MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 13 de agosto de 2022

A segunda morte de Jô Soares

 


Jô Soares está morto, mas os censores (os do GNT e outros) viverão para sempre. A burrice é eterna. Via Crusoé, a crônica semanal de Ruy Goiaba:


Lá vem o velho de novo? Sim, lá vou eu: tenho idade suficiente para me lembrar bem de quando Jô Soares — morto na semana passada, aos 84 anos — era “só” humorista e precisou sair da Globo para o SBT para concretizar seu projeto de fazer um talk show (na época, achávamos mais surpreendente ele ter trocado a líder de audiência pela emissora do Patrão). Lembro, por exemplo, daquele personagem de Jô no “Viva o Gordo” que buscava alguma colocação e, ao ser rejeitado, dizia revirando os olhos: “Você não está entendendo. Quem me mandou aqui foi o Gandola”. Bastava isso para que ele fosse aceito na hora.

Só bem mais tarde eu vim a saber que “gandola” era “uma espécie de manta usada por militares em substituição ao capote”, segundo a definição do Houaiss. Ou seja: o personagem do quadro era um apadrinhado dos milicos. Era o início dos anos 1980, governo de João Figueiredo, e a ditadura militar no Brasil já começava a entrar nos seus estertores; ainda assim, o esquete era elusivo a ponto de a referência ter passado despercebida por muita gente. Hoje, as gandolas estão de volta, e não só com Jair Bolsonaro e seus ministros: há muitos usuários que circulam por aí disfarçados de hipsters. Este texto é sobre eles.

Nesta semana, Patricia Kogut informou n’O Globo que o canal a cabo GNT vai reexibir edições do Programa do Jô como homenagem ao apresentador, “após seleção cuidadosa”. A colunista de TV explica: “Vai ser uma seleção feita com um cuidado em particular: o de suprimir os comentários que ele eventualmente tenha feito no ar e que hoje sejam passíveis de linchamento virtual. Afinal, ninguém escapa dos riscos de cancelamento” (o parêntese é meu: ao que parece, nem gente morta). O eufemismo da “seleção cuidadosa” é quase bonitinho, mas significa uma coisa só: censura. E censura retroativa, o que é especialmente ridículo: o GNT vai picotar as entrevistas para não ferir as suscetibilidades de 2022 com declarações de… 2016, quando Jô se aposentou do talk show. Parafraseando um amigo, se os Mamonas Assassinas nascessem hoje, seriam processados no ato — ainda antes de gravar “Mundo Animal” e “Robocop Gay”.

É óbvio que os tempos mudam: quem vê hoje os esquetes de “Viva o Gordo” percebe que muito daquele humor ficou datado, especialmente o baseado no binômio sexismo + homofobia (ou seja, “mulher gostosa + bicha escandalosa”, ainda bastante comum em programas do tipo A Praça É Nossa). Acredito que o próprio Jô faria diferente se tivesse um programa de humor nos anos 2010. Mas, hoje, o que sobraria para os entrevistadores que não quisessem desagradar a fascistinhas de direita e de esquerda, aldeões com tochas das redes sociais? Só puxação de saco irrestrita — dos entrevistados e do público, que jamais seria surpreendido ou confrontado. É o mesmo tipo de gente que quer proibir, por exemplo, atores de interpretarem qualquer papel com o qual não compartilhem cor, gênero ou orientação sexual; autores de ficção de criarem personagens fora de seu “lugar de fala” (o que mataria toda literatura não testemunhal); e foliões de se fantasiarem com algo diferente da roupa que eles já vestem todos os dias.

É muito fácil detectar as bestas autoritárias à direita. Mas esse pessoal vestido de hipster/moderno/progressista também não engana ninguém: o traje verdadeiro deles é uma gandola, que vem com a própria ditadura — fofinha, do bem — de brinde dentro do bolso (nem sei se gandola tem bolso; se não tiver, paciência). E pode até demorar, mas eles vão conseguir matar Jô pela segunda vez; agora no humor, que é o que restou para nós depois que sua pessoa física se foi. Aqui me sinto obrigado a adaptar Nelson Rodrigues, outro que está convenientemente estudando a geologia dos campos-santos há décadas: Jô Soares está morto, mas os censores (os do GNT e outros) viverão para sempre. A burrice é eterna.

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A GOIABICE DA SEMANA

Pensei em escrever sobre essa história de considerarem “ovelha negra” uma expressão racista, mas só a ideia já me fez tombar a cabeça no teclado e começar a roncar: acho que vou usar esse empolgante debate à noite, no lugar do Stilnox. Prefiro dedicar a goiabice desta semana a Marlene Engelhorn, jovem herdeira da Basf que anunciou a intenção de “abrir mão de 90%” da fortuna de sua família, estimada em 4,2 bilhões de euros. Não vi em nenhum dos veículos que deram a notícia, todos encantados com a história, a observação de que, em tese, a magnânima Marlene ainda ficará com 420 milhões de euros: coisinha pouca, suficiente apenas para suprir as necessidades mais básicas. Força, guerreira!

 
Engelhorn, que fará o sacrifício de viver com apenas 420 milhões de euros.
 
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

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