Por que o confronto final entre Lula e Bolsonaro será decidido por paulistas e mineiros. Carlos Graieb para a revista Crusoé:
Na primeira semana da campanha eleitoral oficial, tanto Jair Bolsonaro quanto Lula visitaram Minas Gerais.
Na
terça-feira, 16, o presidente foi a Juiz de Fora, palco do atentado a
faca que quase o matou em 2018. “Estamos dando a largada de onde
tentaram nos parar”, disse ele, que em seguida defendeu as ações de seu
governo e relembrou os casos de corrupção associados ao PT.
No
dia seguinte, quarta-feira, Lula deu uma longa entrevista a uma rádio
mineira. Preparação para o comício de estreia realizado nesta quinta em
Belo Horizonte, a capital do estado, durante o qual o petista disse que
nesta eleição se opõem “democracia e barbárie” – uma variação da “luta
do bem contra o mal” propalada pelo seu adversário.
As incursões pelo solo mineiro não foram, obviamente, um acaso.
A
despeito do ambiente carregado e de todas as preocupações com a saúde
da democracia brasileira, estas eleições têm muito mais traços de
normalidade que as de 2018. O sentimento antipolítica refluiu. Bolsonaro
não é mais um outsider e, como qualquer candidato que busca a
reeleição, desta vez será julgado por tudo que disse e fez na
presidência. Como na grande maioria dos pleitos, a situação da economia
preocupa muito mais os eleitores do que questões ideológicas.
A pesquisa Datafolha divulgada no final da tarde desta quinta-feira
confirmou algumas expectativas. Ela mostra que as chances de uma
vitória de Lula no primeiro turno vão se tornando menores. A diferença
entre os dois candidatos, que era de 21 pontos percentuais em maio e de
18 pontos percentuais em julho, caiu agora para 15. O petista tem 47%
das intenções de voto, contra 32% de Bolsonaro, que cresceu 5 pontos em
um mês – provavelmente, por causa da melhora nas estatísticas de emprego
e da distribuição de bondades como o Auxílio Brasil turbinado e os
vouchers para caminhoneiros e taxistas.
Uma
campanha mais “normal”, protagonizada por políticos que já fincaram
suas bandeiras em amplas áreas do país (o Sul para Bolsonaro; o Nordeste
para Lula) e cujas intenções de voto começam a se aproximar, faz com
que a maioria dos analistas antecipe um cenário clássico, em que Minas
Gerais se apresenta palco da maior batalha. Daí as agendas no estado
logo no início da corrida.
Ao
lado de Minas, surge também São Paulo. Ao contrário de 2018, quando
Bolsonaro venceu o petista Fernando Haddad de lavada no estado, por uma
diferença de 8 milhões de votos, desta vez cada eleitor paulista terá de
ser conquistado com suor.
São
Paulo tem 34,6 milhões de eleitores e Minas, 16,2 milhões. Os dois
respondem, juntos, por quase um terço do eleitorado brasileiro, composto
por 156 milhões de votantes.

Um
fato sobre Minas é bem conhecido: todos os presidentes eleitos desde a
redemocratização também venceram no estado. Na verdade, é possível
retroceder ainda mais no tempo. A regra se aplica a todas as eleições
desde 1945, com uma única exceção: em 1950, o marechal Eduardo Gomes
prevaleceu em Minas, mas perdeu nacionalmente para Getúlio Vargas.
Menos
conhecida é a matemática do voto mineiro. Os resultados no estado
costumam espelhar bem de perto os resultados gerais da eleição. Em 2002,
2010 e 2014, por exemplo, o posicionamento dos candidatos em Minas, no
fim do primeiro turno, repetiu exatamente a ordem da votação nacional.
Desde 1989, a coincidência entre o perfil da votação em Minas e o perfil
da votação no Brasil foi de surpreendentes 74%.
Isso
acontece porque nenhum estado reflete melhor a diversidade do próprio
Brasil do que Minas Gerais. O norte mineiro tem características
semelhantes às da região Nordeste. O Triângulo Mineiro tem parentesco
com o Centro-Oeste. A Zona da Mata, a leste, reflete o Rio de Janeiro,
enquanto o sul faz lembrar São Paulo. A região metropolitana de Belo
Horizonte tem suas próprias peculiaridades, mas seus habitantes
enfrentam os mesmos problemas dos moradores de outras grandes cidades
brasileiras. O Indice de Desenvolvimento Humano de Minas Gerais é de
0,731, muito próximo do índice médio do país, de 0,727.
Quando
querem testar um novo produto, é normal que empresas façam o trabalho
em Minas, em vez de multiplicar as pesquisas pelo Brasil. Da mesma
forma, um candidato à presidência que conquista os mineiros
provavelmente encontrou mensagens adequadas para todas as regiões do
país. Para uma campanha política, decifrar o “irrevelável segredo
chamado Minas” (segundo o verso do mineiro Carlos Drummond de Andrade)
equivale à descoberta do Santo Graal.
Embora
tenha mostrado um estreitamento da diferença nacional em relação a
Bolsonaro, a pesquisa Datafolha trouxe boas notícias para Lula em Minas.
Ele aparece 20 pontos percentuais à frente do principal adversário: 49%
a 29%. Outra vantagem de Lula é que ele fechou uma aliança no estado
com o candidato ao governo Alexandre Kalil (PSD). O ex-prefeito de Belo
Horizonte, que subiu ao palanque com Lula nesta quinta-feira, aparece em
segundo lugar na eleição estadual, com 23% das intenções de voto,
contra 47% do líder Romeu Zema (Novo). Kalil e Lula têm força em
segmentos diferentes do eleitorado mineiro, o que significa que um pode
ajudar o outro a conquistar novos votos: o petista é popular no norte,
enquanto Kalil tem sua base na região metropolitana de Belo Horizonte.
Bolsonaro,
pelo contrário, não tem um bom palanque em Minas Gerais. Sua equipe até
tentou fazer um pacto com Romeu Zema, que nos últimos anos manifestou
apoio ao presidente em algumas ocasiões. Mas Zema não cedeu e não deve mexer um dedo em favor de Bolsonaro, que fará campanha ao lado de seu correligionário do PL Carlos Viana (apenas 5% de intenção de voto).

Em
São Paulo, Lula aparece 13 pontos percentuais à frente de Bolsonaro no
Datafolha: 44% a 31%. A diferença é a mesma registrada no começo de
julho, mas dois diretores de institutos de pesquisa que costumam ter
visões opostas sobre o cenário eleitoral concordaram num diagnóstico, em
conversas com a Crusoé. Com o andar da carruagem, afirmam eles, a
situação deve se inverter, levando Bolsonaro a conquistar a dianteira
(como, aliás, já acontece em algumas sondagens, como a do Paraná
Pesquisas divulgada no começo de agosto). “Um empate em São Paulo já
seria ótimo para Lula”, diz um dos cientistas políticos. “Bolsonaro tem
boas chances em São Paulo, um estado com longo histórico de antipetismo.
Se fizer tudo certo, ele pode crescer até 10 pontos no estado e
chacoalhar a eleição”, diz o outro analista.
O arranjo político é menos desfavorável a Bolsonaro em São Paulo do que em Minas. Seu candidato ao governo, o ex-ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas, é competitivo.
Ele aparece em segundo lugar na pesquisa Datafolha, com 16%, atrás do
petista Fernando Haddad (38%), mas à frente do atual governador Rodrigo
García (11%). Apesar de controlar a máquina administrativa potente e
bastante azeitada do estado, García pode, sim, ser suplantado por
Tarcísio, que assim garantiria a Bolsonaro um palanque em São Paulo no
segundo turno.
Do
lado petista, a equação é complicada. Como no restante do Brasil, Lula
tem menor rejeição em São Paulo do que seu partido, o PT. Portanto, não
se deve esperar que Fernando Haddad (derrotado por Bolsonaro em 2018)
carregue votos para o candidato à presidência. Também há sérias dúvidas
sobre a capacidade de Geraldo Alckmin, o vice de Lula que cumpriu quatro
mandatos no Palácio dos Bandeirantes pelo PSDB, conquistar para o PT
uma parcela do eleitorado que antigamente lhe era fiel. Marqueteiros e
pesquisadores ouvidos pela Crusoé dizem que, por enquanto, Alckmin é um
“não-personagem” na campanha paulista (ou, pior, é tachado de
“vira-casaca”, quando seu nome surge na conversa).
Ainda
assim, o ex-governador tucano deve passar boa parte da campanha no seu
estado natal, comparecendo a eventos com Haddad sempre que possível.
“Alckmin só vai começar a viajar agora pelo estado”, diz um integrante
da campanha petista em São Paulo. “Pelo seu perfil e pela sua história,
não temos dúvida que muitas resistências vão cair quando ele estiver no
corpo a corpo com eleitores e outros políticos. Um prefeito que não
apoia o PT me disse outro dia: não traga o Alckmin para a minha cidade,
porque não vou conseguir dizer não a ele.”
E o Rio de Janeiro?
Depois
de São Paulo e Minas, o Rio de Janeiro é o terceiro maior colégio
eleitoral do Brasil, com 12,8 milhões de votos. Segundo o Datafolha,
Lula tem 41% das intenções de voto no estado, contra 35% de Bolsonaro –
uma diferença de 6 pontos percentuais. Mas não será fácil para o
candidato petista manter essa vantagem. Além de ser o berço político do
bolsonarismo, o Rio tem outra particularidade: a forte presença de
evangélicos no seu eleitorado.
Segundo
o próprio Datafolha, Bolsonaro conseguiu ampliar ainda mais a vantagem
de que já desfrutava nesse segmento da população. Ele subiu de 43% para
49%, enquanto Lula caiu de 33% para 32%. Outras pesquisas mostram uma
distância ainda maior. Segundo o levantamento PoderData divulgado nesta
quarta, 17, Bolsonaro tem 51% contra 31% de Lula entre os evangélicos.
A
defesa consistente do núcleo familiar feita pelo presidente, face às
posições progressistas da esquerda nas questões de gênero, certamente
ajuda a explicar o fenômeno. O fervor evangélico de Michelle Bolsonaro,
que resolveu ser mais ativa na campanha, também é um trunfo do
presidente. E devem fazer algum efeito os golpes baixos, como aqueles
que associam Lula ao “mal” e à intenção de fechar igrejas. Mas esse,
justamente, é o campo em que o petista resolveu brigar com o presidente,
sobre quem disse nesta semana: “se tem alguém possuído pelo demônio, é o
Bolsonaro”. Sinal de que nem Lula nem seu partido têm ideia de como
fazer um bom combate em busca do voto evangélico e estão, sim,
preocupados com a recuperação de Bolsonaro nesse segmento de eleitores.
Entre
os estudiosos da eleição, o cenário mais provável é que no Rio de
Janeiro, assim como em São Paulo, Lula e Bolsonaro cheguem a uma
situação próxima do empate, com vantagem relativamente pequena para um
dos lados. Como reza a tradição, é de Minas que virá a decisão. No
momento, a vantagem no estado é de Lula, que tem boas chances de
mantê-la. Mas a campanha mal começou.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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