Jô Soares está morto, mas os censores (os do GNT e outros) viverão para sempre. A burrice é eterna. Via Crusoé, a crônica semanal de Ruy Goiaba:
Lá
vem o velho de novo? Sim, lá vou eu: tenho idade suficiente para me
lembrar bem de quando Jô Soares — morto na semana passada, aos 84 anos —
era “só” humorista e precisou sair da Globo para o SBT para concretizar
seu projeto de fazer um talk show (na época, achávamos mais
surpreendente ele ter trocado a líder de audiência pela emissora do
Patrão). Lembro, por exemplo, daquele personagem de Jô no “Viva o Gordo”
que buscava alguma colocação e, ao ser rejeitado, dizia revirando os
olhos: “Você não está entendendo. Quem me mandou aqui foi o Gandola”.
Bastava isso para que ele fosse aceito na hora.
Só
bem mais tarde eu vim a saber que “gandola” era “uma espécie de manta
usada por militares em substituição ao capote”, segundo a definição do
Houaiss. Ou seja: o personagem do quadro era um apadrinhado dos milicos.
Era o início dos anos 1980, governo de João Figueiredo, e a ditadura
militar no Brasil já começava a entrar nos seus estertores; ainda assim,
o esquete era elusivo a ponto de a referência ter passado despercebida
por muita gente. Hoje, as gandolas estão de volta, e não só com Jair
Bolsonaro e seus ministros: há muitos usuários que circulam por aí
disfarçados de hipsters. Este texto é sobre eles.
Nesta
semana, Patricia Kogut informou n’O Globo que o canal a cabo GNT vai
reexibir edições do Programa do Jô como homenagem ao apresentador, “após
seleção cuidadosa”. A colunista de TV explica: “Vai ser uma seleção
feita com um cuidado em particular: o de suprimir os comentários que ele
eventualmente tenha feito no ar e que hoje sejam passíveis de
linchamento virtual. Afinal, ninguém escapa dos riscos de cancelamento”
(o parêntese é meu: ao que parece, nem gente morta). O eufemismo da
“seleção cuidadosa” é quase bonitinho, mas significa uma coisa só:
censura. E censura retroativa, o que é especialmente ridículo: o GNT vai
picotar as entrevistas para não ferir as suscetibilidades de 2022 com
declarações de… 2016, quando Jô se aposentou do talk show. Parafraseando
um amigo, se os Mamonas Assassinas nascessem hoje, seriam processados
no ato — ainda antes de gravar “Mundo Animal” e “Robocop Gay”.
É
óbvio que os tempos mudam: quem vê hoje os esquetes de “Viva o Gordo”
percebe que muito daquele humor ficou datado, especialmente o baseado no
binômio sexismo + homofobia (ou seja, “mulher gostosa + bicha
escandalosa”, ainda bastante comum em programas do tipo A Praça É
Nossa). Acredito que o próprio Jô faria diferente se tivesse um programa
de humor nos anos 2010. Mas, hoje, o que sobraria para os
entrevistadores que não quisessem desagradar a fascistinhas de direita e
de esquerda, aldeões com tochas das redes sociais? Só puxação de saco
irrestrita — dos entrevistados e do público, que jamais seria
surpreendido ou confrontado. É o mesmo tipo de gente que quer proibir,
por exemplo, atores de interpretarem qualquer papel com o qual não
compartilhem cor, gênero ou orientação sexual; autores de ficção de
criarem personagens fora de seu “lugar de fala” (o que mataria toda
literatura não testemunhal); e foliões de se fantasiarem com algo
diferente da roupa que eles já vestem todos os dias.
É
muito fácil detectar as bestas autoritárias à direita. Mas esse pessoal
vestido de hipster/moderno/progressista também não engana ninguém: o
traje verdadeiro deles é uma gandola, que vem com a própria ditadura —
fofinha, do bem — de brinde dentro do bolso (nem sei se gandola tem
bolso; se não tiver, paciência). E pode até demorar, mas eles vão
conseguir matar Jô pela segunda vez; agora no humor, que é o que restou
para nós depois que sua pessoa física se foi. Aqui me sinto obrigado a
adaptar Nelson Rodrigues, outro que está convenientemente estudando a
geologia dos campos-santos há décadas: Jô Soares está morto, mas os
censores (os do GNT e outros) viverão para sempre. A burrice é eterna.
***
A GOIABICE DA SEMANA
Pensei
em escrever sobre essa história de considerarem “ovelha negra” uma
expressão racista, mas só a ideia já me fez tombar a cabeça no teclado e
começar a roncar: acho que vou usar esse empolgante debate à noite, no
lugar do Stilnox. Prefiro dedicar a goiabice desta semana a Marlene
Engelhorn, jovem herdeira da Basf que anunciou a intenção de “abrir mão
de 90%” da fortuna de sua família, estimada em 4,2 bilhões de euros. Não
vi em nenhum dos veículos que deram a notícia, todos encantados com a
história, a observação de que, em tese, a magnânima Marlene ainda ficará
com 420 milhões de euros: coisinha pouca, suficiente apenas para suprir
as necessidades mais básicas. Força, guerreira!

Engelhorn, que fará o sacrifício de viver com apenas 420 milhões de euros.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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