberto Gonçalves para o Observador:
“Quatro
em cada cinco jovens LGBT ocultam orientação sexual aos docentes”,
rezava a manchete do Público na terça-feira. A revelação, sem dúvida
escandalosa, consta de um “estudo” do Centro de Psicologia da
Universidade do Porto, o qual, para reforçar a indignidade, acrescentava
que os alunos em questão não ocultam a orientação sexual apenas aos
docentes, mas também aos funcionários escolares. Não tarda, nem sequer
se assumem na papelaria onde compram as sebentas. O mundo está realmente
perdido.
No
“secundário” da minha juventude não havia segredos. Fôssemos
homossexuais ou hétero, pansexuais ou assexuais, a nossa inclinação
tornava-se familiar ao professor de Química logo após dez minutos da
aula de apresentação. Lembro-me de um colega do 9º ano, o Zé Luís, que
não pedia uma tosta mista sem antes informar a senhora do bar de que era
(ele, não a senhora) scolio-sexual (o que, ao contrário do que possa
parecer, não significa atracção por indivíduos que padecem de
escoliose). E lembro-me do entusiasmo da turma no momento em que, a meio
de uma partida de voleibol do 11º-F, a Carla Alexandra se confessou uma
semi-rapariga panromântica não binária. Eu mesmo liguei de madrugada à
“setora” de Inglês para esclarecer dúvidas acerca do simbolismo de um
pólo cor-de-rosa que envergara no dia anterior. A franqueza imperava.
E
a franqueza era recíproca. Os professores, os funcionários e a senhora
das tostas mistas naturalmente partilhavam connosco a sua identidade de
género e as suas preferências sexuais. Eis uma saudação típica: “Bom dia
a todos! O meu nome é Ricardo Areias, sou o vosso professor de
Matemática, gosto de coleccionar moedas e defino-me como ‘genderqueer’
com uns pozinhos de poliamoroso aos sábados. Os pronomes por que atendo
são ‘aqueloutrx’ e ‘’. Bem, agora vamos lá ouvir com atenção a história
da minha relação fluída com três técnicos dos serviços de água e
saneamento que quero entrar na trigonometria logo no início do segundo
período. Ou do terceiro, vá, que não pretendo criar ansiedade a
ninguém.” Hoje, pelos vistos, não há nada disto. Hoje, receio bem, é
possível que os próprios professores – e os funcionários, Deus do céu –
escondam a sexualidade deles dos alunos.
O
que causou tamanho retrocesso? Não foi de certeza a falta de “estudos”,
inquéritos, associações, institutos e observatórios dedicados a
analisar a situação – e a concluir sempre que está pior. Aliás, fica até
a ideia de que a quantidade de peritos preocupados com o sexo do corpo
discente (sem trocadilhos) é directamente proporcional às consumições
que o sexo alimenta. Quanto mais criaturas esmiúçam o drama, maior é o
drama. Quanto maior é o drama, mais criaturas aparecem a esmiuçá-lo. E
assim continuamos num círculo vicioso de ocultação, vergonha, bullying e
outras calamidades, felizmente denunciadas por
investigadores/activistas. As calamidades aumentam de seguida?
Aumenta-se, em subsídio e número, os investigadores/activistas. E por aí
afora.
Um
troglodita reaccionário e negacionista, passe as redundâncias,
recomendaria juízo, o fim da histeria e o regresso da criançada a uma
vida normal, cheia de dúvidas, maçadas e borbulhas. Sucede que sou uma
pessoa sensível, pelo que nunca me ocorreria insinuar a existência de
excessiva aflição com as tragédias hormonais da adolescência. Pelo
contrário, afirmo sem hesitações que urge incrementar o nível de
aflição. Na época actual, já não se justifica ocupar uma percentagem
absurda dos programas com “matérias” anacrónicas e desligadas de uma
realidade que começa em Harry Styles (um moço que se veste de mulher) e
termina em desabafos no Tik Tok.
Se
repararmos, em pleno século XXI ainda sobram uns intervalos em que o
sistema educativo despeja nas cabeças dos petizes, das petizas e d@s
petizex informações ridículas sobre Stuart Mill, Camões e Pitágoras, que
além de caducos são símbolos da supremacia branca e do
heteropatriarcado (não ponho as mãos no fogo por Pitágoras). É
inadmissível. E é tempo precioso que poderia e deveria ser empregue nas
supremas funções do ensino: poupar os fedelhos a contrariedades,
convencer os fedelhos de que são espectaculares, garantir aos fedelhos
que o mundo se curvará aos respectivos pés. Salvaguardadas a Educação
Sexual e a Cidadania, importa substituir as restantes disciplinas em
vigor por Introdução à Tolerância, Identidade(s) I e II, Inclusividade
Avançada, História das Minorias, Culturas Trans(itórias), Princípios de
Susceptibilidade, etc. Imagino uma escola repleta de psicólogos,
assistentes sociais, sociólogos e gabinetes de apoio. Imagino um “life
coach” para cada aluno.
Não
imagino é que, em semelhante sarrabulho, alguém aprenda alguma coisa.
Óptimo: se aprendesse, no futuro não haveria profissionais disponíveis
para dedicar a carreira a “estudar” o grau de intimidade entre
professores e alunos. Ou há “estudos”, ou há estudo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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