MEDIÇÃO DE TERRA

MEDIÇÃO DE TERRA
MEDIÇÃO DE TERRAS

segunda-feira, 7 de março de 2022

Parole, parole, parole.

 

BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

O NYT parece a sua tia-avó dizendo “o que os olhos não veem, o coração não sente”, e você não pagaria 8 dólares por mês para ouvir a filosofia da sua tia-avó — e sem ganhar em troca aqueles Tupperwares cheios de comida, o que é pior. Ruy Goiaba para a Crusoé:


Por favor, sejam solidários a este colunista e me digam que vocês também ficaram viciados em Wordle. Para quem ainda não conhece: é um jogo que consiste em acertar palavras de cinco letras, em até seis chances. A primeira tentativa é puro chute, mas a partir dela o jogo vai indicando (por um sistema de cores) se as letras que você escolheu estão no lugar certo da palavra que tem de ser descoberta; se elas fazem parte, mas estão no lugar errado; ou se elas não existem naquela palavra. Há versões do jogo em praticamente todas as línguas ocidentais, incluindo várias em português, como Termo, Letreco e Palavra do Dia.

Lançado em outubro de 2021, o Wordle virou o que um boomer chamaria de febre — ou melhor, coqueluche — na internet, com milhões de usuários todos os dias. Tanto que, no final de janeiro, o New York Times comprou o jogo de seu criador, o engenheiro de software Josh Wardle, por um preço “na casa dos sete dígitos”, segundo o próprio jornal. Foi aí que, para usar uma expressão ainda mais antiguinha que febre e coqueluche, a porca começou a torcer o rabo.

Reportagens de veículos como a Newsweek e o site BoingBoing.net mostram que o New York Times decidiu barrar do Wordle uma série de palavras “insensíveis ou ofensivas”. Elas incluem não só termos geralmente empregados como palavrões, como whore ou bitch, mas também slave (escravo) e wench (muito usada nos tempos de Shakespeare para se referir a uma mulher jovem, mas que também tem o significado de “serva”). Vejam bem, não é que esses termos estejam proibidos de figurar como “palavra a descobrir” do dia: eles simplesmente são limados do dicionário usado no jogo (aparece a mensagem “not in word list”). Suponho que Bryan Ferry não possa nem pensar em cantar Slave to Love, muito menos Britney Spears sua I’m a Slave 4 U, perto desse povo tão zeloso.

Pensam que acabou? Tem mais: o jornal também decidiu excluir do Wordle uma série de palavras “obscuras” — de acordo com o porta-voz do NYT, a intenção é “manter o quebra-cabeça acessível a mais pessoas”. Um desses termos esquisitões que dançaram foi agora, importado da Grécia antiga e que existe com praticamente a mesma grafia em português (ágora, no sentido de “lugar de reunião”), além de estar na origem de palavras como agoraphobia (medo de espaços abertos ou públicos; agorafobia é, portanto, o oposto de claustrofobia).

Não sei o que é mais desolador nessa história toda. Minto, na verdade sei: já é chato que se perca a graça de adivinhar as “palavras difíceis” no menor número de tentativas possível porque o New York Times acredita que seu leitor médio é assim, sei lá, meio burrão. Mas muito pior é suprimir do dicionário — sim, porque foi isso que o jornal fez — palavras desagradáveis, para não ferir a suscetibilidade sabe-se lá de quem. Slave descreve uma situação degradante que ocorreu ao longo de toda a história da humanidade e acontece ainda hoje; o termo em si não é ofensa de cunho racial, já que houve escravidão dos mais variados tipos de povos (a palavra deriva de “eslavo”; surgiu, segundo o dicionário Merriam-Webster, “da frequente escravização dos eslavos na Europa Central durante o início da Idade Média”). E escondê-lo no Wordle não vai mudar em um milímetro a situação dos escravizados no mundo — embora talvez aplaque a consciência culpada dos leitores do NYT, que continuarão comprando roupas e eletrônicos produzidos por gente semiescravizada em alguma sweatshop asiática.

Nem vou falar aqui em George Orwell, novilíngua etc.: no fundo, isso é acreditar que a supressão de uma palavra possa resultar, magicamente, em alguma espécie de eliminação da coisa ruim que ela nomeia. O NYT parece a sua tia-avó dizendo “o que os olhos não veem, o coração não sente”, e você não pagaria 8 dólares por mês para ouvir a filosofia da sua tia-avó — e sem ganhar em troca aqueles Tupperwares cheios de comida, o que é pior. Em Parole, Parole, clássico da MPB (música popular brega) nos anos 70, a cantora italiana Mina Mazzini se irrita com o companheiro que lhe dirige palavras românticas vazias; hoje, o casal da canção esfregaria logo seu index prohibitorum na cara um do outro, antes mesmo do início da música. Livre-pensar, já dizia Millôr Fernandes, é só pensar.

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A GOIABICE DA SEMANA

Hoje a seção bem poderia se chamar A Goiabice da Semana de 22, que completou 100 anos no domingo passado. De um lado, tivemos Ruy Castro, o excelente biógrafo de Nelson Rodrigues, Carmen Miranda, Garrincha e tantos outros, batendo o próprio recorde de bairrismo carioca e pendurando a comemoração oficialesca dos 50 anos do evento pelo regime militar, em 1972, na conta de Mário e Oswald de Andrade (curiosamente, para Ruy, a ditadura serve para “impugnar” modernistas já mortos naquela época, mas não Nelson Rodrigues, que estava vivo e a apoiava explicitamente). Aí, do outro lado, veio o Estadão, campeão de bairrismo paulista, e conseguiu dizer que a Semana “inaugurou a cultura no país” — ou seja, NÃO EXISTIA esse troço estranho chamado “cultura” no Brasil antes de 1922. Foi difícil conter as ganas de bater no pessoal com a minha estatuinha do Machado de Assis até ela falar “senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados”.

Como diria Grande Otelo vestindo a tanga de Macunaíma: ai, que preguiça!

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