Nossa abolição pacífica, conservadora em vez de revolucionária, deveria voltar a ser comemorada. O amor por guerras civis é coisa de marxistas carniceiros. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Algo
que me parece original no pensamento de Sowell é a explicação das
animosidades raciais nos Estados Unidos por meio da polarização
político-ideológica. Como vimos no último texto, tudo começou com uma
confusão demográfica entre raça e cultura: a maioria dos negros dos
Estados Unidos era da cultura redneck; eles migraram do Sul agrário para
o Norte industrial e os brancos não-miscigenados, maioria nos Estados
Unidos, consideram que os negros são todos assim, desconsiderando a meia
dúzia de negros livres que havia por lá antes do êxodo rural. Tais
negros, os do Norte, estudavam em escolas junto com os brancos e gozavam
de cidadania, já que a Constituição dos Estados Unidos não fala de
raça.
A
teoria de Sowell é a seguinte: sendo o Ocidente uma excepcionalidade na
história da escravidão, havia uma tendência à abolição gradual de tal
instituição nos Estados Unidos. Tal processo deixou de ser pacífico por
causa do Movimento Abolicionista, surgido entre os brancos puritanos do
Norte.
Há
uma grande confusão de termos aí, sobretudo por causa da conotação
pacífica que o termo “abolição” tem no Brasil. Nossos abolicionistas
eram pacíficos e moderados; não defendiam que se pegasse em armas para
invadir estados, nem nada. Foi tudo costurado, não houve guerra, e,
quando chegou a canetada final da Princesa Isabel, poucos brasileiros
ainda eram escravos. Tanto por causa da grande quantidade de negros que
conseguiram comprar a própria alforria, quanto por causa da persuasão da
campanha abolicionista, que levou os próprios senhores a libertarem
seus escravos.
Para
se ter uma ideia da virulência do Movimento Abolicionista original,
basta a informação trazida por Sowell de que Frederick Douglass era
recriminado por ter comprado a própria liberdade e ficar quites com a
lei, porque assim ele “legitimava” a escravidão. As consequências que
Douglass teria de enfrentar na condição legal de fugitivo simplesmente
não vinham ao caso; o que importava era reafirmar as próprias
convicções, sem nenhuma consideração pelo custo e benefício das ações.
Outra
diferença importante em relação ao Brasil é que o Movimento
Abolicionista era regional; era de uma região do país contra a outra. O
Norte urbano e cheio de puritanos, constituído por aquelas comunidades
religiosas fanáticas, resolveu que o Sul rural e promíscuo tinha que
acabar com a escravidão. O resultado disso acabou sendo uma sangrenta
Guerra Civil, que, segundo Sowell, matou uma pessoa para cada seis
escravos libertos. Foi a guerra que causou mais baixas em toda a
história do país.
Assim,
ser um Abolicionista e ser favorável ao fim da escravidão eram coisas
diferentes. Lincoln e John Randolph não eram do Movimento Abolicionista,
mas ambos eram favoráveis ao fim da escravidão em algum momento. Sem
filhos, ambos deixaram suas lavouras e a alforria como herança para seus
escravos.
Excepcionalidade do Ocidente
Uma
das premissas da teoria dele é óbvia e ululante, ainda que negada por
uma incansável propaganda revisionista: a escravidão era um fato banal
das sociedades humanas por todo o globo, até o Ocidente decidir acabar
com isso. A primeira religião organizada a decidir que a escravidão
tinha que acabar foram os quacres, e o primeiro país a gastar uma grana
alta com o fito de impedir o comércio de escravos foi a Inglaterra.
Uma
coisa que ele não menciona, mas é digna de nota, é que a ideia de
acabar com a escravidão tem origens na Grécia Antiga. Popper a aborda em
"O mundo de Parmênides". O "Menéxeno", de Platão, seria uma resposta
escravagista às propostas antiescravagistas de Péricles. Popper lê
Platão como um apologista de Esparta e sabotador dos ideais iluministas
de Atenas.
Segundo
Sowell, o revisionismo histórico que pinta a escravidão negra como
fenômeno único, e que coloca brancos maus caçando negros bons, foi
inaugurado com o romance "Roots: The Saga of an American Family", de
Alex Haley, publicado em 1976. O próprio Haley disse que não estava
muito preocupado com fatos, pois queria dar aos negros um mito pelo qual
se guiar. Ainda assim, um romance histórico ignorante é tratado nas
escolas dos Estados Unidos como representante da verdade histórica.
Mas,
para convencer o leitor da peculiaridade do Ocidente, ele compara o dia
em que saiu a Lei Áurea no Brasil ao dia em que a escravidão foi
abolida na Turquia. Aqui, houve um festejo generalizado pelas ruas. Por
mais que estivessem felizes, porém, os brasileiros nunca deixaram de se
envergonhar por ser o último país ocidental a acabar com a escravidão.
Na Império Otomano, em 1855, a turba assassinou os emissários do Sultão
encarregados de anunciar a proibição do comércio de escravos e a lei não
pegou. Em 1860, quando houve uma nova tentativa de fazer valer a lei,
os emissários ficaram com medo de dar o anúncio e a lei não pegou de
novo. O sultão só legislava por pressão britânica.
Escravidão
era norma no mundo e o Império Britânico ofendeu várias tradições
culturais com seu imperativo ético. Para se ter uma ideia da novidade do
abolicionismo, Sowell conta que o primeiro grupo religioso organizado a
adotá-lo foram os quacres. Antes disso, a Igreja católica, embora
desgostasse da escravidão, deixava o acerto de contas para a outra vida.
Ela tentava melhorar a condição dos escravos negros e impedir a
escravização de índios. E uma coisa que Sowell não menciona, mas que é
muito importante para marcar as diferenças entre Brasil e Estados
Unidos, é que a Igreja proibia a poligenia humana. Todos eram iguais e
filhos de Adão e Eva. Os protestantes permitiam a poligenia, então
permitia que se falasse em hierarquia racial.
O medo nos Estados Unidos
Sowell
não diz com todas as letras, mas fica implícito o desejo dele de que o
fim da escravidão nos Estados Unidos tivesse sido como no Brasil:
gradual e pacífico. Segundo ele, havia entre os senhores de escravos do
seu país uma tendência similar à dos brasileiros, de ir alforriando os
escravos, que iam se acostumando à vida livre sem grandes solavancos. No
entanto, duas coisas impediram esse processo: o fato de os Estados
Unidos serem uma democracia e de o Norte ter se tornado agressivo com o
Sul.
A
democracia teme o ingresso de uma nova massa de eleitores; por isso, o
medo da elite política seria razoável nos EUA e irrazoável no Brasil.
Nisso Sowell está errado, pois o Brasil era uma monarquia
parlamentarista que votava em congressistas e vereadores. Logo, os
políticos do Brasil também teriam por que temer o ingresso de uma nova
massa de eleitores. A diferença é que nós não tínhamos por que achar que
os negros são de uma qualidade diferente dos demais humanos, já que a
Igreja não nos formou assim.
Seja
como for, o temor da elite política a levou a proibir os senhores de
saírem alforriando sem passar pela burocracia. Ainda assim, a sociedade
sulista era maior do que isso e existiam vilas de negros que eram livres
de fato, muito embora fossem escravos perante a lei, por causa da
burocracia.
Vamos
então ao outro motivo, que é uma corrupção do debate nos Estados
Unidos. Embora não cite Weber, Thomas Sowell gosta muito do assunto
discutido por ele ao distinguir ética da responsabilidade e ética da
convicção. Max Weber, em "Ciência e Política", condena quem adote um
princípio ético como guia inflexível para a conduta, à revelia das
consequências: “Quando as consequências de um ato praticado por pura
convicção se revelam desagradáveis, o partidário de tal ética não
atribuirá responsabilidade ao agente, mas ao mundo, à tolice dos homens
ou à vontade de Deus, que assim criou os homens. O partidário da ética
da responsabilidade, ao contrário, contará com as fraquezas comuns do
homem […] e entenderá que não pode lançar aos ombros alheios as
consequências previsíveis de sua própria ação”. Thomas Sowell defende a
ética da responsabilidade valendo-se do vocabulário conservador de
Edmund Burke e John Randolph of Roanoke. Ambos falam pejorativamente de
quem raciocina com base em “princípios abstratos”.
Além
da falta de pragmatismo e do descompromisso com as consequências, a
retórica inflamadíssima dos partidários da ética da virtude levou a um
acirramento de posições que só pôde terminar em guerra. Se de um lado os
abolicionistas queriam uma revolução súbita, sem ligar para a
exequibilidade, do outro surgiu no Sul uma reação virulenta que se
empenhava em justificar a escravidão tanto pelo racismo quanto pelo
positivismo legal. Foi o clima polarizado de opinião que levou à guerra,
e não condições materiais nem nada.
Encerro
citando Sowell: “Só quem estava nos extremos opostos do espectro de
opinião achava a questão da escravidão muito fácil: gente como o Senador
John C. Calhoun da Carolina do Sul, que queria manter os negros na
escravidão indefinidamente, e como William Lloyd Garrison do
Massachusets, que defendia a emancipação imediata dos negros com todos
os direitos de cidadania. Ironicamente, os dois raciocinavam com base em
princípios abstratos – princípios legalistas, no caso de Calhoun, e
moralistas, no caso de Garrison”.
Nossa
abolição pacífica, conservadora em vez de revolucionária, deveria
voltar a ser comemorada. O amor por guerras civis é coisa de marxistas
carniceiros.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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