As próximas semanas serão de emoções. A terceira via tentará se unir em torno de uma candidatura única. A campanha do ex-presidente Lula vai entrar em fase de reflexões e transformações. Já Bolsonaro vai buscar consolidar sua tendência de alta e tentar mostrar que não depende apenas dos votos que seriam de Sergio Moro. Murillo de Aragão para a Veja:
Algum tempo atrás, muitos consideravam que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva
nas eleições presidenciais deste ano era um fato consumado. No entanto,
e de forma surpreendente para muitas pessoas, a história está se
desenrolando de forma diferente. Nem o ex-presidente já ganhou nem o
presidente Jair Bolsonaro (PL) está descartado. E, no limite, a terceira via ainda pode se apresentar, mesmo com chances remotas.
Fato
é que a pandemia, os seus efeitos e as narrativas do governo para
enfrentá-los deram a muita gente a certeza de que Bolsonaro ficaria
irremediavelmente afetado e não chegaria competitivo ao pleito. A
sequência de confusões e o permanente conflito com a grande mídia
promoviam a percepção de que “não é possível que ele possa se reeleger”.
A
pouco mais de seis meses das eleições, obviamente muita água ainda vai
passar por baixo da ponte e fatos surpreendentes podem ocorrer. Os
acontecimentos, porém, têm se mostrado de forma diversa do esperado por
muitos. Por quê? Vários fatores justificam esse cenário. O primeiro é
que Bolsonaro revelou extraordinária resiliência para enfrentar os
equívocos do seu governo na pandemia, a batalha contra a imprensa e o
ambiente econômico desfavorável. Mesmo com elevado nível de
desaprovação, conseguiu manter uma base de apoio importante.
O
segundo fator reside no resultado de algumas de suas políticas públicas
que beneficiam um eleitorado que segue os movimentos clientelísticos da
política nacional. O auxílio emergencial, as antecipações de benefícios
e o recente vale-gás já afetam de forma favorável o desempenho do
presidente. O terceiro fator é que a campanha de Lula tropeçou na
largada em meio a polêmicas que assustam setores do eleitorado
centrista. Existe ainda um debate entre pragmáticos e dogmáticos que
paralisa a sua campanha. O embate termina colocando Lula — conforme eu
já disse e, também, a jornalista Thaís Oyama — na posição de tentar
levar o centro para a esquerda, e não a esquerda para o centro. Um erro
grave.
Qual
a consequência disso tudo? O tracking da AtlasIntel e da Arko Advice
aponta um estreitamento significativo da vantagem de Lula sobre
Bolsonaro. Na semana passada, a diferença entre ambos era de 6 pontos
porcentuais. Acredita-se que uma parte dos votos que teria ido para o
ex-ministro Sergio Moro (União)
migrou para Bolsonaro. Mas somente isso não explica a situação. Vale
destacar que Lula perdeu pouco, mas Bolsonaro subiu muito. Porém iniciar
uma campanha com um teto alto não significa que a preferência dos
eleitores resistirá aos embates da jornada. Uma viagem pelo “Brasil
Grande” mostra que Bolsonaro é mais forte do que os setores das elites
dos formadores de opinião gostariam que fosse.
As
próximas semanas serão de emoções. A terceira via tentará se unir em
torno de uma candidatura única. Uma tarefa um tanto inglória, mas que
pode funcionar, já que em política tudo é possível. A campanha do
ex-presidente Lula vai entrar em fase de reflexões e transformações. Já
Bolsonaro vai buscar consolidar sua tendência de alta e mostrar que não
depende apenas dos votos que seriam de Sergio Moro. Para isso, contará
com a melhora da economia e com os efeitos eleitorais de suas políticas
assistenciais. E, eventualmente, ser menos conflituoso.
Publicado em VEJA de 27 de abril de 2022, edição nº 2786
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