Precisamos parar de ceder a esse mal. É o tempo de lutar pela liberdade de expressão. Tom Slater, editor da Spiked, para a revista Oeste:
Pensar
nisso revira o estômago. Um homem esfaqueado por escrever um livro. E
não um homem qualquer, mas Salman Rushdie. O autor cuja cabeça estava a
prêmio. O autor de Os Versos Satânicos, o romance queimado por
islamistas no mundo todo. O autor cujo ato de “blasfêmia” no fim do
século 20 nos mostrou a profundidade do problema da intolerância
islâmica — e a profundidade da covardia do Ocidente liberal diante dessa
variante mais violenta e descontrolada da cultura do cancelamento.
Estamos
todos rezando por Salman Rushdie; até mesmo nós, que não acreditamos em
Deus. Ele foi levado por transporte aéreo para o hospital, depois de
ser esfaqueado diversas vezes no pescoço e no abdômen no palco de um
evento em Nova Iorque. Andrew Wylie, agente de Rushdie, afirmou que ele
está respirando por aparelhos e não consegue falar. “É provável que
Salman perca um olho; os nervos de um braço foram cortados, e seu fígado
foi esfaqueado e danificado”, ele declarou. Aqueles que acreditam em
liberdade no mundo todo estão torcendo para que ele sobreviva.
Ainda
não sabemos ao certo por que o suspeito — Hadi Matar, 24 anos, de Nova
Jersey — avançou no palco e esfaqueou Rushdie de forma enlouquecida,
segundo relatos. Mas temos uma suposição fundamentada. Durante mais de
30 anos, Rushdie viveu sob uma sentença de morte. Em 14 de fevereiro de
1989, o aiatolá Khomeini, do Irã, emitiu uma fatwa (decreto baseado nas
leis islâmicas) contra ele e contra todos os envolvidos na publicação de
seu quarto romance, considerado “blasfemo”. Rushdie passou nove anos
escondido. O tradutor do seu livro em japonês foi esfaqueado até a
morte, em 1991. O tradutor turco escapou por pouco de um incêndio
criminoso causado por islamistas que levou outras 37 vidas, em 1993
Em
anos recentes, Rushdie estava levando uma vida relativamente livre.
“Para mim, parece algo que ficou no passado”, ele declarou, sobre a
fatwa, em uma entrevista de 2018. Ele afirmou em seguida que estava
feliz que Os Versos Satânicos agora pudessem ser apreciados em seus
próprios termos. “Agora, depois de todo esse tempo, ele finalmente pode
ter a simples existência de um livro.” Mas a ameaça sempre esteve
presente. Apesar de o governo iraniano ter se distanciado da fatwa — e
estar em silêncio em relação a Rushdie hoje —, ela continuou existindo. A
recompensa de US$ 3 milhões foi acrescida de mais US$ 500 mil em 2012
por uma “fundação religiosa iraniana quase oficial”.
Agora
— muito provavelmente — Rushdie por fim pagou o preço mais terrível
pelo seu direito à liberdade de expressão. Não se pode superestimar o
significado disso. A intolerância islâmica se espalhou como um câncer
desde 1989. Agora ela pode ter chegado bem perto de uma de suas maiores
vitórias simbólicas. O ataque é um lembrete de quanto essa ideologia é
bárbara, retrógrada e, no entanto, patética. Um homem de 75 anos foi
esfaqueado por um idiota com um terço de sua idade. Por uma ofensa. Por
uma mágoa. Por um livro.
Chega.
Aturamos esse mal por tempo demais. Primeiro veio a fatwa, depois
vieram os quadrinhos dinamarqueses. Então veio o Charlie Hebdo. Então
veio Samuel Paty. Mesmo quando armas, facas e bombas não estão
envolvidas, vemos a censura islamista sendo infligida em nossas
sociedades ocidentais com assustadora eficácia. No Reino Unido, o
professor da escola Batley Grammar continua escondido, depois de mostrar
quadrinhos muçulmanos para sua classe mais de um ano atrás. Há alguns
meses, uma rede de cinemas cancelou as sessões de um filme “blasfemo”,
porque um bando de lunáticos fez um protesto do lado de fora de suas
salas.
Pior
ainda, não apenas cedemos às sensibilidades dos islamistas por medo de
suas violentas retaliações, nós as internalizamos. Nossas elites
culturais praticamente as compartilham. Em 2008, a editora Random House
desistiu dos planos de publicar The Jewel of Medina, um romance de
Sherry Jones que conta a história do relacionamento de Maomé com Aisha,
sua esposa de 14 anos. Tudo porque ele “pode ser ofensivo para parte da
comunidade muçulmana”. Se você fizer uma crítica ou uma piada muito
contundente ao Islã, será acusado de islamofobia — um termo popularizado
por islamistas. Um pastor em Belfast foi levado a julgamento em 2015
por um sermão “extremamente ofensivo”. Seu crime? Ele chamou o Islã de
“satânico”. Agora somos todos aiatolás.
Nossas
novas leis sobre blasfêmia foram escritas com as tintas da covardia
liberal. E o caso de Salman Rushdie revelou o tamanho dessa covardia. Na
vida pública, gente demais não o defendeu em 1989. As pessoas hesitaram
e contiveram sua condenação a Khomeini com sua condenação a Rushdie. O
antigo presidente Jimmy Carter chamou Os Versos Satânicos de um
“insulto” aos muçulmanos menos de um mês depois que a fatwa foi
declarada. Quando Rushdie recebeu o título de cavaleiro em 2007, foi um
alvoroço. A finada “liberal democrata” Shirley Williams afirmou que “não
era prudente nem muito esperto” dar a um homem que “havia ofendido
profundamente os muçulmanos” tamanha honraria.
A
censura não é simplesmente uma importação estrangeira, claro. A
situação de Rushdie expôs a cultura local do Ocidente de censura e seu
distanciamento dos valores liberais, rumo a uma ideologia de
multiculturalismo que é condescendente com os mesmos grupos que afirma
proteger, que trata os muçulmanos como se fossem fundamentalmente
diferentes de nós, incapazes de ser cidadãos livres e tolerantes. No
Ocidente, a convicção de que as palavras machucam e que hereges devem
ser abandonados promoveu um clima de censura quase absurdo. As pessoas
costumam dizer que Os Versos Satânicos não teriam sido publicados hoje. O
que é quase com certeza verdade. Mas, se vamos ser honestos, Harry
Potter provavelmente também não seria publicado hoje — não por causa do
conteúdo ocultista, mas por causa das opiniões indizíveis de sua autora,
crítica da política de gênero.
A
vingança islamista que Salman Rushdie sofreu nos mostra onde vamos
parar quando a liberdade de expressão é abandonada. Quando a ofensa se
torna um crime moral. Quando você diz que a fala é uma violência, você
termina com violência, irracionalidade e terror. Então, para todos os
que olharam para o chão enquanto esse veneno se intensificava, está na
hora de escolher um lado. Aqueles que acreditam em liberdade e
humanidade precisam se pronunciar em defesa de Salman Rushdie — e de
todos os outros hereges. E nem pensem em dizer “mas…”. O ataque a
Rushdie é um ataque a todos nós. Vamos tornar a liberdade de expressão a
causa da vida dele, a causa do nosso tempo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI



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