O levante foi um sucesso estrondoso, especialmente porque contou com o apoio dos mais variados espectros das lideranças portuguesas, que estavam exaustas dos acontecimentos iniciados em 1807. Tiago Cordeiro para a Gazeta do Povo:
Não
é exagero dizer que a independência do Brasil teve início em 1820, dois
anos antes da proclamação diante do rio Ipiranga, e a 8.100 quilômetros
da capital paulista. Os acontecimentos que tiveram início na cidade do
Porto e mudaram para sempre os rumos, tanto da matriz quanto da colônia.
Acabaram
por encerrar a monarquia absolutista, que governava o país europeu
fazia três séculos – a monarquia portuguesa acabaria por cair em 1910. E
provocaram o retorno de D. João VI a Lisboa, depois de 13 anos de
estadia no Rio de Janeiro. Ele assinaria o acordo aceitando a
independência do Brasil, em 29 de agosto de 1825, e governaria até a
morte, em 1826.
A
rebelião no Porto começou em 24 de agosto de 1820. Ainda antes do
amanhecer, dezenas de militares seguiram para o campo de Santo Ovídio,
que hoje se chama Praça da República. Realizaram uma parada militar,
acompanharam uma missa e fizeram uma salva de artilharia. Por volta das 8
horas, tomaram a Câmara Municipal e formaram a Junta Provisional do
Governo Supremo do Reino, presidida pelo brigadeiro António da Silveira
Pinto da Fonseca.
O
levante contava com o apoio de diversas classes sociais relevantes. A
junta reuniu, por exemplo, Luís Pedro de Andrade e Brederode em nome do
clero, Pedro Leite Pereira de Melo e Francisco de Sousa Cirne de
Madureira representando a nobreza e o desembargador Manuel Fernandes em
nome da magistratura. O grupo também divulgou um Manifesto aos
Portugueses, que apresentava uma lista de reivindicações, incluindo o
imediato retorno da corte a Portugal e a restauração da exclusividade de
comércio do Brasil para com os lusitanos.
Rapidamente,
lideranças em Lisboa aderiram. Em 28 de setembro, uniram-se ao Porto em
uma Junta Provisional do Supremo Governo do Reino. Depuseram a regência
britânica que controlava o país desde a fuga da família real e
começaram a organizar eleições para formar uma assembleia constituinte.
Os trabalhos começaram em janeiro de 1821. Em 26 de abril, Dom João VI
deixava o Rio de Janeiro. A primeira Constituição do país, de teor
liberal, seria promulgada em 23 de setembro de 1822.
Ou
seja: o levante foi um sucesso estrondoso, especialmente porque contou
com o apoio dos mais variados espectros das lideranças portuguesas, que
estavam exaustas dos acontecimentos iniciados em 1807.
Baque moral
Em
busca de dominar a Europa e estrangular a movimentação militar da
Inglaterra, Napoleão se lançou sobre a Península Ibérica. Enviou 27 mil
soldados, um contingente relativamente tímido – tamanha era a confiança
do comandante francês. A Espanha seria invadida em 1808. Lisboa chegou a
ser ocupada, mas não havia mais um rei disponível para assinar uma
rendição. Os franceses se viram envolvidos por uma situação
desconfortável. A guerra de guerrilha acabaria por se estender até 1814,
com os britânicos apoiando os portugueses.
Em
junho de 1815, Napoleão seria definitivamente derrotado na Batalha de
Waterloo. Enquanto isso, do ponto de vista dos portugueses, vitoriosos
diante de uma das maiores ameaças militares de sua história, não fazia
sentido Dom João VI permanecer na colônia. Enquanto ele se mantinha
distante, Portugal permanecia controlado por regentes britânicos e, na
prática, havia perdido qualquer autonomia militar e comercial, mesmo
depois de evitar a invasão francesa.
Para
agravar o quadro, em dezembro do mesmo ano, o Brasil havia deixado de
ser, oficialmente, apenas uma colônia, e sim parte do reino – a
proclamação do estado do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves
representou um baque. Entre outros motivos, porque, num primeiro
momento, a capital escolhida foi o Rio de Janeiro.
Ou
seja: enquanto jovens lusitanos pegavam em armar para defender suas
terras, a capital de Portugal, de dezembro de 1815 até a revolução do
Porto, ficava do outro lado do Oceano Atlântico. O monarca tinha um bom
pretexto para tomar esta decisão: o Congresso de Viena, iniciado em 1814
e que tinha por objetivo reorganizar o mapa político da Europa,
resistia a aceitar Dom João VI como um porta-voz, já que ele vinha
governando a partir de uma colônia. Ainda assim, a insatisfação foi
enorme – e justificada.
Pior
ainda: a mudança de status vinha na sequência do impacto econômico
provocado pelo Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, de 1808,
a partir do qual o Brasil deixava de ser obrigado a praticar o comércio
exclusivamente com Portugal, depois de dezenas de gerações habituadas a
viver da exclusividade da importação e da exportação com a colônia.
Somadas,
as ações tinham um caráter simbólico pesado, ainda mais quando se
lembra que, no passado, o grande Império Português havia alcançado os
territórios que, hoje, pertencem a 53 países diferentes.
Começando
pela conquista de Ceuta, em 1415, passando pela exploração da costa da
África a partir de 1419, incluindo os feitos de Vasco da Gama, que
chegou à Índia em 1498, e de Pedro Álvares Cabral, que iniciou a
conquista de boa parte da América do Sul em 1500, Portugal foi, por
séculos, uma das maiores e mais influentes potências do planeta.
Quando
da eclosão da revolta no Porto, a insistência do rei em valorizar o
Brasil apenas ampliava a humilhação iniciada com a fuga da família real,
em 29 de novembro de 1807. O fim do já há muito tempo enfraquecido
império aconteceria oficialmente em 1999, com a devolução de Macau à
China.
Notícia velha
Em
1817, uma primeira tentativa de retomar a autonomia de Portugal foi
liderada por oficiais do exército, em especial o general Gomes Freire de
Andrade. Formado em Lisboa, o chamado Supremo Conselho Regenerador de
Portugal e do Algarve foi rapidamente identificado e reprimido. O Campo
de Santana, onde dez acusados de traição foram enforcados no dia 18 de
outubro, hoje se chama Campo dos Mártires da Pátria.
O
regente do país, na época, era o militar britânico William Carr
Beresford. Ele então viajou pessoalmente ao Rio de Janeiro para
solicitar a Dom João VI mais recursos para reprimir possíveis outros
movimentos rebeldes. Foi em sua ausência que eclodiu a Revolução do
Porto – ao retornar, ele se viu impedido de embarcar em Lisboa.
Beresford,
assim como Dom João VI, não enxergou a exaustão das elites portuguesas.
Mas, no Brasil, a rebelião no Porto foi recebida como notícia velha.
Oficialmente, a eclosão da revolução chegou em uma edição especial da
Gazeta do Rio de Janeiro, produzida pela Impressão Régia e datada de 9
de novembro de 1820. Mas as informações já circulavam pelas ruas, e não
apenas da capital.
“Segundo
atestava uma folha inglesa traduzida e publicada no Correio do Porto,
no dia 20 de outubro, os brasileiros já estavam informados sobre o
andamento de um projeto revolucionário em Portugal”, relata a professora
de História da Pontifícia Universidade Católica de Campinas
(PUC-CAMPINAS), Juliana Gesuelli Meirelles, em artigo sobre o tema.
O
periódico já informava: “O Brasil está muito inquieto, não sendo
improvável que a Revolução de Portugal se estenda além do Atlântico.
Cartas da Bahia, Pernambuco, e outras terras do norte do Brasil,
escritas por pessoas mui respeitáveis exprimem receios de próximos
rompimentos; e até dão a entender que o projeto de uma revolução em
Portugal era conhecida no Brasil já em junho passado”.
Enquanto
o monarca voltava a sua terra natal e, finalmente, aceitava o sucesso
das reivindicações de seus súditos, ancorados pelo novo momento político
da Europa, Dom Pedro permanecia no Brasil, como príncipe-regente.
Quando, em fevereiro de 1822, Dom João VI solicitou formalmente ao filho
que retornasse a Portugal, já era tarde. Em setembro de 1822, Pedro se
tornaria rei do novo país independente, enquanto seu pai continuava, por
mais algum tempo, monarca de uma nova Portugal.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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