A tendência da crise ucraniana será desescalar na direção de algum tipo de toma-lá-dá-cá. Já o futuro de Taiwan me parece bem mais incerto. Paulo Kramer para a Gazeta do Povo:
Conquanto
separados por meio mundo de distância, os destinos da Ucrânia e de
Taiwan tendem a se entrelaçar cada vez mais no tabuleiro geopolítico. A
avaliação é de Hal Brands, titular da Cátedra Henry Kissinger da Escola
de Estudos Internacionais Avançados (Sais, em Washington, D.C.) da
Universidade Johns Hopkins, em recente artigo de sua coluna na Bloomberg
Opinion. Brands, autor de vários títulos sobre geopolítica e história
militar, acaba de lançar The Twilight Struggle: What the Cold War
Teaches Us About Great-Power Rivalry Today.
Em
2014, na sequência de um movimento popular que destituiu o presidente
pró-russo da Ucrânia, a Rússia revidou anexando a Crimeia. Uma precária
paz foi negociada em 2015, com o Acordo de Minsk, capital de Belarus
(antiga República Soviética da Bielo-Rússia), mas isso não impediu que
até hoje cerca de 14 mil pessoas tenham morrido em combates na região do
Donbass, extremo leste da Ucrânia, onde Moscou continua apoiando forças
irregulares anti-Kiev. A escalada russa agora prossegue com o
deslocamento de cerca de 100 mil soldados para a fronteira ucraniana e a
realização de exercícios militares conjuntos com o exército de Belarus,
o que aviva os receios de uma invasão-relâmpago.
Fica
cada vez mais clara para o mundo a estratégia do presidente russo
Vladimir Putin, que manobra para reconstituir a antiga esfera de
influência soviética na Europa recorrendo ora à diplomacia, ora a
ameaças de uso de força, mais de 30 anos depois do fim da Guerra Fria.
Desse modo, Putin não admite que a Ucrânia, outra ex-república soviética
situada no “entorno imediato” do território russo, ingresse na
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ou mesmo que se
converta em parceiro externo ao bloco, com direito à assistência militar
dos Estados Unidos e seus aliados europeus. No front econômico, a
adesão ucraniana à União Europeia é outro tabu para o Kremlin.
De
sua parte, o presidente da China e secretário-geral do Partido
Comunista Chinês, Xi Jinping, dá a entender por palavras e atos (a
exemplo das incursões cada vez mais frequentes dos jatos do Exército de
Libertação Popular no espaço aéreo taiwanês) que não pretende continuar
protelando indefinidamente a anexação de Taiwan ao império do centro.
Brands
observa: “Xi compreende que Taiwan é mais importante para os Estados
Unidos do que a Ucrânia”, razão pela qual a “administração Joe Biden
espera evitar um envolvimento mais profundo na Europa”, já tendo
rejeitado “explicitamente a possibilidade de defender a Ucrânia por
meios militares”, de modo que seu governo possa “centrar o foco na
China” (até agora, a mais grave ameaça com que Washington conta para
dissuadir Moscou consiste em excluir a Rússia do sistema SWIFT de
pagamentos internacionais).
O
colunista da Bloomberg adverte, porém, que na política mundial nenhuma
“região pode ser hermeticamente isolada de outras”. E acrescenta: “A
maneira pela qual o Ocidente responder a uma invasão russa” à Ucrânia,
“caso isso venha a ocorrer, pode fornecer pistas sobre como o mundo
democrático responderia à beligerância chinesa. Um colapso da segurança
na Europa oriental acarretaria pressões sobre os recursos
norte-americanos, o que talvez possibilitasse a Pequim maior espaço de
manobra na Ásia”. Ele conclama o governo americano a que se prepare para
a eventualidade de uma invasão chinesa a Taiwan, levando em conta as
primeiras lições que a crise ucraniana oferece.
De
saída, ela evidencia as dificuldades de alinhar uma resposta ocidental –
e não apenas no terreno militar. Se o cancelamento da Rússia no SWIFT
já levanta reticências e preocupações entre as autoridades econômicas de
alguns aliados transatlânticos, dá para imaginar quão mais complicado
seria aplicar esse tipo de sanção à superpotência chinesa, conectada ao
mercado mundial por inúmeros vínculos comerciais e financeiros. Brands
sugere a seguinte alternativa: no momento em que a máquina de guerra
americana tiver de auxiliar os taiwaneses a repelir um ataque inicial do
continente, os Estados Unidos poderão recorrer a sanções “mais ou
menos” unilaterais, enquanto costuram uma ampla coalizão econômica de
guerra, como, por exemplo, a proibição das exportações de semicondutores
mais sofisticados, uma ameaça que já foi apresentada aos russos. De
outra parte, a velocidade com que essas crises se desenvolvem ensina que
nunca é cedo demais para planejar e ensaiar ações militares conjuntas.
Nesse
sentido, Estados Unidos e Japão precisam intensificar seus exercícios
militares nas ilhas próximas a Taiwan, possíveis bases para rechaçar a
frota chinesa. Por último, mas não menos importante, Hal Brands
recomenda o posicionamento de maiores contingentes das forças armadas
dos Estados Unidos em território taiwanês. Na minha opinião pessoal, a
tendência da crise ucraniana será desescalar na direção de algum tipo de
toma-lá-dá-cá, com Putin desistindo da invasão em troca da
neutralização militar da Ucrânia (uma “finlandização”). Já o futuro de
Taiwan, na mira de uma China cada vez mais disposta a reescrever as
regras do sistema internacional à imagem e semelhança de seu regime
iliberal e fortemente centralizado, me parece bem mais incerto.
Paulo Kramer é cientista político e especialista da Fundação da Liberdade Econômica.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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