BLOG ORLANDO TAMBOSI
O momento para o país nórdico, eternamente à sombra da Rússia, é de perigo existencial, não para perder tempo com a baladinha da chefe do governo. Vilma Gryzinski:
Lá vamos nós citar Churchill de novo: “Finlândia
– soberba, não, sublime. Nas garras do perigo, a Finlândia mostrou o
que homens livres são capazes de fazer. O serviço prestado pela
Finlândia à humanidade é magnífico”.
O
“serviço” foi resistir durante três inacreditáveis meses à poderosa
União Soviética, numa guerra no meio da guerra, em 1939, provocando 400
mil baixas no Exército Vermelho. Até Stalin ficou impressionado: andando
de esqui, disse ele, os finlandeses conseguem “escalar pinheiros,
esconder-se entre os galhos, cobrir-se com um lençol branco ou
camuflagem e se tornar completamente invisíveis”.
Os
problemas atuais da Finlândia – ameaças russas, redobradas pela
histórica decisão do país de entrar para a Otan – empalidecem diante do
passado heroico e ao mesmo tempo trágico. Apesar da resistência, a
Finlândia afinal teve que ceder 10% do seu território e abraçar uma
política de neutralidade forçada.
Mas
política é política (e fofoca é fofoca ) e a Finlândia ficou dominada
pelo vídeo em que a primeira-ministra Sanna Marin aparece num
apartamento, com uma turma de amigos – mais amigas, na verdade – fazendo
algo que a humanidade inteira abaixo dos 50 anos já fez: cantando, dançando e fazendo carão na frente de um celular.
Ela nega que, ao fundo, apareça o refrão: “Gangue da farinha”. O significado é exatamente o mesmo que no Brasil.
Sanna
aparece de regatinha e moletom, ao contrário das infinitas variações de
terninho preto com top branco que usa nas funções oficiais. Ela tem 35
anos, é esbelta e bonita e não faz pregações morais como a chatíssima
Jacinda Ardem, a primeira-ministra da Nova Zelândia, que concorre na
mesma faixa. Na vida civil, já foi fotografada de shortinho jeans com
jaqueta de couro, uniforme universal dos shows de rock.
Num
país como a Finlândia, em que a privacidade é preservada ao ponto da
barreira intransponível de comunicação entre as pessoas, em nome da não
invasão de espaços pessoais, a reação à baladinha da primeira-ministra
foi excepcional. Percebendo o tamanho da encrenca, ela acabou dizendo
que nunca usou drogas e estava disposta a fazer um teste para provar
isso. “Não tenho nada a esconder”, garantiu, na típica atitude de
políticos que têm muito a jogar para baixo do tapete.
A
proposta de um teste de drogas é uma atitude excepcional para tempos
excepcionais. Ao contrário da imagem de país neutro e pacifista, a
Finlândia se prepara há muitas décadas para voltar a enfrentar o vizinho
muito mais poderoso e eternamente ameaçador com o qual tem a
infelicidade de dividir 1 340 quilômetros de fronteira (“Não podemos
fazer nada com relação à geografia”, disse Stalin a um representante do
governo finlandês antes da guerra, referindo-se ao fato de que
Leningrado, base vital da indústria soviética, ficava a menos de 30
quilômetros da divisa entre os dois países. “Já que Leningrado não pode
mudar de lugar, vamos ter que mudar a fronteira”).
Praticamente
toda a infraestrutura existente acima da terra é reproduzida abaixo
dela e as forças armadas finlandesas treinam intensamente para sua
especialidade, a guerra de inverno.
A
invasão da Ucrânia provocou uma profunda transformação no país: a
opinião pública e o establishment político, inclusive o partido de
centro-esquerda liderado por Sanna Marin, passaram a apoiar o fim da
neutralidade – quase fictícia – e, juntamente com a Suécia, pediram o
ingresso na Otan.
O
famoso artigo número 5 da carta da Otan garante que o ataque contra
qualquer um de seus integrantes exige uma resposta coletiva de todos os
demais – e, acima de todos eles, dos Estados Unidos.
É este artigo que dá uma muito relativa tranquilidade a antigos satélites soviéticos como os países bálticos e a Polônia.
É
difícil para quem não tem a história dramática da região no currículo
entender o quanto os países dessa esfera têm medo e desconfiança em
relação à Rússia.
A Finlândia passou uma parte de sua trajetória sob domínio da Rússia e
da Suécia. A população finlandesa da região da Ingria, que ficou em
território soviético depois da Revolução, foi simplesmente exterminada
pelo clássico método da deportação em massa em condições indescritíveis.
Este
passado de terror coletivo, revivido agora pelas constantes ameaças aos
vizinhos que passaram a fazer parte do vocabulário corriqueiro dos
meios de comunicação da Rússia, explica decisões como a tomada em
conjunto pela Finlândia e a Estônia de reduzir em 90% os vistos
turísticos fornecidos a cidadãos russos.
Por
causa das sanções europeias, a única maneira, para os russos, de ir a
países da região é viajar de carro para um vizinho e, a partir dele,
pegar um voo mais longo. Desde ontem, os vistos turísticos para russos
estão cancelados pela Estônia, exceto em casos que tenham motivos
humanitários ou familiares.
Uma
festinha corriqueira de uma primeira-ministra como Sanna Marin – a
segunda mais jovem chefe de governo do mundo, depois do chileno Gabriel
Boric – tem importância bem relativa num momento como o atual. O que
realmente interessa foi ressaltado por mais uma invasão do espaço aéreo
finlandês feita ontem por dois MiG-31 russos, uma tática rotineira de
provocação.
“Depois
da vitória da Ucrânia, vou cair na balada tão pesado que até Sanna
Marin vai ficar com inveja”, brincou no Twitter o jornalista ucraniano
Illia Ponomarenko.
Seria
bom se fosse verdade, mas a realidade é que o país de Sanna, como os
outros da região, passou a viver num mundo muito mais perigoso desde 24
de fevereiro, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e desestabilizou
vizinhos que têm todos os motivos do mundo para achar que a coisa não
vai ficar por aí.

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