BLOG ORLANDO TAMBOSI
O povo tem pressa e os políticos nem tanto. É preciso zerar o jogo, pacificar o país e tocar adiante, rumo ao futuro. Murillo de Aragão para a Veja:
Já
disse aqui, em coluna anterior, que a guerra é para os covardes e a paz
para os corajosos. O Brasil e os brasileiros devem ter a coragem de
buscar a paz política. A guerra política que hoje vivemos se expressa
tanto por ações institucionais quanto por narrativas
anti-institucionais, trazendo intranquilidade para o processo de
construção de nossa democracia.
As
origens dessa guerra política podem ser identificadas em vários eventos
ocorridos nas últimas décadas: mensalão; protestos de 2013, Operação
Lava-Jato, desmonte do presidencialismo de coalizão, impeachment da
presidente Dilma Rousseff, investigações no governo Michel Temer, prisão
do ex-presidente Lula, ativismo judiciário, judicialização da política, entre outros vetores.
Em
muitos momentos houve excessos punitivos. Em outros, leniência em atuar
de forma efetiva para evitar desvios e ilícitos. Houve, ainda,
complacência com interpretações duvidosas do direito em favor da torcida
do momento. Certa época torcia-se para que o furor punitivo do Supremo Tribunal Federal fosse a fogueira que nos purgaria de nossos males. Outras vezes, as esperanças estavam no vigor da primeira instância.
Os
conflitos foram ampliados pela inclusão de novos campos de batalha no
Judiciário, nas redes sociais e nos movimentos de renovação na política.
E ainda por certa omissão das elites em não arbitrar limites nem
denunciar excessos. Ao mesmo tempo, outros dois fenômenos foram
identificados como consequências: o desmonte do capitalismo de laços e o
encolhimento do centro ideológico do país, permitindo a predominância
de narrativas radicalizadas, identificadas com a polarização.
O
desmonte do capitalismo que era amparado na corrupção foi um avanço,
mas deixou um vácuo de poder privado que precisa ser preenchido pelas
forças produtivas da sociedade de forma clara, assertiva, honesta e
transparente. O encolhimento do centro ideológico enfraqueceu o
necessário espaço de amortecimento para conter os radicais. Tem nos
faltado juízo para pacificar o país.
Ao
país e ao seu povo não interessa o estado de permanente guerra
ideológica e institucional que estamos vivendo há tempos. Tampouco
interessa apontar o dedo para os culpados, já que são muitos e estão
espalhados em várias instituições públicas e privadas. Gastaríamos muito
tempo em nominar aqueles que pecaram contra a nossa democracia por ação
e omissão. Importa mais olhar os caminhos que podemos seguir.
Países
em guerra devem buscar a paz. O caminho da paz é a negociação e o
entendimento. As eleições gerais dão ao Brasil a oportunidade de trilhar
o caminho da paz. Não é um caminho fácil já que importa em se
posicionar em favor do entendimento. Seja quem vencer as eleições.
Idealmente, a solução seguiria um protocolo. Primeiro, deve se buscar um
armistício que resulte de um cessar-fogo entre os polos em conflito. Em
seguida, deve se estabelecer um entendimento com base na Constituição e
na democracia em favor do enfrentamento de nossos desafios. O povo tem
pressa e os políticos nem tanto. É preciso zerar o jogo, pacificar o
país e tocar adiante, rumo ao futuro.
Publicado em VEJA de 17 de agosto de 2022, edição nº 2802

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